Raios cósmicos e a Grande Pirâmide


"Os egípcios não eram um povo de mentalidade esotérica", escreve o antropólogo e arqueólogo Paul Jordan em sua contribuição para o livro Archaeological Fantasies. "Mesmo os rituais de Osíris eram bem menos esotéricos que os mistérios de Elêusis dos gregos (...) O Livro dos Mortos pode ser obscuro e fantástico, mas não é uma composição esotérica". A ideia do Egito Antigo como uma terra de mistérios e segredos esotéricos escondidos por trás de uma mitologia alegórica, a ser interpretada por iniciados, é uma invenção tardia, surgida no período posterior à conquista do país por Alexandre Magno e amplificada na Europa da Renascença e, depois, na Era Vitoriana.

Por conta disso, é uma grata surpresa encontrar, na literatura científica, um verdadeiro mistério egípcio -- e envolvendo não só uma das pirâmides como, também, raios cósmicos!

Vamos lá: três experimentos envolvendo detectores de múons -- partículas criadas pela colisão de raios cósmicos com a atmosfera, e que viajam em velocidades próximas à da luz -- revelaram a existência de um espaço vazio, talvez uma câmara, até agora desconhecido no interior da pirâmide de Quéops, a Grande Pirâmide do Egito.

A imagem acima mostra a localização do vazio, acima da Grande Galeria que liga o espaço tradicionalmente chamado de Câmara do Rei à chamada Câmara da Rainha. Muitos múons passam através da pirâmide, mas alguns deles são detidos ou desviados pela rocha. A contagem dos múons que chegam ao detector permite produzir um mapa das variações de densidade no interior da estrutura.

Os três experimentos -- dois deles realizados na Câmara da Rainha e o terceiro, do lado de fora da pirâmide, apontando para sua face norte -- constataram corretamente os espaços vazios correspondentes às câmaras e galerias conhecidas da pirâmide, mas apontaram um novo, semelhante à Grande Galeria em tamanho e orientação (veja a imagem abaixo, que também mostra o posicionamento dos diferentes detectores).



"Aqui informamos a descoberta de um grande vazio (com seção transversal similar á da Grande Galeria, e comprimento mínimo de 30 metros) sobre a Grande Galeria, o que constitui a primeira importante estrutura encontrada na Grande Pirâmide desde o século 19", escrevem os autores do trabalho, publicado na revista Nature.

Com 139 metros de altura, a pirâmide de Quéops foi concluída há mais de 4 mil anos. É a única das Sete Maravilhas do Mundo Antigo ainda em pé.

Há toda uma "escola" de pseudociência associada a ela, cujos praticantes são muitas vezes chamados, pelos egiptólogos sérios, de "piramidiotas". O pai da piramidiotice foi o astrônomo ítalo-britânico Charles Piazzi Smyth, cujo livro Our Inheritance in the Great Pyramid, de 1864, abraça uma série de mitos numerológicos a respeito das medidas da Grande Pirâmide, muitos dos quais circulam até hoje.

Smyth é o autor do cálculo, depois popularizado por Erich von Däniken, de que a altura da pirâmide de Quéops, multiplicada por 1 bilhão, corresponde "aproximadamente" à distância média da Terra ao Sol. Essa coincidência (que, aliás, depende de uma acepção bem generosa de "aproximadamente") ainda impressiona algumas pessoas.

Não deveria. Como mais de um crítico já notou, qualquer número arbitrário, se suficientemente manipulado, cedo ou tarde acabará correspondendo a uma aproximação de um valor "significativo" qualquer, seja ele a circunferência da Terra, o comprimento da órbita de Júpiter ou a massa do cérebro humano. A propósito, o comprimento da cauda de minha gata, multiplicado por 1 bilhão, corresponde "aproximadamente" à distância média da Terra à Lua, mas não vejo nenhum significado esotérico nisso (embora talvez devesse).

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