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Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

Nos últimos tempos, as redes sociais -- ou, ao menos, as minhas timelines -- andam virtualmente entupidas de notas, notícias e insinuações a respeito do surto de microcefalia no Brasil, sua ligação com o vírus zika e supostas manobras do governo para esconder as "verdadeiras causas" do problema, que iram desde "vacinas cubanas vencidas" a um plano maligno de ONGs internacionais para... Bom, ninguém parece saber para quê, mesmo.

A questão das vacinas é a que surge em mais versões, e a que mais seduz os incautos que buscam motivos para culpar o governo federal (como se ele já não tivesse culpas reais suficientes, mas deixa pra lá). Ela toma, pelo menos, duas formas, a saber: (a) teria havido uma campanha de vacinação contra rubéola usando vacinas vencidas, que foram aplicadas a mulheres grávidas ou que engravidaram logo depois da dose;  (b) a campanha contra sarampo, realizada no Nordeste em 2015, e que usou as vacinas dupla (que também contém o vírus da rubéola) e t…

Editando embriões humanos: a era biopunk?

Pesquisadores do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, obtiveram autorização oficial para aplicar uma técnica de edição genética em embriões humanos saudáveis. A técnica, chamada CRISPR/Cas9, envolve basicamente o uso de um "robô" bioquímico para realizar operações de "copy-paste" no material genético do núcleo celular, não só eliminando sequências indesejadas, como também permitindo que elas sejam substituídas por versões escolhidas pelos pesquisadores.

Adaptada por cientistas a partir do arsenal imunológico de certas bactérias, que usam ferramentas naturais de edição genética para se livrar do DNA de parasitas, a CRISPR/Cas9 vem causando revolução tecnológica na área de manipulação genética, por causa de sua enorme precisão: ela permite que recortes e emendas sejam feitos no genoma com um controle de localização extremamente apurado. Em setembro do ano passado, a revista Sciencepublicou artigo que relata a tentativa, bem-sucedida, de trocar um gene defeituoso,…

Divulgação científica: pequenos dilemas

Passei o último sábado reunido com algumas dezenas de divulgadores de ciência -- em sua maioria, blogueiros e vlogueiros (isto é "blogueiros de vídeo", para quem não está atualizado com o jargão) -- num evento promovido pelo Numina Labs. A troca de experiências é sempre fértil, e conversar com gente inteligente é sempre agradável, mas confesso que me senti um pouco deslocado, tanto pela faixa etária (eu era um dos dois caras mais velhos ali, e "mais velho" no sentido de que provavelmente sou contemporâneo dos pais de boa parte dos participantes), como pela questão midiática: sempre fui um cara "do impresso", então o foco principal do encontro, vídeo, estava bem fora da minha zona de expertise.

Ainda assim, foi interessante ver como aquele grupo -- jovens, em sua maioria com formação principal em ciência e apenas secundária em comunicação, ligados na linguagem do vídeo online -- reproduzia muitas das questões, confusões e dilemas que gente como eu -- velho…

Livro ganha verbete na Wikipedia!

Minha primeira obra de divulgação científica,O Livro dos Milagres, virou verbete na Wikipedia em língua portuguesa. O artigo entrou no ar ontem, imagino que praticamente cinco anos após eu ter começado a escrever o livro. Milagres foi um trabalho de redação rápida -- iniciei em janeiro e terminei, se não me engano, em março de 2011. O processo editorial também foi bastante ágil, e o trabalho estava sendo lançado (mais uma vez, salvo engano) em outubro do mesmo ano.

A celeridade se explica pelo desemprego: demitido do posto de editor de Ciência do Portal Estadão em dezembro de 2010, de repente me vi com muito tempo nas mãos, e a velha ambição de "carreira solo" voltando a bater na porta.

Depois de quase 20 anos de carreira, meu nível de paciência para com as rotinas e demandas do jornalismo corporativo vinham diminuindo rapidamente, e há meses já que eu amolava minha pobre esposa com reclamações várias e mencionava, entre resmungos, a aspiração de desenvolver um trabalho seme…

Spotlight

Fui assistir a Spotlight, o filme sobre a investigação exaustiva realizada pelo jornal Boston Globe sobre os casos de pedofilia acobertados pela igreja católica nos Estados Unidos, onde bispos e cardeais limitavam-se a transferir padres acusados de abusar de crianças de uma paróquia para outra, efetivamente fazendo da dita Santa Madre uma espécie de grande cafetina a serviço dos pedófilos: as transferências garantiam que os predadores sexuais  sempre tivessem novas vítimas insuspeitas para atacar -- tudo em nome de "preservar a instituição" e "evitar o escândalo".

O trabalho do Globe no caso foi o que se poderia chamar de jornalismo explícito, arquetípico, quintessencial, o jornalismo-que-justifica-o-jornalismo: meses de apuração minuciosa, busca implacável de depoimentos e testemunhas, tudo para, no fim, contar uma história extremamente relevante e que forças poderosas prefeririam que não fosse contada. Acho que foi George Orwell que disse que jornalismo é publica…

A culpa é da falta de assunto

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Na mídia de língua inglesa, o período do verão -- onde os parlamentos e universidades se encontram em recesso, parte da população urbana fugiu para a praia e as empresas costumam conceder folgas e férias -- é chamado de silly season, ou "estação da tolice": confrontados com a crise aguda de falta de assunto causada pelo sumiço das principais fontes de pauta (políticos, pesquisadores, empresários) os jornalistas começam a apelar para qualquer tipo de bobagem a fim de vencer a angústia da página (ou tela) em branco.

 O Brasil, claro, também tem sua silly season, situação agravada pelo encolhimento radical das redações, encolhimento ainda mais acentuado durante a vigência do esquema tradicional de folgas e plantões de Natal e Ano-Novo. Uma característica da estação das tolices da mídia nacional é sua queda pelo esoterismo. Você sabe que a imprensa brasileira está sem assunto quando videntes e astrólogos tomam conta dos cadernos ditos "de cultura". Lá se vão dez anos d…

Postagem 666: Madre Teresa

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Estava aqui dando tratos à bola em busca de uma postagem adequada para ser a 666ª deste blog, e eis que me vem a notícia de que foi autorizada a canonização de Madre Teresa de Calcutá.  Não sei que fração (se alguma) da mídia brasileira vai se lembrar da investigação que Christopher Hitchens realizou sobre o trabalho dessa freira albanesa, radicada na Índia, então deixo aqui o link para o livro e, imediatamente abaixo, o documentário em que apresentou suas conclusões (fundamentalmente, de que ela estava muito mais preocupada em salvar almas do que em salvar vidas, uma postura que teve consequências cruéis e trágicas). 



E, para completar, reproduzo, abaixo, uma postagem bem antiga deste blog sobre o processo de validação de "milagres" da Igreja Católica (lembrando que já escrevi um livro inteiro sobre o assunto):

"A notícia de que o Vaticano reconheceu a cura de uma freira, supostamente portadora do Mal de Parkinson, como sendo um milagre operado por intercessão do falecid…