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Gentileza gera... ?

Imagino que a maioria das pessoas gostaria de acreditar no ditado "gentileza gera gentileza". Mas também imagino que a maioria das pessoas já teve pelo menos uma oportunidade de sofrer na pele a confirmação da máxima oposta -- "gentileza gera gente folgada". Mais do que uma disputa entre otimismo e sarcasmo, no entanto, a tensão entre as duas frases, e os respectivos limites à aplicabilidade de cada uma delas, representa algo de profundo não só sobre a natureza humana, mas no campo da matemática conhecido como Teoria dos Jogos.

 Um dos problemas fundamentais da Teoria dos Jogos é o chamado Dilema do Prisioneiro. O problema costuma ser formulado em termos de "cooperação" e "deserção". Se um dos parceiros coopera e o outro deserta, o desertor recebe um grande prêmio e o cooperador fica sem nada. Se ambos cooperam, os dois recebem uma recompensa modesta. Se ambos desertam, ninguém leva nada.

Se o dilema é jogado apenas uma vez, a deserção -- que ab…

Já parou de bater na sua mãe?

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Ninguém está livre de encontrar uma pergunta capciosa de vez em quando. E quando a pergunta aparece num formulário impresso, onde respostas mais elaboradas -- como, por exemplo, "nunca bati em minha mãe, pelo menos não deste lado do útero" -- são meio difíceis de encaixar, o resultado pode ser bem embaraçoso.

Ou enganoso. É por isso que a criação de questionários para pesquisas de opinião pública, ou para censos populacionais, é uma arte tão delicada. Um caso interessante é o do recente censo da Inglaterra e País de Gales, que revelou um aumento de mais de 60% na proporção de pessoas que se declaram sem religião.

Parte deste salto se deve, provavelmente, à campanha lançada pela Associação Humanista Britânica, exortando as pessoas que não praticam a religiosidade a responder "nenhuma" à pergunta "qual sua religião".

Com o provocativo título de "Se você não é religioso, pelo amor de Deus, diga isso", a campanha pedia que os britânicos que mantém u…

O mistério do Santo Prepúcio

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Esta é mais uma postagem  da minha série sazonal sobre a mitologia da natividade de Jesus, cujos capítulos anteriores, ambos do ano passado, podem ser lidos aqui e aqui. Desta vez, vou tratar de um tema especialmente delicado: o que terá acontecido com o prepúcio de Jesus?

O filho de Maria e José era, acho que todo mundo se lembra, judeu. Daí, presume-se que tenha sido circuncidado, de acordo com a lei mosaica. O Evangelho de Lucas, na verdade, afirma que foi exatamente isso que aconteceu:

"Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno." (Lc 2:21).

A trama se complica quando levamos em consideração estes outros versos, do Evangelho de João:

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. / Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. (Jo 6:54-55)
Não é preciso …

É hora de aventura!

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Já está à venda o quinto volume da coleção Ficção de Polpa, da gaúcha Não Editora, e que tem como tema Aventura. Este é o terceiro volume da série a contar com uma colaboração minha. Os demais de que participo são o segundo, de histórias de ficção científica, e o quarto, Crime!. Não tomei parte no primeiro, de contos de terror, nem no terceiro, de obras de fantasia. Fico imaginando quais serão os temas dos próximos livros -- guerra? romance? western? suspense? espionagem?

A aventura é, provavelmente, a mãe de todos os gêneros literários narrativos. O primeiro babilônio a pôr estilete na tabuinha não estava lá muito interessado em descrever as frustrações sexuais de um pobre jovem de Ur em busca de si mesmo nas movimentadas e cruéis ruas da Babilônia, mas sim a expedição do rei Gilgamesh em busca da imortalidade, incluindo a morte do dragão Humbaba e outras peripécias.

Sendo um gênero que está, enfim, na raiz de todos os gêneros, a proposta de escrever "uma história de aventura&q…

É oficial: a Antártida também está derretendo

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Saiu, na Science da semana passada, o mais completo estudo sobre as massas de gelo nas duas regiões polares da Terra, norte e sul. A evidência de degelo no norte já era bastante conclusiva, mas ainda havia dúvidas sobre o sul -- os dados do relatório do IPCC de 2007 indicavam que a massa de gelo na Antártida poderia, até, estar aumentando, para gáudio dos negacionistas da mudança climática.

Agora, no entanto, a situação ficou bem clara: as duas zonas polares estão derretendo. A perda no norte é bem mais impressionante, com o degelo na Groenlândia tendo acelerado num fator de cinco -- isso é um aumento de 400% -- desde meados da década de 90, enquanto que, na Antártida, a perda cresceu "apenas" 50% na década passada. De acordo com a Nasa, as estimativas atuais são duas vezes mais precisas que as usadas pelo IPCC em 2007, por conta de um aumento no volume de dados disponível.

O derretimento do gelo que flutua sobre o mar, além de afetar o hábitat de animais marinhos, também t…

A AGU e os crucifixos em prédios públicos

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Os Estados Unidos foram, talvez, o primeiro país a adotar uma regra de separação clara entre Estado e religião. Os Pais Fundadores tinham o longo exemplo histórico europeu para contemplar, com suas sangrentas guerras de fé -- um fato pouco conhecido é o de que mais cristãos foram martirizados em nome da religião na Guerra dos 30 Anos, entre católicos e protestantes, do que nos 300 anos de perseguição pelos imperadores pagãos de Roma -- e sabiam que o melhor era evitar que as coisas se misturassem.

James Madison, o autor da Carta de Direitos da Constituição dos EUA, cujo primeiro artigo proíbe a vinculação do governo à religião, disse muito bem: "Durante quase quinze séculos, o estabelecimento oficial do cristianismo tem estado em teste. Quais seus frutos? (...) Governantes que desejam subverter as liberdades públicas encontraram, no clero subvencionado, auxiliares convenientes."

A separação, no entanto, é mais difícil de obter do que se imagina. Padres e bispos deixarem de …

Noite de lua cheia...

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Se meu novo relógio digital (que, entre outras peculiaridades, fica piscando a palavra "FISH" em certas horas do dia, suponho que para me dizer que é uma boa hora para pescar) estiver correto, nesta semana temos lua cheia. Com isso, é bem possível que muita gente -- incluindo aí profissionais sérios, como policiais, médicos e enfermeiros -- esteja se preparando para um aumento no número de ocorrências como partos, crimes, crises psicóticas.

Esse efeito lunar é largamente registrado, também, na ficção, e não só em histórias de lobisomem: no romance Moscou contra 007, o vilão, o impiedoso assassino anglo-soviético Red Grant, é um psicopata insensível cuja ânsia de matar acompanha o ciclo das fases da lua, tornando-se irresistível na lua cheia. É extremamente interessante notar, portanto, que o efeito é completamente falso. Anos e anos de estudos estatísticos nunca encontraram uma única correlação clara entre as fases da lua e eventos ou comportamentos "lunáticos".

O…