Truques paradoxalistas



Pesquisando para uma postagem que fiz semana passada, encontrei uma expressão, "paradoxalistas", usada por Alfred Russell Wallace para se referir a pessoas que se recusam, teimosamente, a aceitar evidência científica que contradiz suas crenças pessoais. Wallace, especificamente, teve uma série de problemas com terraplanistas, que ele acabou processando por calúnia diversas vezes.

Em sua autobiografia, Wallace se refere a sua polêmica com os terraplanistas como "o incidente mais lamentável de minha vida": depois de demonstrar, empiricamente, a curvatura ad Terra, respondendo a um desafio desse grupo, o cientista passou a ser alvo de incômodos de diversos tipos, incluindo processos judiciais e cartas difamatórias. Ele escreve no livro que o geólogo Charles Lyell acreditava que uma demonstração clara da curvatura deveria "deter esses tolos". O que, obviamente, não aconteceu.

Terra plana é apenas uma faceta do paradoxalismo. A síndrome reaparece em diversos outros campos, como a negação da mudança climática, a ufologia, a defesa de remédios "alternativos" e do criacionismo, por exemplo.

Como Wallace descobriu a duras penas -- "eles nunca se deixam convencer", escreve -- debater com paradoxalistas é, fundamentalmente, uma perda de tempo: quando se apresentam como dispostos ao diálogo, geralmente o fazem apenas em busca de uma plataforma para reiterar suas convicções prévias e atingir uma audiência maior, muitas vezes parasitando a reputação de um adversário célebre (parafraseando Paulo Francis, "um debate comigo ficará bem no currículo dele, mas um debate com ele não vai engrandecer o meu").

A despeito da variedade dos temas que atraem paradoxalistas, há algumas manobras retóricas que são comuns ao tipo. Deixo uma breve lista -- de modo algum exaustiva -- aqui, para registro. Ela pode ser útil da próxima vez que alguém começar a criar textões barrocos nos comentários de alguma postagem do Facebook sobre efeito estufa:

1. Apelo à incredulidade pessoal: "Eu ainda não estou convencido..."; "Não consigo imaginar como..."; "Me parece inconcebível...". Claro, e a Terra vai parar de girar e as Leis da Natureza vão ficar suspensas só porque você é meio lerdo para pegar as coisas. Não há nada de errado em manifestar perplexidade. Mas perplexidade, em si, não é argumento.

2. Apelo à motivação espúria: "Você precisa ver a agenda por trás disso aí...".  O fato de uma pessoa ter, talvez, motivos escrotos para dizer que 2+2=4 não muda o fato de que 2+2=4. Ou, o fato de você ser paranoico não significa que não estão tentando mesmo lhe matar. O apelo à motivação espúria é um dos modos mais eficientes de mudar de assunto: em vez de discutir os fatos, discute-se as intenções de quem cita os fatos.

3. Apelo à ignorância: "Ninguém sabe o que são essas luzes estranhas no céu, logo elas vêm de outro planeta" é o exemplo clássico. Se ninguém sabe o que elas são, logo ninguém sabe. Ponto. Qualquer coisa além disso é mera especulação.

4. Nivelamento das probabilidades:  É a prima-irmã do apelo à ignorância: "Já que ninguém sabe o que aquela luz é, minha hipótese de que é uma nave de outro planeta tem tanto valor quanto a sua de que é um balão". Não, não tem. Diferentes hipóteses podem ter, e geralmente têm, diferentes graus de probabilidade e requerem diferentes níveis de prova, definidos pelo contexto científico maior: a existência de balões, por exemplo, já está bem estabelecida. A de naves alienígenas...

5. Exigência excessiva: "Ninguém tem uma compreensão completa do funcionamento do clima da Terra, então como se pode afirmar que o aquecimento global tem causa humana?"  Ninguém tem compreensão completa da gravidade, também (seus aspectos quânticos ainda nos escapam), mas a compreensão que temos é suficiente para permitir que enviemos sondas a Plutão, construamos arranha-céus e saibamos que pular de arranha-céus é uma má ideia. A questão não é se sabemos tudo; é se o que sabemos é adequado para embasar nossas alegações.

6. Uso capcioso dos dados: O fato de a seleção feminina de basquete ser toda composta por mulheres mais altas do que eu não muda o fato de que, em média, homens são mais altos que mulheres. O uso de exemplos isolados para tentar negar afirmações sobre médias ou tendências gerais tem impacto retórico, mas é um indicador claro de desonestidade intelectual.

7. Apelo à pesquisa irrelevante: Citam-se estudos sem ligação, ou com ligação muito tênue, com o tema, ou trabalhos de má qualidade, já retratados. Tem até quem cite estudos inexistentes.

8. Distorção da pesquisa disponível: Um artigo diz que certo tratamento "parece melhor que um placebo", mas adverte que "os dados disponíveis são inconclusivos e de má qualidade". Cita-se o primeiro trecho entre aspas e omite-se o segundo. Homeopatas fazem muito isso. Já escrevi a respeito em outra postagem.

9. Surdez (ou cegueira) seletiva: Ocorre quando o paradoxalista insiste em reapresentar, como válida ou desafiadora, uma anomalia já devidamente explicada. Acomete tanto terraplanistas que continuam citando certos experimentos em que a refração da luz na atmosfera cria a ilusão de que a curvatura da Terra não existe, ignorando que a refação precisa ser levada em conta, quanto inimigos dos transgênicos que continuam  a mencionar o péssimo estudo conduzido por Gilles-Eric Séralini em 2012.

10. Conspiração: Se o patriotismo é o último refúgio do canalha e  a violência, o último recurso do incompetente, a teoria da conspiração é o último refúgio, e recurso, do paradoxalista. Trata-se de uma espécie de argumento pot-pourri que, de um só golpe, epitomiza todos os anteriores: questiona motivos, valida a pesquisa irrelevante, vira a hierarquia das probabilidades de ponta-cabeça, e, por fim, reduz tudo a uma questão de incredulidade pessoal:  se eles controlam tudo, as pessoas então só podem confiar no próprio bom-senso.

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