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Nos tempos do óleo de cobra

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Quem tem alguma familiaridade com westerns conhece a figura do vendedor de óleo de cobra: um tratante que vai de cidade em cidade, a bordo de uma carroça vistosa e colorida, vendendo preparados de composição misteriosa e duvidosa salubridade, com a promessa de curas milagrosas.

Os "óleos de cobra" dos Estados Unidos representaram um desdobramento dos chamados "remédios de patente" britânicos, que originalmente deviam o nome ao fato de terem recebido cartas-patente de figuras ilustres (por exemplo, membros da família real) autorizando o uso do nome da celebridade em material publicitário. Depois, a expressão passou a ser aplicada a qualquer gororoba que tivesse um nome ou marca registrado.

Os primeiros remédios de patente, datados do século XVIII, eram "elixires", soluções de ervas amargas "medicinais" em álcool. Muitos sobrevivem até hoje, mas agora vendidos cono licores, bitters ou cordiais. No lado não-alcoólico do espectro, a coca-cola começo…

Considerações sobre a polarização

Uma coisa que costumo dizer, quando me convidam para dar palestras sobre divulgação científica, é que é possível encontrar pesquisa feita sobre praticamente qualquer tema relevante que se possa imaginar. Digo isso para sugerir às pessoas que debates acalorados não precisam ser baseados só em afeto e palavrão, mas que dá pra trazer dados à mesa. Mesmo que os dados sejam falhos, inconclusivos ou passíveis de distorção, eles pelo menos ajudam a mapear o terreno em disputa.

Por exemplo: existe uma literatura ampla sobre o fenômeno social e psicológico da polarização, quando pessoas assumem atitudes extremas e se veem incapazes de levar o adversário a sério -- qualquer pessoa menos extrema ou está vendida ou é idiota. E quem está no polo oposto é vendido e idiota.

É verdade que muito dessa literatura tem como foco a situação norte-americana, mas do jeito que andamos mimetizando as dinâmicas e o jargão de lá, tanto à esquerda ("empoderamento", "blackface") quanto à direi…

Reprodutibilidade na economia, racismo na justiça

O Projeto Reprodutibilidade: Psicologia, que no ano passado reportou falhas na tentativa de reprodução de cerca de metade de 100 importantes experimentos da área, gerou um filhote, na economia: tentativa de reprodução de 18 experimentos laboratoriais da área  -- em que voluntários são divididos em grupos e, em interações que lembram jogos, têm de tomar decisões econômicas sob diferentes circunstâncias -- é reportada na edição mais recente da Science, e com resultados bem mais promissores que os da psicologia.

Por sua vez, o periódico Journal of Quantitative Criminology traz umlevantamento sobre os resultados de 17 mil julgamentos realizados no Estado da Carolina do Sul, e conclui que réus negros primários, acusados de crimes leves, tendem a ser condenados a penas mais pesadas que brancos nas mesmas condições. A disparidade racial desaparece quando os réus já têm extensa ficha criminal e cometem delitos mais graves.

Essas e outras notas estão no Telescópio do Jornal da Unicamp.

Críticas, linchamentos e taurascática

Eu não pretendia, mesmo, entrar nessa refrega sobre linchamentos retóricos e celebridades contritas, mas um argumento que venho encontrando nas redes sociais merece tratamento à parte: o de que o linchamento simbólico é apenas mais uma aplicação da máxima "ouvir o que não se quer é o preço de dizer o que se quer". O que realmente não é o caso. Por quê? Vamos lá.

Quem conhece este blog há mais tempo sabe que tenho uma posição absolutista, alguns diriam até quixotesca, em defesa da liberdade de expressão (exemplos aqui, aqui e aqui, bem como este material no Amálgama). Então, antes que me perguntem, não, eu não acho que linchamentos virtuais devam ser proibidos ou punidos legalmente, a menos que causem danos mensuráveis (como alguém perder o emprego porque foi difamado no Facebook), ou que redundem em linchamentos reais.

Porque, sim, existe uma (enorme) diferença entre uma coisa e outra. Uma das táticas mais comuns dos linchamentos virtuais é a tentativa de borrar a distinção,…

Por que existe vergonha?

Uma série de experimentos envolvendo centenas de voluntários de três cenas culturais diversas – Estados Unidos, Índia e Israel – indica que, em cada cultura, os comportamentos que mais levam uma pessoa a ser mal vista pelo grupo são, também, os que causam mais vergonha em quem os pratica. “Por hipótese, vergonha é um programa neurocomputacional moldado pela seleção natural”, escrevem os autores, dos EUA, Israel e Holanda. “Aqui, testamos a hipótese de que a vergonha, embora desagradável (como a dor) serve à função adaptativa de defesa contra a desvalorização social que resulta da informação negativa que chega a terceiros”. Leia a íntegra da nota, e mais novidades da ciência, no Telescópio do Jornal da Unicamp, que volta depois das férias!

A glamurização da matéria paga

"Matéria paga", em jargão jornalístico, é algo que parece conteúdo editorial -- isto é, notícias e opiniões publicadas tendo em vista o interesse do leitor -- mas que, na verdade, é conteúdo publicitário, isto é, notícias e opiniões que seriam publicadas de qualquer jeito, dane-se o interesse do leitor, porque alguém está pagando para que aquilo saia.

Pelo Brasil a fora, são incontáveis os jornais e revistas (e, agora na era da internet, blogs e quetais) que dependem de matéria paga para viver. Ela costuma aparecer em duas modalidades básicas.

A mais humilde é a "contrapartida" ou "matéria de cortesia", usada para captar publicidade: o repórter vai, digamos, a um restaurante, fala com o dono, anota sua espantosa história de vida, os ingredientes maravilhosos que usa e receitas fantásticas que oferece. Escreve um texto laudatório que sai, coincidentemente, na página ao lado do anúncio (pago) do mesmo restaurante, com foto do salão, telefone e horário de fu…

Receitas de sucesso: ciência aplicada à literatura

Creio que a maioria dos leitores deste blog sabem que "dobro" minha carreira de jornalista e divulgador de ciência com a de escritor de ficção. E é nessa capacidade, de ficcionista, que venho assistindo já há algum tempo a um fenômeno que acabou atiçando meu lado divulgador: a venda de "receitas de sucesso" para escritores iniciantes e/ou aspirantes.

Claro, não há nada de inédito em escritores consagrados darem conselhos aos novatos -- aliás, ouso dizer que uma das coisas mais difíceis do mundo deve ser convencer alguns escritores consagrados a não dar conselhos aos novatos: ninguém sai por aí publicando os frutos da própria imaginação sem uma dose razoável (anda que disfarçada) de vaidade e arrogância como combustível, e se há uma gratificação específica da vaidade intelectual é a possibilidade de angariar discípulos.

Mas a onda das "receitas de sucesso" de distingue do aconselhamento puro e simples, primeiro, porque assume um caráter de relação comercia…