"Dizem estudos": o caso do vinagre de maçã



Outro dia fui ao mercado comprar vinagre de maçã -- por nenhuma outra razão além da de que é o tipo de vinagre que a Mais Paciente de Todas as Esposas gosta de usar na salada -- e fiquei surpreso ao ver que, em vez de estar engarrafado em plástico, ao lado dos vinagres de vinho tinto, vinho branco e álcool, o de maçã agora aparecia em garrafas de vidro, como as de vinagre balsâmico, e custava mais que os outros. Bem mais.

Voltei para casa resmungando contra essa onda insuportável de gourmetização do trivial e não pensei muito mais no assunto, até me deparar com esta postagem do blog de Edzard Ernst,  médico e pesquisador alemão radicado na Inglaterra e, possivelmente, o maior especialista em medicina alternativa do mundo (spoiler: ele concluiu que essas coisas não prestam). No blog, Ernst comenta que o vinagre de maçã vem sendo promovido como uma panaceia por certos veículos de mídia de "estilo de vida" e "bem-estar". A lista de supostos benefícios vai de aumentar a absorção de nutrientes a reduzir pressão arterial. E, claro, sempre aparece alguém para falar em câncer.

A base de evidências para isso é mínima ou inexistente, no entanto. A maioria dos artigos publicados se refere a pequenos estudos realizados em animais, que podem ou não ser relevantes para a saúde humana. A revista Popular Science chama atenção para o fato de que muitos desses estudos aparecem em periódicos de baixa qualidade. Ernst, por sua vez, encontra dois -- apenas dois -- trabalhos científicos publicados sobre os supostos efeitos clínicos do vinagre de maçã em seres humanos.

Um deles trata de um estudo de caso -- isto é, a descrição de algo que aconteceu com um único paciente -- sobre o uso de vinagre de maçã para tratar candidíase vaginal, onde parece que a técnica deu certo. Mas é preciso tomar cuidado com a automedicação à base de vinagre: outro artigo científico chama atenção para o risco de queimaduras químicas em pessoas que usam vinagre de maçã como um meio "natural" para remover pintas. O melhor é seguir a recomendação da Popular Science: mantenha o vinagre longe dos genitais e procure um médico.

O segundo artigo citado por Ernst envolveu uma amostra de apenas dez pessoas (menor que a usada por John Bohannon em seu estudo fajuto sobre chocolate e emagrecimento), concluiu que o vinagre de maçã parece retardar o esvaziamento do estômago em pacientes diabéticos, o que não é uma coisa boa. Como Ernst bem aponta, trata-se de um estudo piloto, cuja função é apontar coisas interessantes, não produzir conclusões firmes.

Existe, ainda, um trabalho de autoria de pesquisadores brasileiros que mostra que o vinagre de maçã  é bom em matar fungos do gênero Candida (lembra-se da candidíase, lá em cima?),  ao menos em ambiente de bancada de laboratório. O foco desse estudo específico era saúde bucal de usuários de dentadura.

A primeira lição a tirar disso é que alguém papagaiar por aí que um produto qualquer faz bem à saúde tem efeito inflacionário. A segunda, mais séria, é de que "dizem estudos" não quer realmente dizer muita coisa, quando não se tem acesso ao devido contexto.

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