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Críticas, linchamentos e taurascática

Eu não pretendia, mesmo, entrar nessa refrega sobre linchamentos retóricos e celebridades contritas, mas um argumento que venho encontrando nas redes sociais merece tratamento à parte: o de que o linchamento simbólico é apenas mais uma aplicação da máxima "ouvir o que não se quer é o preço de dizer o que se quer". O que realmente não é o caso. Por quê? Vamos lá.

Quem conhece este blog há mais tempo sabe que tenho uma posição absolutista, alguns diriam até quixotesca, em defesa da liberdade de expressão (exemplos aqui, aqui e aqui, bem como este material no Amálgama). Então, antes que me perguntem, não, eu não acho que linchamentos virtuais devam ser proibidos ou punidos legalmente, a menos que causem danos mensuráveis (como alguém perder o emprego porque foi difamado no Facebook), ou que redundem em linchamentos reais.

Porque, sim, existe uma (enorme) diferença entre uma coisa e outra. Uma das táticas mais comuns dos linchamentos virtuais é a tentativa de borrar a distinção,…

Por que existe vergonha?

Uma série de experimentos envolvendo centenas de voluntários de três cenas culturais diversas – Estados Unidos, Índia e Israel – indica que, em cada cultura, os comportamentos que mais levam uma pessoa a ser mal vista pelo grupo são, também, os que causam mais vergonha em quem os pratica. “Por hipótese, vergonha é um programa neurocomputacional moldado pela seleção natural”, escrevem os autores, dos EUA, Israel e Holanda. “Aqui, testamos a hipótese de que a vergonha, embora desagradável (como a dor) serve à função adaptativa de defesa contra a desvalorização social que resulta da informação negativa que chega a terceiros”. Leia a íntegra da nota, e mais novidades da ciência, no Telescópio do Jornal da Unicamp, que volta depois das férias!

A glamurização da matéria paga

"Matéria paga", em jargão jornalístico, é algo que parece conteúdo editorial -- isto é, notícias e opiniões publicadas tendo em vista o interesse do leitor -- mas que, na verdade, é conteúdo publicitário, isto é, notícias e opiniões que seriam publicadas de qualquer jeito, dane-se o interesse do leitor, porque alguém está pagando para que aquilo saia.

Pelo Brasil a fora, são incontáveis os jornais e revistas (e, agora na era da internet, blogs e quetais) que dependem de matéria paga para viver. Ela costuma aparecer em duas modalidades básicas.

A mais humilde é a "contrapartida" ou "matéria de cortesia", usada para captar publicidade: o repórter vai, digamos, a um restaurante, fala com o dono, anota sua espantosa história de vida, os ingredientes maravilhosos que usa e receitas fantásticas que oferece. Escreve um texto laudatório que sai, coincidentemente, na página ao lado do anúncio (pago) do mesmo restaurante, com foto do salão, telefone e horário de fu…

Receitas de sucesso: ciência aplicada à literatura

Creio que a maioria dos leitores deste blog sabem que "dobro" minha carreira de jornalista e divulgador de ciência com a de escritor de ficção. E é nessa capacidade, de ficcionista, que venho assistindo já há algum tempo a um fenômeno que acabou atiçando meu lado divulgador: a venda de "receitas de sucesso" para escritores iniciantes e/ou aspirantes.

Claro, não há nada de inédito em escritores consagrados darem conselhos aos novatos -- aliás, ouso dizer que uma das coisas mais difíceis do mundo deve ser convencer alguns escritores consagrados a não dar conselhos aos novatos: ninguém sai por aí publicando os frutos da própria imaginação sem uma dose razoável (anda que disfarçada) de vaidade e arrogância como combustível, e se há uma gratificação específica da vaidade intelectual é a possibilidade de angariar discípulos.

Mas a onda das "receitas de sucesso" de distingue do aconselhamento puro e simples, primeiro, porque assume um caráter de relação comercia…

Vegetarianos como alvo

Passei um carnaval num hotel com restaurante vegetariano. Nada contra, e é sempre interessante conhecer pratos alternativos. Provavelmente por causa dessa orientação gastronômica da casa, havia algumas revistas de nicho, voltadas para o público vegetariano, no saguão e, movido por curiosidade profissional, me pus a folheá-las.

Tomei um susto: eu nunca tinha visto tanta pseudociência, e nem pseudociência tão perigosa, quanto a que encontrei nas páginas de publicidade dessas publicações. Nem mesmo em revistas de estética e "bem-estar" feminino, e quem conhece esse tipo de periódico, com seus anúncios de suplementos milagrosos de colágeno, suas promessas de rejuvenescimento via micro-ondas e de "cura" quântica da celulite sabe do que estrou falando.

O público vegetariano é assediado por mascates que prometem coisas que vão da mera tolice (remédios florais para "nervosismo e agitação") à mentira deslavada (um anúncio jura que o consumo de algas marinhas faz m…

Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

Nos últimos tempos, as redes sociais -- ou, ao menos, as minhas timelines -- andam virtualmente entupidas de notas, notícias e insinuações a respeito do surto de microcefalia no Brasil, sua ligação com o vírus zika e supostas manobras do governo para esconder as "verdadeiras causas" do problema, que iram desde "vacinas cubanas vencidas" a um plano maligno de ONGs internacionais para... Bom, ninguém parece saber para quê, mesmo.

A questão das vacinas é a que surge em mais versões, e a que mais seduz os incautos que buscam motivos para culpar o governo federal (como se ele já não tivesse culpas reais suficientes, mas deixa pra lá). Ela toma, pelo menos, duas formas, a saber: (a) teria havido uma campanha de vacinação contra rubéola usando vacinas vencidas, que foram aplicadas a mulheres grávidas ou que engravidaram logo depois da dose;  (b) a campanha contra sarampo, realizada no Nordeste em 2015, e que usou as vacinas dupla (que também contém o vírus da rubéola) e t…

Editando embriões humanos: a era biopunk?

Pesquisadores do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, obtiveram autorização oficial para aplicar uma técnica de edição genética em embriões humanos saudáveis. A técnica, chamada CRISPR/Cas9, envolve basicamente o uso de um "robô" bioquímico para realizar operações de "copy-paste" no material genético do núcleo celular, não só eliminando sequências indesejadas, como também permitindo que elas sejam substituídas por versões escolhidas pelos pesquisadores.

Adaptada por cientistas a partir do arsenal imunológico de certas bactérias, que usam ferramentas naturais de edição genética para se livrar do DNA de parasitas, a CRISPR/Cas9 vem causando revolução tecnológica na área de manipulação genética, por causa de sua enorme precisão: ela permite que recortes e emendas sejam feitos no genoma com um controle de localização extremamente apurado. Em setembro do ano passado, a revista Sciencepublicou artigo que relata a tentativa, bem-sucedida, de trocar um gene defeituoso,…