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A AGU e os crucifixos em prédios públicos

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Os Estados Unidos foram, talvez, o primeiro país a adotar uma regra de separação clara entre Estado e religião. Os Pais Fundadores tinham o longo exemplo histórico europeu para contemplar, com suas sangrentas guerras de fé -- um fato pouco conhecido é o de que mais cristãos foram martirizados em nome da religião na Guerra dos 30 Anos, entre católicos e protestantes, do que nos 300 anos de perseguição pelos imperadores pagãos de Roma -- e sabiam que o melhor era evitar que as coisas se misturassem.

James Madison, o autor da Carta de Direitos da Constituição dos EUA, cujo primeiro artigo proíbe a vinculação do governo à religião, disse muito bem: "Durante quase quinze séculos, o estabelecimento oficial do cristianismo tem estado em teste. Quais seus frutos? (...) Governantes que desejam subverter as liberdades públicas encontraram, no clero subvencionado, auxiliares convenientes."

A separação, no entanto, é mais difícil de obter do que se imagina. Padres e bispos deixarem de …

Noite de lua cheia...

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Se meu novo relógio digital (que, entre outras peculiaridades, fica piscando a palavra "FISH" em certas horas do dia, suponho que para me dizer que é uma boa hora para pescar) estiver correto, nesta semana temos lua cheia. Com isso, é bem possível que muita gente -- incluindo aí profissionais sérios, como policiais, médicos e enfermeiros -- esteja se preparando para um aumento no número de ocorrências como partos, crimes, crises psicóticas.

Esse efeito lunar é largamente registrado, também, na ficção, e não só em histórias de lobisomem: no romance Moscou contra 007, o vilão, o impiedoso assassino anglo-soviético Red Grant, é um psicopata insensível cuja ânsia de matar acompanha o ciclo das fases da lua, tornando-se irresistível na lua cheia. É extremamente interessante notar, portanto, que o efeito é completamente falso. Anos e anos de estudos estatísticos nunca encontraram uma única correlação clara entre as fases da lua e eventos ou comportamentos "lunáticos".

O…

Sobre 'Deus seja louvado', na Folha

Nota rápida, só para avisar que fui gentilmente convidado pela Folha de S. Paulo a escrever um breve artigo para a página 3, sobre a polêmica em torno da frase 'Deus seja louvado' que aparece nas notas de real. O link, para quem quiser ler a peça na íntegra, é este aqui.

Descoberto o planeta Mongo!

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Quando astrônomos anunciaram a descoberta de um planeta num sistema estelar binário, o ângulo que a mídia achou para promover a história (muito interessante em si mesma) foi fazer uma comparação entre o mundo recém-descoberto, Kepler-16(AB)-b, com Tatooine, o planeta natal da família Skywalker, na saga de Guerra nas Estrelas. Uma "interpretação artística" de como seria a vista a partir de uma posição em órbita do tal planeta aparece abaixo, cortesia da Nasa:


Os cientistas responsáveis pela descoberta foram claros em dizer que o mundo que haviam encontrado era um gigante, semelhante a Saturno, e provavelmente inabitável, mas um funcionário da Industrial Light & Magic, empresa responsável pelos efeitos especiais nos filmes de George Lucas, não se fez de rogado ao ser convidado a dar um palpite sobre a descoberta:  "É possível que haja um verdadeiro Tatooine por aí".

O que pouca gente sabe, ao menos fora da Nerdlândia, é que uma das principais fontes de inspiração…

'Deus seja louvado', a FAQ

Já escrevi, mais longamente, sobre a questão da laicidade do Estado e por que considero que a retirada de símbolos religiosos de repartições públicas, e da frase esdrúxula "Deus seja louvado" do papel-moeda, deveria ser um gesto tão óbvio quanto abrir um guarda-chuva quando começa a chover. Quem quiser conhecer minhas razões, em detalhe, pode encontrá-las aqui.

No entanto, desde que o MPF decidiu, há alguns dias, se mexer para que o óbvio se concretize, uma série de argumentos pré-fabricados começou a circular contra a iniciativa, então resolvi deixar, para quem quiser uma fonte de consulta rápida, algumas respostas prontas para o mar de clichês falaciosos em que o debate ameaça soçobrar. Vamos lá:

Tirar a frase do dinheiro? É falta do que fazer!

Essa objeção é, de fato, a minha favorita, basicamente porque embute uma admissão de culpa: quem a usa sabe que, num Estado laico, documentos oficiais e produtos criados com recursos públicos não poderiam conter frases de exortação r…

50.000 acessos em 24 horas

A postagem de segunda-feira, que usa um artigo publicado na Veja para ilustrar um ponto de (falta de) lógica na construção de texto opinativo, obteve, até o início da noite desta terça, mais de 50.000 acessos, muitos vindos de links publicados no KibeLoco, na revista Galileu e, também, das redes sociais -- principalmente Facebook e Twitter. Dada que a média mensal de acessos ao blog girava, até o início desta semana, em 10.000, o salto está longe de ser trivial.

Não tenho, claro, ilusões quanto à sustentabilidade desse pico de popularidade. Semana que vem, provavelmente, estarei de volta aos 300/500 leitores diários -- ou menos, por causa do feriado. Só espero que parte da multidão súbita e fugidia que anda passando por aqui tenha se sentido estimulada a comprar alguma das obras anunciadas na seção "livros que escrevi". Se 0,1% dos visitantes tiver feito isso, terei vendido 50 exemplares, o que, para mim, é um colosso.

Numa toada menos mercenária, é impressionante ter tantos…

Dinamarca desiste de imposto sobre gordura saturada

Certa vez perguntei a um grupo de ganhadores do Nobel de Economia, todos especialistas em Teoria dos Jogos, qual a base de sua ciência -- a resposta que obtive foi: "o ser humano responde a incentivos". É uma constatação um tanto quanto óbvia, mas  que dá margem a resultados muitas vezes surpreendentes -- entre outros motivos porque, não raro, é difícil saber quais são, e onde estão, os incentivos relevantes: por exemplo, a criminalização da venda da maconha por um lado desincentiva o tráfico (já que embute uma ameaça de punição), mas por outro o incentiva (já que eleva preços e lucros).

Uma das consequências dessa lei dos incentivos é o uso de dinheiro para controlar comportamentos. Muita gente trabalha em empregos que detesta por causa do salário; restaurantes e casas de eventos esnobes usam os preços para "selecionar" o público. E governos usam a política de impostos para estimular ou reprimir certos tipos de consumo (por exemplo, cortando o IPI do carros ou ele…