Postagens

Receitas de sucesso: ciência aplicada à literatura

Creio que a maioria dos leitores deste blog sabem que "dobro" minha carreira de jornalista e divulgador de ciência com a de escritor de ficção. E é nessa capacidade, de ficcionista, que venho assistindo já há algum tempo a um fenômeno que acabou atiçando meu lado divulgador: a venda de "receitas de sucesso" para escritores iniciantes e/ou aspirantes.

Claro, não há nada de inédito em escritores consagrados darem conselhos aos novatos -- aliás, ouso dizer que uma das coisas mais difíceis do mundo deve ser convencer alguns escritores consagrados a não dar conselhos aos novatos: ninguém sai por aí publicando os frutos da própria imaginação sem uma dose razoável (anda que disfarçada) de vaidade e arrogância como combustível, e se há uma gratificação específica da vaidade intelectual é a possibilidade de angariar discípulos.

Mas a onda das "receitas de sucesso" de distingue do aconselhamento puro e simples, primeiro, porque assume um caráter de relação comercia…

Vegetarianos como alvo

Passei um carnaval num hotel com restaurante vegetariano. Nada contra, e é sempre interessante conhecer pratos alternativos. Provavelmente por causa dessa orientação gastronômica da casa, havia algumas revistas de nicho, voltadas para o público vegetariano, no saguão e, movido por curiosidade profissional, me pus a folheá-las.

Tomei um susto: eu nunca tinha visto tanta pseudociência, e nem pseudociência tão perigosa, quanto a que encontrei nas páginas de publicidade dessas publicações. Nem mesmo em revistas de estética e "bem-estar" feminino, e quem conhece esse tipo de periódico, com seus anúncios de suplementos milagrosos de colágeno, suas promessas de rejuvenescimento via micro-ondas e de "cura" quântica da celulite sabe do que estrou falando.

O público vegetariano é assediado por mascates que prometem coisas que vão da mera tolice (remédios florais para "nervosismo e agitação") à mentira deslavada (um anúncio jura que o consumo de algas marinhas faz m…

Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

Nos últimos tempos, as redes sociais -- ou, ao menos, as minhas timelines -- andam virtualmente entupidas de notas, notícias e insinuações a respeito do surto de microcefalia no Brasil, sua ligação com o vírus zika e supostas manobras do governo para esconder as "verdadeiras causas" do problema, que iram desde "vacinas cubanas vencidas" a um plano maligno de ONGs internacionais para... Bom, ninguém parece saber para quê, mesmo.

A questão das vacinas é a que surge em mais versões, e a que mais seduz os incautos que buscam motivos para culpar o governo federal (como se ele já não tivesse culpas reais suficientes, mas deixa pra lá). Ela toma, pelo menos, duas formas, a saber: (a) teria havido uma campanha de vacinação contra rubéola usando vacinas vencidas, que foram aplicadas a mulheres grávidas ou que engravidaram logo depois da dose;  (b) a campanha contra sarampo, realizada no Nordeste em 2015, e que usou as vacinas dupla (que também contém o vírus da rubéola) e t…

Editando embriões humanos: a era biopunk?

Pesquisadores do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, obtiveram autorização oficial para aplicar uma técnica de edição genética em embriões humanos saudáveis. A técnica, chamada CRISPR/Cas9, envolve basicamente o uso de um "robô" bioquímico para realizar operações de "copy-paste" no material genético do núcleo celular, não só eliminando sequências indesejadas, como também permitindo que elas sejam substituídas por versões escolhidas pelos pesquisadores.

Adaptada por cientistas a partir do arsenal imunológico de certas bactérias, que usam ferramentas naturais de edição genética para se livrar do DNA de parasitas, a CRISPR/Cas9 vem causando revolução tecnológica na área de manipulação genética, por causa de sua enorme precisão: ela permite que recortes e emendas sejam feitos no genoma com um controle de localização extremamente apurado. Em setembro do ano passado, a revista Sciencepublicou artigo que relata a tentativa, bem-sucedida, de trocar um gene defeituoso,…

Divulgação científica: pequenos dilemas

Passei o último sábado reunido com algumas dezenas de divulgadores de ciência -- em sua maioria, blogueiros e vlogueiros (isto é "blogueiros de vídeo", para quem não está atualizado com o jargão) -- num evento promovido pelo Numina Labs. A troca de experiências é sempre fértil, e conversar com gente inteligente é sempre agradável, mas confesso que me senti um pouco deslocado, tanto pela faixa etária (eu era um dos dois caras mais velhos ali, e "mais velho" no sentido de que provavelmente sou contemporâneo dos pais de boa parte dos participantes), como pela questão midiática: sempre fui um cara "do impresso", então o foco principal do encontro, vídeo, estava bem fora da minha zona de expertise.

Ainda assim, foi interessante ver como aquele grupo -- jovens, em sua maioria com formação principal em ciência e apenas secundária em comunicação, ligados na linguagem do vídeo online -- reproduzia muitas das questões, confusões e dilemas que gente como eu -- velho…

Livro ganha verbete na Wikipedia!

Minha primeira obra de divulgação científica,O Livro dos Milagres, virou verbete na Wikipedia em língua portuguesa. O artigo entrou no ar ontem, imagino que praticamente cinco anos após eu ter começado a escrever o livro. Milagres foi um trabalho de redação rápida -- iniciei em janeiro e terminei, se não me engano, em março de 2011. O processo editorial também foi bastante ágil, e o trabalho estava sendo lançado (mais uma vez, salvo engano) em outubro do mesmo ano.

A celeridade se explica pelo desemprego: demitido do posto de editor de Ciência do Portal Estadão em dezembro de 2010, de repente me vi com muito tempo nas mãos, e a velha ambição de "carreira solo" voltando a bater na porta.

Depois de quase 20 anos de carreira, meu nível de paciência para com as rotinas e demandas do jornalismo corporativo vinham diminuindo rapidamente, e há meses já que eu amolava minha pobre esposa com reclamações várias e mencionava, entre resmungos, a aspiração de desenvolver um trabalho seme…

Spotlight

Fui assistir a Spotlight, o filme sobre a investigação exaustiva realizada pelo jornal Boston Globe sobre os casos de pedofilia acobertados pela igreja católica nos Estados Unidos, onde bispos e cardeais limitavam-se a transferir padres acusados de abusar de crianças de uma paróquia para outra, efetivamente fazendo da dita Santa Madre uma espécie de grande cafetina a serviço dos pedófilos: as transferências garantiam que os predadores sexuais  sempre tivessem novas vítimas insuspeitas para atacar -- tudo em nome de "preservar a instituição" e "evitar o escândalo".

O trabalho do Globe no caso foi o que se poderia chamar de jornalismo explícito, arquetípico, quintessencial, o jornalismo-que-justifica-o-jornalismo: meses de apuração minuciosa, busca implacável de depoimentos e testemunhas, tudo para, no fim, contar uma história extremamente relevante e que forças poderosas prefeririam que não fosse contada. Acho que foi George Orwell que disse que jornalismo é publica…