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Adeus, tenente Columbo

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Eu não ia postar nada neste feriado, mas a morte do ator Peter Falk, que durante décadas interpretou o tenente Columbo da polícia de Los Angeles na televisão -- primeiro no seriado dos anos 70, e depois uma longa série de especiais -- não podia passar em branco aqui no blog.

Sei que o chique é idolatrar seriados como Sienfeld ou Lost ou, entre os nacionalistas, a obra de Janete Clair ou Dias Gomes, mas para mim o ápice da arte de escrever para televisão foi atingido em Columbo. Existem três  temporadas do seriado disponíveis em DVD no Brasil, e esses são, provavelmente, os discos mais repassados no meu fiel aparelho.

(Quando eu estava na faculdade, irritava minha mãe ao insistir em voltar para São Paulo na tarde de domingo -- cedo demais, ela dizia, por que você não passa mais tempo com a família? A resposta era que o sinal da Record era muito ruim em Jundiaí, e eu não queria perder o episódio de Columbo.)

Mas, enfim, de que se trata? Columbo era um seriado policial inovador na medida…

WTF é Corpus Christi?

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Esta quinta-feira é feriado de Corpus Christi (ou "Porcos Tristes", para quem acompanha o futebol paulista), mas aposto que poucas pessoas sabem exatamente do que esse negócio se trata. Não é preciso ser um gênio para sacar que o nome em latim, Corpus Christi, significa "corpo de Cristo", mas e daí?

Bom, se você teve sua infância marcada pela experiência -- provavelmente não traumática, mas certamente tediosa -- de passar pela suíte católica catecismo-primeira comunhão, há-de lembrar-se de que "corpo de Cristo" é o que o padre (ou diácono, ou ministro) diz antes de oferecer a hóstia.

Então: "Corpus Christi" é uma festa católica criada para celebrar a instituição do sacramento da eucaristia -- o consumo do corpo e do sangue de Cristo sob a forma de pão e vinho -- . pelo próprio Jesus, durante a Última Ceia.

(A historicidade dos eventos relativos à Última Ceia é questionável, para dizer o mínimo. A primeira menção à instituição da eucaristia apar…

Pareto, Sturgeon, Campbell e a produção acadêmica

A ideia de que "metade da produção científica nacional é lixo", articulada por um pesquisador entrevistado em reportagem do Estadão que constata que o crescimento da academia brasileira em indicadores quantitativos -- número de mestres, de doutores, publicações -- não representou ganho comensurável de qualidade me trouxe à mente três "leis" mais ou menos empíricas: A Revelação de Sturgeon, o Princípio de Pareto e a Lei de Campbell.

(Confesso que tenho uma queda para máximas com nomes. É um vício principalmente estético-literário, suponho.)

Começando pela Revelação (às vezes chamada "Lei") de Sturgeon: a máxima, segundo diz a lenda, foi elaborada na década de 50 pelo escritor de ficção científica Theodore Sturgeon, cansado de ter de defender o gênero em que escrevia das acusações de ser um campo da literatura dominado por textos fracos, irrelevantes, cheios de clichês. Diz a Revelação: "90% de qualquer coisa é merda".

"Qualquer coisa", …

Pornografia gay excita homens homófobos

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Tremo em imaginar o que as palavras-chave no título desta postagem farão com a audiência deste blog, mas não dava para deixar de mencionar: um estudo publicado em 1996 pelo Journal of Abnormal Pyschology mostrou que homens homófobos sentem excitação sexual ao assistir a vídeos de pornografia gay.

Abaixo, traduzo o trecho principal do "abstract" (negrito por minha conta):

Os autores investigaram o papel da excitação homossexual em homens exclusivamente heterossexuais que admitiram sentimentos negativos em relação a indivíduos homossexuais. Participantes consistiram em um grupo de homens homófobos (n=35) e homens não-homófobos (n=29).
(...)
Os homens foram expostos a estímulos eróticos explícitos consistindo de vídeos heterossexuais, homossexuais femininos e homossexuais masculinos, e mudanças na circunferência do pênis foram monitoradas.
(...) 
Ambos os grupos exibiram aumento na circunferência peniana durante os vídeos heterossexuais e homossexuais femininos. Apenas os homens hom…

A falácia do ajuste fino

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Finalmente dei conta de terminar The Fallacy of Fine Tuning, do físico Victor Stenger, livro que, com o perdão do pleonasmo, "encara de frente" os argumentos de que as constantes e leis da Física parecem ter sido "escolhidas a dedo" para permitir a existência de vida inteligente baseada em carbono -- ou seja, nós.

Stenger é o representante das ciências exatas no time dos "novos ateus", o grupo de personalidades públicas do mundo de língua inglesa que resolveu deixar a clássica timidez do ateísmo filosófico de lado e partir para o ataque contra as religiões. Seu livro God: The Failed Hypothesis, que trata a questão da existência do tradicional Deus judaico-cristão-islâmico como uma hipótese científica (e termina por rejeitá-la) chegou à lista de best-sellers do New York Times.

Curiosamente, do grupo dos "novos ateus"  -- Dawkins, Hitchens, Dennett, Harris --, Stenger é o único que continua inédito no Brasil (ao menos, uma busca por seu nome na Li…

Tarados por um segredo

Pessoalmente acho que já há blogs demais tratando de política no Brasil, mas como a questão das liberdades de informação e expressão me interessa profundamente, decidi abrir uma exceção temática por aqui e fazer uma postagem a respeito da paixão, quase que soviética, pelo segredo de Estado que parece ter se apossado do governo brasileiro.

Primeiro, a questão do "sigilo eterno" dos documentos ultrassecretos. Se entendi direito, a preocupação seria com a reação de países vizinhos ao comportamento do Brasil em situações como a anexação do Acre e a Guerra do Paraguai.

Não sei exatamente o que dizer desse argumento -- se devo encará-lo como dissimulação canhestra (isto é, o que se pretende esconder é na verdade outra coisa) ou se como um indicador real do tipo de visão de mundo que nossos líderes têm. Difícil saber qual a situação mais assustadora.

Digo, quando eu estava no ensino médio a Dona Berenice, nossa professora de História do Brasil, já ensinava que a tomada do Acre da B…

Utopia na porrada

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Como você convence as pessoas a cooperar com estranhos?

Esta é uma pergunta fácil de formular, mas bem difícil de responder. O sucesso da espécie humana é resultado direto da capacidade do Homo sapiens de confiar em, fazer sacrifícios por e cooperar com pessoas que não fazem parte de sua família. 
Não se trata, é claro, de uma capacidade ampla e ilimitada -- como a epidemia de nepotismo e patrimonialismo que assola o Brasil, desde sempre, mostra -- mas o fato é que ela existe. E é, no fim, o que nos distingue das formigas.
Uma explicação comum para o que permite a extensão da solidariedade humana para além dos indivíduos geneticamente ligados a cada um de nós apela para dois fatores: a evolução do cérebro e a centralização do poder.
A parte sobre evolução do cérebro propõe que, quando a evolução desenvolveu, em nossa espécie, a capacidade de simpatizar com nossos pais, filhos e irmãos, ela não fez um trabalho muito bom na hora de definir limites estritos para essa simpatia.
Assim, da mesma…