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'Deus seja louvado', a FAQ

Já escrevi, mais longamente, sobre a questão da laicidade do Estado e por que considero que a retirada de símbolos religiosos de repartições públicas, e da frase esdrúxula "Deus seja louvado" do papel-moeda, deveria ser um gesto tão óbvio quanto abrir um guarda-chuva quando começa a chover. Quem quiser conhecer minhas razões, em detalhe, pode encontrá-las aqui.

No entanto, desde que o MPF decidiu, há alguns dias, se mexer para que o óbvio se concretize, uma série de argumentos pré-fabricados começou a circular contra a iniciativa, então resolvi deixar, para quem quiser uma fonte de consulta rápida, algumas respostas prontas para o mar de clichês falaciosos em que o debate ameaça soçobrar. Vamos lá:

Tirar a frase do dinheiro? É falta do que fazer!

Essa objeção é, de fato, a minha favorita, basicamente porque embute uma admissão de culpa: quem a usa sabe que, num Estado laico, documentos oficiais e produtos criados com recursos públicos não poderiam conter frases de exortação r…

50.000 acessos em 24 horas

A postagem de segunda-feira, que usa um artigo publicado na Veja para ilustrar um ponto de (falta de) lógica na construção de texto opinativo, obteve, até o início da noite desta terça, mais de 50.000 acessos, muitos vindos de links publicados no KibeLoco, na revista Galileu e, também, das redes sociais -- principalmente Facebook e Twitter. Dada que a média mensal de acessos ao blog girava, até o início desta semana, em 10.000, o salto está longe de ser trivial.

Não tenho, claro, ilusões quanto à sustentabilidade desse pico de popularidade. Semana que vem, provavelmente, estarei de volta aos 300/500 leitores diários -- ou menos, por causa do feriado. Só espero que parte da multidão súbita e fugidia que anda passando por aqui tenha se sentido estimulada a comprar alguma das obras anunciadas na seção "livros que escrevi". Se 0,1% dos visitantes tiver feito isso, terei vendido 50 exemplares, o que, para mim, é um colosso.

Numa toada menos mercenária, é impressionante ter tantos…

Dinamarca desiste de imposto sobre gordura saturada

Certa vez perguntei a um grupo de ganhadores do Nobel de Economia, todos especialistas em Teoria dos Jogos, qual a base de sua ciência -- a resposta que obtive foi: "o ser humano responde a incentivos". É uma constatação um tanto quanto óbvia, mas  que dá margem a resultados muitas vezes surpreendentes -- entre outros motivos porque, não raro, é difícil saber quais são, e onde estão, os incentivos relevantes: por exemplo, a criminalização da venda da maconha por um lado desincentiva o tráfico (já que embute uma ameaça de punição), mas por outro o incentiva (já que eleva preços e lucros).

Uma das consequências dessa lei dos incentivos é o uso de dinheiro para controlar comportamentos. Muita gente trabalha em empregos que detesta por causa do salário; restaurantes e casas de eventos esnobes usam os preços para "selecionar" o público. E governos usam a política de impostos para estimular ou reprimir certos tipos de consumo (por exemplo, cortando o IPI do carros ou ele…

A falácia da falsa discriminação

Muita coisa já foi escrita sobre o artigo de JR Guzzo, publicado na edição desta semana da revista Veja, argumentando, em linhas gerais, que as estratégias e demandas do movimento gay acabam atraindo sobre os homossexuais exatamente o mesmo opróbio e a mesma antipatia do público que o movimento deveria lutar para destruir.

Não há nada de obviamente errado (ou certo) nessa proposição. Supondo que Guzzo esteja correto, não seria a primeira vez que, no afã de combater uma injustiça, um grupo acaba perpetrando outras. Mas a proposição, em si, deve cair ou se sustentar com base em evidências (que o artigo não apresenta, exceto por um dois casos em que o adjetivo "homofóbico" parece ter sido usado de modo injusto) e argumentos, e é na parte argumentativa que eu gostaria de me concentrar, porque tenho a impressão de que o preclaro articulista inventou um novo tipo de falácia.

Quem acompanha o blog sabe que ciência, lógica e retórica são temas caros por aqui, então, antes de entrar …

'Mãe de Deus'

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Interessante o padre Marcelo Rossi escolher a palavra grega Theotokos como nome "oficial" de sua megachurch. O nome popular é "Mãe de Deus", expressão geralmente tida como uma tradução razoável de theotokos, que é um termo técnico da teologia cristã, adotado oficialmente no Concílio de Éfeso, realizado em 431 sob os auspícios do imperador bizantino Teodósio II.

Ao pé da letra, theotokos pode querer dizer "portadora de Deus" ou "que dá à luz Deus". A expressão, aplicada à personagem Maria de Nazaré, do Novo Testamento, tem significado cristológico -- isto é, diz algo sobre a natureza de Cristo: se Jesus Cristo é filho de Maria, e Maria é Mãe de Deus, então Jesus é Deus.

No século V, quando os bispos da Igreja se reuniram em Éfeso para discutir o assunto -- se Jesus era mais Deus que homem, mais homem que Deus, se as duas coisas ao mesmo tempo e em proporções iguais --, a questão não era meramente teológica ou acadêmica, mas tinha graves implicaçõ…

Lendo mentes no Halloween: o teste

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Duas médiuns britânicas falharam de modo espetacular num teste de suas habilidades realizado pelo Centro de Pesquisas em Psicologia Anomalística de Goldsmiths, uma unidade da Universidade de Londres. A notícia ganhou mundo por meio de uma nota da BBC, mas o informe distribuído pela própria universidade é bem mais completo, e merece ser lido.

Na metodologia usada, as duas médiuns tiveram de fazer "leituras" de cinco voluntárias, separadas delas por uma tela opaca. As voluntárias haviam sido instruídas a se manter em silêncio. As impressões obtidas em cada leitura foram passadas por escrito, e as voluntárias tiveram acesso aos relatórios produzidos. Os pesquisadores pediram que cada uma delas identificasse qual relatório dizia respeito a si mesma.

A taxa de sucesso foi surpreendentemente baixa, daí o fato de a falha ser considerada "espetacular": cada uma das médiuns acertou apenas uma vez.

Embora esse resultado seja exatamente o que se poderia prever caso a combina…

Ian Fleming, jornalista

Hoje estreia Skyfall, novo filme da franquia cinematográfica protagonizada por Bond, James Bond, o agente 007 do Serviço Secreto britânico e um dos três únicos espiões de Sua Majestade que podem receber ordem para cometer assassinatos a sangue-frio. Ou, ao menos, é o que diz a mitologia construída pelo pai literário de Bond, o jornalista Ian Fleming (1908-1964).

Pouca gente sabe, mas antes de ficar rico com os romances sobre Bond, Fleming trabalhara como correspondente da Reuters em Moscou e, após a Segunda Guerra Mundial, atuara como coordenador da rede de correspondentes estrangeiros do Times de Londres. Ele também produziu, para o Sunday Times, uma série de reportagens chamada Thrilling Cities, sobre as cidades que visitou em uma volta ao mundo e, depois, num giro pela Europa.

Em meados de outubro, o Sunday Times publicou uma reportagem sobre o tempo de serviço do autor no jornal, apresentada como a "primeira vez" em que a ficha de Ian Fleming no RH da empresa era aberta,…