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'Mãe de Deus'

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Interessante o padre Marcelo Rossi escolher a palavra grega Theotokos como nome "oficial" de sua megachurch. O nome popular é "Mãe de Deus", expressão geralmente tida como uma tradução razoável de theotokos, que é um termo técnico da teologia cristã, adotado oficialmente no Concílio de Éfeso, realizado em 431 sob os auspícios do imperador bizantino Teodósio II.

Ao pé da letra, theotokos pode querer dizer "portadora de Deus" ou "que dá à luz Deus". A expressão, aplicada à personagem Maria de Nazaré, do Novo Testamento, tem significado cristológico -- isto é, diz algo sobre a natureza de Cristo: se Jesus Cristo é filho de Maria, e Maria é Mãe de Deus, então Jesus é Deus.

No século V, quando os bispos da Igreja se reuniram em Éfeso para discutir o assunto -- se Jesus era mais Deus que homem, mais homem que Deus, se as duas coisas ao mesmo tempo e em proporções iguais --, a questão não era meramente teológica ou acadêmica, mas tinha graves implicaçõ…

Lendo mentes no Halloween: o teste

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Duas médiuns britânicas falharam de modo espetacular num teste de suas habilidades realizado pelo Centro de Pesquisas em Psicologia Anomalística de Goldsmiths, uma unidade da Universidade de Londres. A notícia ganhou mundo por meio de uma nota da BBC, mas o informe distribuído pela própria universidade é bem mais completo, e merece ser lido.

Na metodologia usada, as duas médiuns tiveram de fazer "leituras" de cinco voluntárias, separadas delas por uma tela opaca. As voluntárias haviam sido instruídas a se manter em silêncio. As impressões obtidas em cada leitura foram passadas por escrito, e as voluntárias tiveram acesso aos relatórios produzidos. Os pesquisadores pediram que cada uma delas identificasse qual relatório dizia respeito a si mesma.

A taxa de sucesso foi surpreendentemente baixa, daí o fato de a falha ser considerada "espetacular": cada uma das médiuns acertou apenas uma vez.

Embora esse resultado seja exatamente o que se poderia prever caso a combina…

Ian Fleming, jornalista

Hoje estreia Skyfall, novo filme da franquia cinematográfica protagonizada por Bond, James Bond, o agente 007 do Serviço Secreto britânico e um dos três únicos espiões de Sua Majestade que podem receber ordem para cometer assassinatos a sangue-frio. Ou, ao menos, é o que diz a mitologia construída pelo pai literário de Bond, o jornalista Ian Fleming (1908-1964).

Pouca gente sabe, mas antes de ficar rico com os romances sobre Bond, Fleming trabalhara como correspondente da Reuters em Moscou e, após a Segunda Guerra Mundial, atuara como coordenador da rede de correspondentes estrangeiros do Times de Londres. Ele também produziu, para o Sunday Times, uma série de reportagens chamada Thrilling Cities, sobre as cidades que visitou em uma volta ao mundo e, depois, num giro pela Europa.

Em meados de outubro, o Sunday Times publicou uma reportagem sobre o tempo de serviço do autor no jornal, apresentada como a "primeira vez" em que a ficha de Ian Fleming no RH da empresa era aberta,…

Mensalão e o veredicto escocês

Não tenho, evidentemente, competência técnica para opinar sobre os padrões de prova usados pelo STF para separa culpados de inocentes no caso do mensalão, mas o debate todo me fez lembrar de uma curiosidade histórico-jurídica: o veredicto escocês.

Diferentemente da maioria dos países do mundo, na Escócia um tribunal penal tem três veredictos possíveis,em vez de apenas dois -- os tradicionais culpado e inocente. Além dessas categorias, um réu na Escócia pode acabar vendo-se enquadrado numa terceira classe, "não provado".

Um veredicto de "não provado" significa, na prática, uma absolvição no sentido jurídico -- ninguém vai preso -- mas pode ser uma condenação no sentido moral. Uma piada comum é a de que uma decisão de "não provado" significa "inocente, mas não faça isso de novo".

Historicamente, o veredicto triplo escocês parece ter surgido no século XVIII, quando um júri decidiu declarar que um réu contra o qual havia provas contundentes era &quo…

Cientistas culpados por mortes em terremoto?

A Justiça italiana decidiu, em primeira instância, condenar seis cientistas e um funcionário público a seis anos de cadeia por homicídio culposo, por supostamente terem dado à população da cidade de L'Aquila informações "incompletas, contraditórias e inexatas" às vésperas do terremoto de 2009 que matou 308 pessoas e reduziu as construções do local a escombros.



De acordo com esta reportagem do jornal The Guardian, os cientistas condenados faziam parte de uma comissão, reunida seis dias antes do terremoto, para opinar a respeito de uma série de pequenos tremores que vinham atingindo a área.



Na opinião de moradores da região entrevistados pelo Guardian, os pesquisadores, especialistas em sismologia e vulcanologia, teriam concordado em fazer parte de uma farsa armada pela Defesa Civil da cidade, emitindo declarações tranquilizadoras, sem embasamento, apenas para acalmar a população – que, desprevenida, foi pega de surpresa pelo grande tremor que se seguiu.



Existem algumas …

Renovando a licença para clinicar

Em meados de outubro, o ministro da Saúde do Reino Unido anunciou que, a partir do fim deste ano, todos os médicos do país passarão a sofrer avaliações anuais de sua competência para clinicar. Essas avaliações alimentarão um processo quinquenal de revalidação da licença médica: a cada cinco anos, todo médico britânico poderá ter sua prerrogativa de praticar a Medicina cassada, caso não consiga provar que é competente.

Segundo artigo do jornal The Guardian, o processo de revalidação está sendo aditado após uma década de negociações com os profissionais, e responde a uma série de escândalos envolvendo a prática médica, incluindo a descoberta de um clínico geral serial-killer que, usando a prática médica como cobertura, matou mais de 250 de seus pacientes. Um comentarista da BBC disse que a ideia de submeter os médicos a um processo de revalidação de suas competências é tão "obviamente correta"que é surpreendente que ninguém tenha pensado nisso antes.

Mas a ideia é mesmo "…

Book Porn

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Os leitores do blog sabem que estive de férias -- passei a última quinzena em Londres, em um abençoado autoexílio que me manteve no eixo Baker Street-Museu Britânico-Museum Tavern-Charing Cross, do qual saí apenas esporadicamente, para tomar um drinque no Criterion Bar (o mesmíssimo onde John H. Watson foi informado de que um certo Sherlock Holmes procurava alguém com quem rachar o aluguel) ou visitar a Biblioteca Britânica, que é mais ou menos o que a nossa Biblioteca Nacional deveria ser se o governo (e, venhamos e convenhamos, a sociedade) levasse esse negócio de preservação e disseminação da cultura a sério.

Sei que há muita coisa ocorrida nesse intervalo a comentar, do primeiro turno das eleições municipais à descoberta de um planeta em Alfa Centauri, passando pela decisão do governo britânico -- que não sei\se repercutiu aqui -- de exigir que os médicos renovem suas licenças para clinicar a cada cinco anos, mais ou menos como se fossem licenças para dirigir. Mas, bolas, dane-se …