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See you later, aligator!

Eu ia fazer uma longa postagem filosófica sobre como o caso dos "transgênicos cancerígenos", supostamente detectados num estudo realizado por cientistas franceses, mostra que a produção de ciência ruim impulsionada por cegueira ideológica não é monopólio da "direita" mas, em vez disso, deixo vocês com esta fantástica análise, definitiva, dos defeitos fatais do estudo francês, feita pelo blog The Crux. Os problemas de ética jornalística envolvidos na forma como o estudo foi divulgado foram muito bem tratadas por Carl Zimmer.

Esta postagem, de fato, é para -- além de oferecer, aos interessados na questão da segurança dos transgênicos e da transformação da ciência em ferramenta populista, os links acima -- avisar que estou saindo em férias. Este blog ficará, portanto, largado às moscas durante a maior parte dos próximos 30 dias. Talvez eu volte no fim do mês, mas não contem lá muito com isso. De repente eu posto umas fotos da viagem aqui ou no Facebook, mas tentarei r…

Feliz Dia da Blasfêmia!

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Quando as pessoas começam a falar em leis contra a blasfêmia, eu fico me perguntando se elas realmente pensaram a fundo no que isso significa. Digo, ficando só nas religiões abraâmicas, o Novo Testamento é blasfemo do ponto de vista dos judeus (ao dizer que Deus tem um filho), o Alcorão é blasfemo para os cristãos (ao dizer que a crucificação de Jesus foi uma farsa), o cristianismo e o judaísmo são blasfemos para o islã (ao negar o papel de Maomé como profeta), o judaísmo é blasfemo para os cristãos (ao negar a divindade de Jesus) e o Livro de Mórmon provavelmente é blasfemo para todo mundo.
Então, bem, onde fica a linha entre blasfêmia e liberdade religiosa? Ou o verdadeiro critério é o número de pessoas que concorda com a sua blasfêmia particular, e o quanto elas estão dispostas a serem violentas? 
Proponho, então, a criação do Culto dos Blasfemadores Venusianos, cujas escrituras sagradas sejam compostas integralmente de blasfêmias contra todo mundo. E vamos lá dar palpite na ONU, …

Monteiro Lobato, racismo e eu

Tenho uma dívida enorme para com Monteiro Lobato. Mesmo. Eu não seria escritor, não seria blogueiro, não seria jornalista, sem ele. Não escreveria fantasia, aventura e ficção científica se não tivesse lido Os Doze Trabalhos de Hércules e sua adaptação da lenda de Robin Hood. Não teria me interessado tanto pela ciência e pela cultura clássica sem A Reforma da Natureza, O Minotauro e Viagem ao Céu. Não teria aprendido a desconfiar da autoridade constituída e a duvidar, sempre, das "boas intenções" do governo e do capital sem O Poço do Visconde.

Confesso que a fase "doméstica" da saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo, mais centrada no sítio em si e no folclore brasileiro (como Reinações de Narizinho, O Saci, As Caçadas de Pedrinho) sempre me fascinaram muito menos. Qual a graça de perseguir sacis no mato com uma peneira se dava para caçar hidras e centauros da Grécia micênica com clava e flechas envenenadas, ora bolas?

Por conta disso, a celeuma atual em torno de As Caçad…

Olhando para o alto e para trás

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Esta semana tem sido cheia de pequenos aborrecimentos. Primeiro a torneira da lavanderia lá de casa começou a pingar, depois a máquina de lavar quebrou e, agora, o piso de cerâmica da cozinha explodiu com o frio da última madrugada. Mas aí, quando começo a ficar chateado e a achar que o universo tá de sacanagem comigo, a Nasa solta isto aqui:


Esta imagem (acho que, clicando, dá para ampliar) é o "Campo Extremamente Profundo", ou XDF, para simplificar, produzido pelo Telescópio Espacial Hubble. Ela foi obtida reunindo-se luz acumulada ao longo de dez anos pelo telescópio, a fim de registrar a impressão de 5.500 galáxias, a mais distante das quais tem um brilho que corresponde a dez bilionésimos da luz mais fraca que o olho humano é capaz de detectar.

E toda essa superpopulação estelar foi encontrada numa janela minúscula do céu, menor do que a ocupada por uma lua cheia. O infográfico abaixo mostra, em escala, a área do XDF comparada à ocupada pela lua:


Quer dizer, se você con…

Quem roubou a democracia que estava aqui?

Deixa ver se entendi: nos últimos dias o Judiciário brasileiro mandou prender um cara do Google pra tentar censurar o Youtube, proibiu um blog de dizer que um político alvo de processo é alvo de processo, impediu a divulgação de uma pesquisa eleitoral e, agora, decide censurar o trailer de A Inocência dos Muçulmanos.   Impressão minha ou nos livramos da censura da ditadura militar só para cair numa ditadura da censura judicial?

Tá, claro, o problema não é de hoje. Especificamente, a mania que a Justiça brasileira tem de proibir as pessoas de contar a verdade sobre os outros já causou inúmeros embaraços à publicação de biografias -- como bem notou Ruy Castro, os juízes brasileiros são bem capazes de mandar apreender todos os livros de história brasileira caso a família Vargas se sinta ofendida pelo dado de que Getúlio se matou -- mas o caso do blog impedido de dizer que um político goiano do Amapá investigado pela polícia é investigado pela polícia leva a coisa a um novo nível.

Agora, …

Alerta de arrogância religiosa

Nota rápida.

Hoje vi nos jornais a foto de uma manifestação no Brasil contra o tal filme "A Inocência dos Muçulmanos", onde havia um cartaz com os dizeres, Ofender 1,6 bilhão de pessoas é liberdade de expressão? Sobre isso, duas coisas.

Primeiro, respondendo à questão do manifestante: sim, é. Liberdade de expressão é a liberdade de dizer coisas que incomodam os outros. Dizer o que todo mundo quer ouvir não é liberdade de expressão, da mesma forma que ir onde os outros mandam não é liberdade de ir e vir. Dã.

Segundo, quem disse que há 1,6 bilhão de pessoas (o total estimado de muçulmanos no mundo) ofendidas? Há uma arrogância profunda que afeta líderes religiosos em geral, a presunção de falar em nome da comunidade dos fiéis. O que é uma enorme besteira.

Eu era católico quando o filme Ave Maria, de Jean-Luc Goddard, foi proibido no Brasil, e me lembro de um padre histriônico escrevendo, em artigo para a Folha de S. Paulo, que o filme "cuspia na nossa mãe", referindo…

Tá, mas e esse papo da "mulher" de Jesus?

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Uma das coisas que essa descoberta de um texto copta onde Jesus cita a própria esposa traz é a necessidade de se estabelecer claramente a distinção entre a data do papiro e a data do que está escrito. Por exemplo, pelo que consegui entender, os especialistas que avaliaram o tal "Evangelho da Mulher de Jesus" concluíram que ele deve ser do século 4 (por volta do ano 350) por conta de evidências internas do texto, como a língua e a linguagem usadas. O suporte físico, em si, ainda não teria sido testado.

Essa diferença entre a idade do suporte e a idade do texto é muito importante: por exemplo, o manuscrito mais antigo a conter versos de um Evangelho, o chamado Papiro P52, contém trechos do Evangelho de João, considerado, por conta de evidências históricas, o último a ter sido escrito. Já o Evangelho de Marcos, tido como o mais antigo, só é citado pela primeira vez, até onde sabemos, no Papiro P45, cerca de de 100 anos mais velho que o P52.

Disso tudo se conclui que a idade do …