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Contos para animar o Natal e o Ano-Novo

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Meu primeiro livro de contos de ficção científica chamava-se Tempos de Fúria e foi lançado, se não me engano, em 2005. O leitor astuto há de ter notado que ele não aparece na seção "livros que escrevi", na coluna à direita, e por um motivo bem simples: por uma questão contratual (contrato que, diga-se de passagem, assinei com plena consciência e de livre e espontânea vontade) não recebo um tostão de direito autoral pelas vendas. Portanto, não vejo motivos para promovê-lo.

Isto é, não via, até hoje. Porque, com os direitos do livro transferidos, finalmente, para a Editora Draco, eis que me vejo em posição de fazer uns cobres com o material contido ali: antes de relançar o volume em papel, a Draco optou por publicar alguns dos contos que compõem o livro em formato digital, e este material já está disponível na Amazon.com.br e, suponho, em outras livrarias online também (já há versões para Kobo). O leitor masoquista pode, portanto,  conceder a si mesmo o presente natalino de um…

A galinha apocalíptica

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"Um terror pânico do fim do mundo tomou conta do bom povo de Leeds e da vizinhança no ano de 1806", escreve o jornalista escocês Charles Mckay em seu hoje clássico Extraordinary Popular Delusions and The Madness of Crowds, publicado em 1841. "O medo surgiu das seguintes circunstâncias. Uma galinha, numa vila próxima, estava a pôr ovos onde aparecia escrito: Cristo está chegando." Prossegue Mckay: "Como marujos numa tempestade, esperando a cada instante ir a pique, os crentes repentinamente tornaram-se religiosos, rezavam violentamente, gabavam-se de terem se arrependido de seus maus caminhos".

O fervor apocalíptico em torno da poedeira de Leeds desapareceu quando sua dona -- que, segundo algumas fontes, havia começado a vender "selos" que marcavam o possuidor como uma alma a ser salva -- foi flagrada forçando ovos, com a frase escrita à tinta, galinha adentro. A dona, por falar nisso, chamava-se Mary Bateman, era conhecida como "Bruxa de Y…

Gentileza gera... ?

Imagino que a maioria das pessoas gostaria de acreditar no ditado "gentileza gera gentileza". Mas também imagino que a maioria das pessoas já teve pelo menos uma oportunidade de sofrer na pele a confirmação da máxima oposta -- "gentileza gera gente folgada". Mais do que uma disputa entre otimismo e sarcasmo, no entanto, a tensão entre as duas frases, e os respectivos limites à aplicabilidade de cada uma delas, representa algo de profundo não só sobre a natureza humana, mas no campo da matemática conhecido como Teoria dos Jogos.

 Um dos problemas fundamentais da Teoria dos Jogos é o chamado Dilema do Prisioneiro. O problema costuma ser formulado em termos de "cooperação" e "deserção". Se um dos parceiros coopera e o outro deserta, o desertor recebe um grande prêmio e o cooperador fica sem nada. Se ambos cooperam, os dois recebem uma recompensa modesta. Se ambos desertam, ninguém leva nada.

Se o dilema é jogado apenas uma vez, a deserção -- que ab…

Já parou de bater na sua mãe?

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Ninguém está livre de encontrar uma pergunta capciosa de vez em quando. E quando a pergunta aparece num formulário impresso, onde respostas mais elaboradas -- como, por exemplo, "nunca bati em minha mãe, pelo menos não deste lado do útero" -- são meio difíceis de encaixar, o resultado pode ser bem embaraçoso.

Ou enganoso. É por isso que a criação de questionários para pesquisas de opinião pública, ou para censos populacionais, é uma arte tão delicada. Um caso interessante é o do recente censo da Inglaterra e País de Gales, que revelou um aumento de mais de 60% na proporção de pessoas que se declaram sem religião.

Parte deste salto se deve, provavelmente, à campanha lançada pela Associação Humanista Britânica, exortando as pessoas que não praticam a religiosidade a responder "nenhuma" à pergunta "qual sua religião".

Com o provocativo título de "Se você não é religioso, pelo amor de Deus, diga isso", a campanha pedia que os britânicos que mantém u…

O mistério do Santo Prepúcio

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Esta é mais uma postagem  da minha série sazonal sobre a mitologia da natividade de Jesus, cujos capítulos anteriores, ambos do ano passado, podem ser lidos aqui e aqui. Desta vez, vou tratar de um tema especialmente delicado: o que terá acontecido com o prepúcio de Jesus?

O filho de Maria e José era, acho que todo mundo se lembra, judeu. Daí, presume-se que tenha sido circuncidado, de acordo com a lei mosaica. O Evangelho de Lucas, na verdade, afirma que foi exatamente isso que aconteceu:

"Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno." (Lc 2:21).

A trama se complica quando levamos em consideração estes outros versos, do Evangelho de João:

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. / Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. (Jo 6:54-55)
Não é preciso …

É hora de aventura!

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Já está à venda o quinto volume da coleção Ficção de Polpa, da gaúcha Não Editora, e que tem como tema Aventura. Este é o terceiro volume da série a contar com uma colaboração minha. Os demais de que participo são o segundo, de histórias de ficção científica, e o quarto, Crime!. Não tomei parte no primeiro, de contos de terror, nem no terceiro, de obras de fantasia. Fico imaginando quais serão os temas dos próximos livros -- guerra? romance? western? suspense? espionagem?

A aventura é, provavelmente, a mãe de todos os gêneros literários narrativos. O primeiro babilônio a pôr estilete na tabuinha não estava lá muito interessado em descrever as frustrações sexuais de um pobre jovem de Ur em busca de si mesmo nas movimentadas e cruéis ruas da Babilônia, mas sim a expedição do rei Gilgamesh em busca da imortalidade, incluindo a morte do dragão Humbaba e outras peripécias.

Sendo um gênero que está, enfim, na raiz de todos os gêneros, a proposta de escrever "uma história de aventura&q…

É oficial: a Antártida também está derretendo

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Saiu, na Science da semana passada, o mais completo estudo sobre as massas de gelo nas duas regiões polares da Terra, norte e sul. A evidência de degelo no norte já era bastante conclusiva, mas ainda havia dúvidas sobre o sul -- os dados do relatório do IPCC de 2007 indicavam que a massa de gelo na Antártida poderia, até, estar aumentando, para gáudio dos negacionistas da mudança climática.

Agora, no entanto, a situação ficou bem clara: as duas zonas polares estão derretendo. A perda no norte é bem mais impressionante, com o degelo na Groenlândia tendo acelerado num fator de cinco -- isso é um aumento de 400% -- desde meados da década de 90, enquanto que, na Antártida, a perda cresceu "apenas" 50% na década passada. De acordo com a Nasa, as estimativas atuais são duas vezes mais precisas que as usadas pelo IPCC em 2007, por conta de um aumento no volume de dados disponível.

O derretimento do gelo que flutua sobre o mar, além de afetar o hábitat de animais marinhos, também t…