A vitória dos mesquinhos perfeitos


Oi, gente? Tudo bem aí? Faz tempo que não visito o blog, eu sei. Quase todo o material que ando produzindo sobre ciência tem saído na Revista Questão de Ciência, então a área aqui ficou meio redundante, mas o que tenho pra dizer hoje é estritamente pessoal, sem ligação com nenhuma instituição, empresa, etc. Então, blog pessoal é o canal adequado. Vamos lá.

Lá se vão uns 25 anos, fui editor de política de um jornal no interior do estado de São Paulo. Um de meus poucos e pequenos orgulhos profissionais foi a cobertura que fiz de uma CPI sobre o achaque de empresários de coleta de lixo por agentes públicos, e que acabou pondo fim à vida política de uma figura que... bom, deixa pra lá.

A parte interessante, e didática, desse momento obscuro de minha carreira é que, de repente -- ou, ao menos, para mim foi bem de repente -- a administração municipal da época, tucana, passou a me tratar como inimigo. E, por tabela, ao jornal como um todo. Repórteres de Cidades (gente que mantém contato constante com o poder público pra informar o leitor sobre, por exemplo, mudanças no trânsito, horário de posto de saúde, urbanização de favelas) começaram a ser sistematicamente boicotados.

Além disso, o grupo político que dava apoio ao prefeito da época resolveu lançar seu próprio jornal, que basicamente falava bem da prefeitura e mal do veículo em que eu trabalhava. Aqueles eram, talvez, tempos mais gentis, e nunca fui atacado publicamente pelo nome, mas de repente eu e meus colegas de redação éramos aquela juventude petista.

O ponto a que quero chegar é que a cobertura nunca foi petista. Eu sei. Eu estava lá. Eu era a cobertura. O jornal era pequeno e pobre: tudo que saía sobre política era ideia minha, executada por mim. Eu saía correndo das sessões da Câmara Municipal, de bloquinho na mão, desenhando a página na cabeça (este texto vai no alto, este abaixo, a foto no meio...) e pra chegar ofegante na redação, escrever feito um louco e baixar tudo pra gráfica. Eu. Sozinho. No máximo, com o fotógrafo.

E eu só estava tentando fazer o melhor trabalho possível, dentro das minhas circunstâncias, com o pouco de talento que me cabia. Não estava tentando sabotar a administração. Não estava tentando pôr o PT no poder. Não estava manipulando os preços dos imóveis nos vetores de crescimento urbano. Estava usando meu treinamento de quatro anos de faculdade para apurar, selecionar, editar e publicar informações de interesse público. Que é a definição técnica mais básica de "jornalismo", assim como a de engenharia civil é "fazer coisas que parem em pé".

Óbvio que quase ninguém na administração municipal acreditava nisso. Se a prefeitura estivesse fazendo um trabalho decente, eu diria isso (a secretaria de Saúde e o serviço de habitação eram muito bons, e eu dizia isso).

No fim, o boicote da prefeitura aos outros setores do jornal ficou tão grave que acabei escrevendo uma espécie de carta-manifesto-editorial a respeito da situação. Nele, ao me referir às repetidas acusações quanto à minha suposta "agenda partidária", escrevi que era muito triste ver como pessoas cujos horizontes pessoais são intrinsecamente mesquinhos -- sinecuras, propinas, joguinhos de poder, etc. -- parecem ser incapazes de imaginar que os outros podem realmente apenas estar fazendo um trabalho honesto. A régua da mesquinharia não mede nada além de si.

Aí fui trabalhar com ciência e comunicação de ciência e achei que tinha deixado esse mundinho escroto de second-guessing e de gente que sempre esperar o pior de todos para trás. Não tinha, de vez, mas a intensidade com certeza é bem menor. Ou era.

Porque na última semana me senti de volta ao círculo tragicômico de intrigas da boa e velha assessoria de imprensa do Paço Municipal, circa 1994. Só que com o sinal invertido: hordas petistas-psolistas-whatever de repente disparando acusações delirantes de conspiracionismo direitista  contra um texto que, embora não de minha autoria, eu já havia lido e relido seguidas vezes, conhecia bem -- e que, sabia, não tinha nada disso -- somadas a ataques pessoais a um dos autores (só um, mulher).

Não vou discutir aqui se o texto continha erros, se poderia ter sido melhor escrito, ter tornado alguns pontos mais claros, etc. Em princípio, todo texto sempre poderia ser melhor ou mais claro. Pressupor o contrário é dizer que existe uma comunicação perfeita, que há um emissor capaz de sempre dizer o que quer com acurácia plena, do melhor jeito possível e com as palavras exatas, escolhidas de modo impecável e postas nos lugares mais precisos. Isto é perfeição, e perfeição não existe.

Meu ponto é que a presunção de malícia foi imediata, e desencadeou uma onda de ofensas de baixo calão extraída do mais puro léxico olavista, somada a insinuações difamatórias e caluniosas de todo o tipo, e alegremente seguida pelo bandwagon -- no caso específico, esquerdista.

Hoje, mais velho e menos tonto (mais sábio?) reconheço que, à régua da mesquinharia, soma-se outro fator -- a presunção do monopólio das boas intenções. É assim: uma pessoa, ou grupo, acha que todo mundo só faz o que faz pra ganhar dinheiro, sexo, fama ou poder. Todo mundo, menos aquela pessoa ou grupo. Eles, não. Eles fazem pelo Amor, pelas Criancinhas e pela Humanidade.

É muito fácil achar que essa presunção é uma marca distintiva das esquerdas, mas isso seria incorreto. Ela anda por toda parte. O empresário que acha que bolsa-família é "coisa de vagabundo" está nessa, por exemplo. E a união da régua da mesquinharia ao monopólio das boas intenções cria o monstro das redes sociais, o mesquinho perfeito, o cara que lê o mundo pela lente baixa da vantagem, mas que se acredita um puro altruísta.

O mesquinho perfeito é um tipo ideal: todos nós o encarnamos, de vez em quando. Quando a mesquinharia se apossa de várias pessoas e elas reagem em turba, no entanto, o fenômeno é assustador. As únicas formas de evitá-lo é manter uma boa dose de humildade interpretativa à mão e, ora bolas, exercitar aquele velho princípio-base da civilização, a presunção da inocência. Porque a alternativa, damas e cavalheiros, é o caos.

Comentários

  1. Vou adotar o termo. Em tempo, pode ser um tipo ideal, mas arre, como e com que frequência é encarnado nas redes. O criador do termo "tipo ideal" (Max Weber, se lembro bem) ficaria assustado.

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