Explicando o impossível na ficção



Saiu! Já tinha anunciado isso nas redes sociais, mas para os amigos que só seguem o blog, isto pode (ainda) ser novidade: meu conto The Glass Floor está na mais recente edição da americana Ellery Queen's Mystery Magazine (EQMM), disponível para compra online, em ebook ou papel. E esta é uma história que tem uma história. Ei-la.

Tenho o hábito irritante de me interessar por mais coisas do que consigo fazer direito. Dois desses hobbies negligenciados são mágica (um dia, muito tempo atrás, eu fazia uns truques até passáveis com cartas) e xadrez (sou consistentemente derrotado pelo meu telefone celular, que só joga em modo "iniciante"). Para minha felicidade, no entanto, certo dia descobri um nicho literário que oferece estímulo e prazer muito semelhantes aos do xadrez e da mágica: a história de crime impossível.

O "crime impossível" prototípico é o assassinato cometido num quarto trancado por dentro, ou a vítima de homicídio à queima-roupa encontrada na areia da praia (ou num monte de neve) e sem pegadas ao redor. Originalmente uma modalidade anglo-americana por excelência -- exercitada, por exemplo, por luminares como John Dickson Carr ou Edward D. Hoch -- , com a ascensão em popularidade do mistério de caráter mais social e psicológico, a modalidade acabou migrando para outras plagas. Hoje, os maiores virtuoses do gênero são o japonês Soji Shimada e o francês Paul Halter.

Como um truque de mágica, um crime impossível depende crucialmente do controle do tempo e do ponto de vista; como um bom jogo de xadrez, sua construção deve parecer, ao mesmo tempo, inevitável e surpreendente.

Da admiração veio o desejo de testar a mão no gênero, e depois de anos de esforços mais ou menos bem-sucedidos, a maioria ainda no campo da ficção científica (os mais masoquistas podem conferir um deles aqui) e de minha desilusão com o mercado editorial brasileiro, comecei a mirar o mercado de língua inglesa.

Foi mais de meia década de rejeição atrás de rejeição, várias vezes ao ano, mas há uns dois anos alguma coisa clicou: primeiro consegui vender um par de histórias para a canadense Mystery Weekly, sendo a segunda (The Adventure of the Dead Frog) um mistério meio humorístico de crime impossível, e por fim a EQMM houve por bem adquirir The Glass Floor, um crime impossível bem mais sério e "brilhante" (cof, cof, isso quem diz é a editora, não eu).

Curiosamente (e não tenho a menor explicação para isso), The Glass Floor é talvez uma das coisas mais brasileiras que já escrevi: não só o conto se passa no Brasil, como parte da tensão entre os personagens se deve ao fato de serem filhos da ditadura -- homens que, quando crianças, viram adultos tendo de fugir do país, ou simplesmente desaparecendo. Ah! E também tem um cassino. Outra coisa que sempre quis incluir num conto, como ponto do enredo, foi jogo de azar. Desta vez, deu.

Também ainda neste ano deve sair a antologia A World of Horror, que reúne contos de terror de autores de diversas partes do mundo, da África do Sul à Ucrânia. O único autor sul-americano presente sou eu. Falando nisso, faz tempo que não escrevo terror, fantasia ou ficção científica: mistério (prefiro essa designação a "policial", mas até aí é só idiossincrasia minha) é o meu gênero da vez, e o crime impossível, o foco.

Por quê? Não sei. Em parte, talvez, fadiga -- lido com os chamados "gêneros fantásticos" pelo menos desde 1990, afinal. Mas transições do fantástico para o mistério, ou vice-versa, não são inéditas: para ficar num exemplo notável, Anthony Boucher, o editor de ficção científica que revelou Philip K. Dick, também foi um dos mais importantes editores e críticos de mistério do século passado. Então, a conexão existe.

Por alguma razão obscura, imagino que meu apego ao crime impossível e ao conto de mistério clássico (onde o leitor recebe todas as informações a que o detetive tem acesso) tem algo a ver com minha paixão inicial pela ficção científica. Em ambos os casos, afinal, há uma expectativa de ordem racional por trás do fantástico e do absurdo.

Comentários

  1. Que legal, li muita coisa sua disponível na amazon, pretende disponibilizar em português o conto sozinho?
    Todo sucesso pra você! Boa sorte.

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    1. Oi, Rodrigo, obrigado! Olha, por enquanto não tenho planos de verter a história para o português, não... Mais pra frente, quem sabe?

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  2. Parabéns, Carlos! E obrigado pelas dicas do japonês e do francês, eu não conhecia. abs

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    1. Eu que agradeço, Braulio! O romance mais famoso do Shimada, "The Tokyo Zodiac Murders", é muito bom. E do Halter tem um conto nessa mesma EQMM com o meu.

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