Trevas no coração do jornalismo "de bem-estar"


Sempre tive um certo pé atrás com o modo, digamos, "canônico" de se fazer jornalismo de saúde na grande imprensa brasileira. Há uma fórmula: parte-se de uma condição (uma doença -- digamos, câncer de pulmão), de um tratamento e/ou mecanismo preventivo (digamos, uma nova técnica cirúrgica, talvez uma vacina recém-lançada) ou de uma conduta (pode ser fumar, deixar de fumar, vacinar-se, não vacinar-se).

A partir daí, buscam-se os chamados "personagens", que são pessoas que sofrem da condição/submeteram-se ao tratamento/têm ou não têm a conduta. Até algum tempo atrás, matéria de saúde em jornalão, sem personagem, era algo quase tão herético quanto matéria de economia sem o Maílson da Nóbrega. E isso porque o Maílson deu uma sumida, mas os personagens, não.

Se o núcleo de personagens envolver uma família (a combinação de criancinha fofa doente com mamãe guerreira, cheia de esperança, mas com lágrima -- quase imperceptível -- no canto do olho é especialmente matadora), o prêmio de fim de ano da firma está quase garantido.

Tendo-se a condição e o(s) personagem(ns), é chegada  a hora do médico. Pode ser apenas um, entrevistado mais longamente, ou dois ou três (neste caso, com declarações curtas). Às vezes acontece de a pauta surgir do próprio médico, que procura o jornalista já com os personagens a tiracolo, ou emergir dos personagens, que comentam sobre quem é o médico que os orienta. Enfim, a ordem dos fatores varia, mas o produto final tende a seguir sempre o mesmo padrão geral.

Não hesito em admitir que muito jornalismo bom já foi, e ainda é, produzido dentro desse padrão. Ele permite ao leitor empatizar com o paciente, encarar a doença sob uma perspectiva humana (como afeta a vida das pessoas), ao mesmo tempo em que aprende alguma coisa sobre biologia ou medicina.

O problema é que a fórmula faz isso ao preço de distorcer, por completo,  uma série de fatos muito importantes, e passa ao leitor uma visão errada, e perigosa, de como a medicina funciona. Dá para seguir a fórmula ao pé da letra e produzir uma reportagem cheia de loas à homeopatia. Ou à fosfoetanolamina sintética. Ou a qualquer outra coisa que você possa imaginar.

O que a fórmula não deixa o leitor perceber é que o que valida, ou deixa de validar, uma terapia não é o fato de ela ter, aparentemente, "dado certo" (ou errado) para a criancinha fofa que aparece na reportagem. E que a opinião de um especialista isolado não é, necessariamente, a opinião da classe médica como um todo, nem reflete, automaticamente, o consenso dos pesquisadores que estudam o assunto.

Enfim, sob o pretexto de injetar "interesse humano" num assunto talvez árido e desagradável (doença, morte), a fórmula, repetida ad nauseam em jornais, revistas e na televisão, deixa o leitor intelectualmente despreparado para separar o joio do trigo. E, portanto, vulnerável ao joio.

Por conta dessa receita, o jornalismo de saúde vive numa corda-bamba ética, equilibrando-se sobre os abismos da irresponsabilidade e do charlatanismo. Em anos recentes, no entanto, surgiu uma modalidade derivada que não está na corda-bamba porque já resolveu se jogar, gostosamente, no abismo: o chamado jornalismo "de bem-estar".

Ele segue, em linhas gerais, a fórmula, com duas variantes: a condição não precisa mais ser uma doença (vale celulite, vontade de comer chocolate, infelicidade no amor) e o especialista ouvido não precisa mais ser médico. Aliás, não precisa mais ser nada. A única credencial necessária é fazer-se ouvir pelo repórter.

Esse tipo de jornalismo veio crescendo a partir das revistas de estética feminina, e seu primeiro grande escândalo explodiu há alguns anos na Austrália, como o caso Belle Gibson, uma mulher que primeiro mentiu dizendo que tinha tido câncer e, depois, mentiu de novo, dizendo que tinha se curado com uma dieta de produtos naturais, e que foi abraçada pela mídia "de bem-estar". Gibson ganhou um prêmio da revista Cosmopolitan. Grandes editoras dispuseram-se a publicar seu livro de receitas.

Um livro investigativo recém-publicado sobre o escândalo, The Woman Who Fooled the Word, tem como subtítulo "as trevas no âmago da indústria do bem-estar". Uma entrevista com os autores, publicada em The Guardian, aponta que "as mesmas pessoas que se recusaram a fazer perguntas a ela enquanto subia agora se recusam a responder a perguntas sobre ela, após a queda". Aconteceu na Austrália, mas nada impede que aconteça aqui: dados os padrões atuais da mídia, talvez seja inevitável.

Comentários

  1. Pois é, Carlos, este trecho aqui que você cita no último parágrafo: "as mesmas pessoas que se recusaram a fazer perguntas a ela enquanto subia agora se recusam a responder a perguntas sobre ela, após a queda" vale para tanta coisa no jornalismo que para não transformar este comentário em tese vou citar, en passant, só o caso mais emblemático do ano de 2016: uma certa menina de um vale nos arredores de San Francisco que vendia uma história de empreendedorismo de sucesso que na verdade era a maior fachada, desmascarada por um simples blogueiro e youtuber que fez, veja só, uma única pergunta: quem é esta pessoa e o que ela faz de verdade?

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    1. Essa área de empreenderorismo-coaching-inspiração-sucesso é a sucessora do televangelismo da prosperidade. O curioso é que estou lendo um livro sobre os movimentos anti-intelectuais nos Estados Unidos e fico com a impressão de que estamos mais ou menos onde eles estavam lá por volta de 1940, quando o pessoal de autoajuda deixou de oferecer conselho (economize, trabalhe, tenha disciplina) e passou a oferecer "mágica".

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