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Divulgação científica: pequenos dilemas

Passei o último sábado reunido com algumas dezenas de divulgadores de ciência -- em sua maioria, blogueiros e vlogueiros (isto é "blogueiros de vídeo", para quem não está atualizado com o jargão) -- num evento promovido pelo Numina Labs. A troca de experiências é sempre fértil, e conversar com gente inteligente é sempre agradável, mas confesso que me senti um pouco deslocado, tanto pela faixa etária (eu era um dos dois caras mais velhos ali, e "mais velho" no sentido de que provavelmente sou contemporâneo dos pais de boa parte dos participantes), como pela questão midiática: sempre fui um cara "do impresso", então o foco principal do encontro, vídeo, estava bem fora da minha zona de expertise.

Ainda assim, foi interessante ver como aquele grupo -- jovens, em sua maioria com formação principal em ciência e apenas secundária em comunicação, ligados na linguagem do vídeo online -- reproduzia muitas das questões, confusões e dilemas que gente como eu -- velho…

Livro ganha verbete na Wikipedia!

Minha primeira obra de divulgação científica,O Livro dos Milagres, virou verbete na Wikipedia em língua portuguesa. O artigo entrou no ar ontem, imagino que praticamente cinco anos após eu ter começado a escrever o livro. Milagres foi um trabalho de redação rápida -- iniciei em janeiro e terminei, se não me engano, em março de 2011. O processo editorial também foi bastante ágil, e o trabalho estava sendo lançado (mais uma vez, salvo engano) em outubro do mesmo ano.

A celeridade se explica pelo desemprego: demitido do posto de editor de Ciência do Portal Estadão em dezembro de 2010, de repente me vi com muito tempo nas mãos, e a velha ambição de "carreira solo" voltando a bater na porta.

Depois de quase 20 anos de carreira, meu nível de paciência para com as rotinas e demandas do jornalismo corporativo vinham diminuindo rapidamente, e há meses já que eu amolava minha pobre esposa com reclamações várias e mencionava, entre resmungos, a aspiração de desenvolver um trabalho seme…

Spotlight

Fui assistir a Spotlight, o filme sobre a investigação exaustiva realizada pelo jornal Boston Globe sobre os casos de pedofilia acobertados pela igreja católica nos Estados Unidos, onde bispos e cardeais limitavam-se a transferir padres acusados de abusar de crianças de uma paróquia para outra, efetivamente fazendo da dita Santa Madre uma espécie de grande cafetina a serviço dos pedófilos: as transferências garantiam que os predadores sexuais  sempre tivessem novas vítimas insuspeitas para atacar -- tudo em nome de "preservar a instituição" e "evitar o escândalo".

O trabalho do Globe no caso foi o que se poderia chamar de jornalismo explícito, arquetípico, quintessencial, o jornalismo-que-justifica-o-jornalismo: meses de apuração minuciosa, busca implacável de depoimentos e testemunhas, tudo para, no fim, contar uma história extremamente relevante e que forças poderosas prefeririam que não fosse contada. Acho que foi George Orwell que disse que jornalismo é publica…

A culpa é da falta de assunto

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Na mídia de língua inglesa, o período do verão -- onde os parlamentos e universidades se encontram em recesso, parte da população urbana fugiu para a praia e as empresas costumam conceder folgas e férias -- é chamado de silly season, ou "estação da tolice": confrontados com a crise aguda de falta de assunto causada pelo sumiço das principais fontes de pauta (políticos, pesquisadores, empresários) os jornalistas começam a apelar para qualquer tipo de bobagem a fim de vencer a angústia da página (ou tela) em branco.

 O Brasil, claro, também tem sua silly season, situação agravada pelo encolhimento radical das redações, encolhimento ainda mais acentuado durante a vigência do esquema tradicional de folgas e plantões de Natal e Ano-Novo. Uma característica da estação das tolices da mídia nacional é sua queda pelo esoterismo. Você sabe que a imprensa brasileira está sem assunto quando videntes e astrólogos tomam conta dos cadernos ditos "de cultura". Lá se vão dez anos d…

Postagem 666: Madre Teresa

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Estava aqui dando tratos à bola em busca de uma postagem adequada para ser a 666ª deste blog, e eis que me vem a notícia de que foi autorizada a canonização de Madre Teresa de Calcutá.  Não sei que fração (se alguma) da mídia brasileira vai se lembrar da investigação que Christopher Hitchens realizou sobre o trabalho dessa freira albanesa, radicada na Índia, então deixo aqui o link para o livro e, imediatamente abaixo, o documentário em que apresentou suas conclusões (fundamentalmente, de que ela estava muito mais preocupada em salvar almas do que em salvar vidas, uma postura que teve consequências cruéis e trágicas). 



E, para completar, reproduzo, abaixo, uma postagem bem antiga deste blog sobre o processo de validação de "milagres" da Igreja Católica (lembrando que já escrevi um livro inteiro sobre o assunto):

"A notícia de que o Vaticano reconheceu a cura de uma freira, supostamente portadora do Mal de Parkinson, como sendo um milagre operado por intercessão do falecid…

Papai Noel faz mal?

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Entrando no clima da temporada, resolvi ler The Myths that Stole Christmas ("Os Mitos que Roubaram o Natal"), do filósofo David Kyle Johnson. O livro apresenta alguns fatos já razoavelmente bem conhecidos: por exemplo, que os festejos do solstício de fim de ano nunca foram e nem são uma exclusividade cristã, que Papai Noel tem muito mais a ver com divindades pagãs como Pã e Odin e, até mesmo, com demônios medievais, como o Krampus, do que com São Nicolau (que, aliás, provavelmente nunca existiu, sendo uma versão cristianizada do taumaturgo pitagórico Apolônio de Tiana).

Johnson, no entanto, vai além desses mitos mais conhecidos, tecendo argumentos contra o "mito" de que as compras desenfreadas de Natal são boas apara a economia -- não são, diz ele, já que envolvem desperdício de recursos e abuso do crédito -- e atacando o caráter estressante e compulsório dos rituais de troca de presentes. Quando ele define a compra de presentes de Natal como o ato de "gastar…

Outro lado, controvérsias e certezas na ciência

Durante o último fim de semana, participei, em Porto Alegre, da I Jornada de Divulgação e Jornalismo Científico, organizada pelo Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA) e pelo Instituto de Física da UFRGS. Tinha muita gente boa lá, entre jornalistas e cientistas, e muitas questões importantes sobre a popularização da ciência no Brasil foram levantadas e discutidas, mas nas participações que fiz -- uma delas, uma mesa-redonda com outros jornalistas de ciência e cientistas que ocupam espaços na mídia -- uma questão recorrente foi a do tal "outro lado".

A plateia (formada por estudantes e cientistas) queria saber, por que essa obsessão com "outro lado"? Por que a imprensa insiste em dar voz a criacionistas toda vez que fala em evolução, a negacionistas, toda vez que fala do aquecimento global antrópico, a anti-vaxxers (gente que diz que vacinas causam câncer ou autismo), toda vez que surge uma nova campanha de saúde pública? E não se trata apenas de um …