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Este blog não vai curar seu câncer

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Uma objeção que encontro com frequência cada vez maior, toda vez que me posiciono sobre a histeria da fosfoetanolamina/"pílula do câncer" que vem se propagando com a cumplicidade irresponsável de parte da mídia e, agora, do próprio governo, é a de que "não se deve negar nenhuma esperança de saúde a pacientes de câncer".

A frase, e variações que dizem em essência  a mesma coisa, é postada em redes sociais e aparece em caixas de comentário, muitas vezes acompanhada da insinuação -- ou a acusação direta -- de que só um monstro insensível ou um tecnocrata arrogante com uma planilha Excel no lugar do coração poderia pensar em negar a um doente "uma chance de cura".

O que há de errado nesses apelos ao sentimento? Duas coisas.

Primeiro, ele deixa em aberto o ponto crucial de quem decide o que é "esperança de saúde" ou "chance de cura". Basta dar na EPTV? Se eu sair por aí falando que as romãs do meu jardim curam câncer, isso vira uma "esp…

"Fosfo" sancionada: golpe nos outros é refresco

O Estado brasileiro -- e este é um ato de Estado, já que contou com a cumplicidade das duas Casas Legislativas, da Presidência da República e, anteriormente, de setores expressivos do Judiciário -- acaba de abraçar a aclamação popular como critério para a liberação de medicamentos. Com a canetada final da (ainda) presidente da República Dilma Rousseff, publicada no Diário Oficial da União, o Brasil volta aos tempos das sangrias, dos purgativos à base de metais tóxicos e dos calmantes para cólica infantil feitos de álcool e morfina: à época, enfim, em que a presença de um medicamento no mercado não era ditada por critérios de segurança e eficácia, mas pelo poder de marketing do fabricante e pela convicção popular.

A partir desta quinta-feira, 14 de abril de 2016, é legal " uso da substância fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna", bem como "a produção, manufatura, importação, distribuição, prescrição, dispensação, posse ou uso da fo…

Simulação produz ribose em gelo de cometa

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Ribose, um açúcar essencial para a estrutura do RNA, pode ser produzido no espaço por meio da irradiação de pedaços de gelo cósmico com a luz das estrelas, afirma artigo publicado na revista Science
“A ribose é a subunidade molecular central do RNA, mas sua origem abiótica é desconhecida”, lembram os autores, vinculados a instituições da França, México e Dinamarca. O RNA é essencial para a vida como existe na Terra, e cientistas acreditam que essa molécula pode ter desempenhado um papel fundamental na própria origem de nossa biosfera. 
O artigo prossegue: “Observamos a formação de quantidades substanciais de ribose e de uma diversidade de açúcares estruturalmente relacionados” entre os resíduos orgânicos obtidos em um gelo, produzido em laboratório, análogo ao existente no espaço interestelar, depois de o material ter sido tratado com radiação ultravioleta e aquecido. Esses resultados, lembram os autores, são consistentes com análises da superfície glacial do cometa 67P/Churyumov–G…

"Fosfo Wars": um balanço até agora

A semana foi agitada no campo do que poderíamos chamar de "Fosfoetanolamina Wars", com os proponentes do uso da molécula no tratamento do câncer valendo-se de uma retórica dura para atacar, em audiência pública no Senado, os primeiros relatórios divulgados por cientistas independentes a respeito da qualidade das pílulas até recentemente produzidas em São Carlos (conclusão: péssima) e dos efeitos da "fosfo" quando utilizada contra culturas de células tumorais (conclusão: nulos ou pífios). 
Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal finalmente isentou a USP da obrigação de seguir fabricando e distribuindo a pílula, depois de o laboratório encarregado do serviço ter sido fechado. Parece um bom momento para fazer um balanço do caso, enquanto se aguardam os resultados dos testes em camundongos, também encomendados pelo governo. O texto que segue, portanto, é longo. Bem longo.
Até agora, o que se tem de concreto, a respeito da efetividade da "fosfo" contra o c…

Os perigos do GPS

O uso crescente de sistemas de navegação por satélite está atrofiando a capacidade humana de coordenar visão e memória para determinar localizações no espaço, diz artigo de opinião publicado na revista Nature. O autor do artigo, Roger McKinlay, foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da moderna tecnologia de navegação por satélites, mas hoje adverte para os riscos da crescente dependência dessa tecnologia, principalmente por parte do grande público. Ele cita simulações mostrando que motoristas que seguem cegamente instruções de GPS têm menos noção de onde estão do que os que seguem mapas. Leia a conclusão dessa nota, e outras, no Telescópio do Jornal da Unicamp.

Batman vs. Superman: Em busca de uma nova Era de Prata

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Assisti a Batman versus Superman. É um filme razoável: em termos da caracterização do Superman, gostei mais até deste segundo episódio do que de O Homem de Aço: este Kal-El funciona muito melhor, em termos de fidelidade ao conceito fundamental do personagem, do que a arma de destruição em massa que vimos no filme anterior.

A melhor interpretação do filme é a da Gal Gadot: as cenas da Mulher Maravilha são praticamente as únicas em que aquele senso de ridículo instintivo que começa a incomodar no fundo da cabeça quando se vê um adulto fantasiado de super-herói desaparece.

Alguns críticos elogiaram a atuação de Laurence Fishburne como Perry White, mas não entendi o porquê: todas as cenas na redação de O Planeta Diário são decalques óbvios das vistas em Superman e em Superman II, lá se vão mais de 30 anos (incluindo a presença de uma atarantada "Jenny"), mas aquelas cenas tinham sido desenhadas como alívio cômico, enquanto que Fishburne (e Henry Cavill, como Clark Kent), provav…

A morte de Drácula e outros contos

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Teve um tempo, vão-se lá uns 20 anos, em que eu estava fascinado por fantasia histórica. Diferente da fantasia mais tradicional, baseada em realidades alternativas ou "mundos secundários" -- como a sempre lembrada Terra Média -- a fantasia histórica é um gênero que crava o fantástico na história deste nosso mundo. Talvez seja a forma mais antiga de ficção: Gilgamesh, a Ilíada e as lendas do Rei Arthur são, cada uma à sua maneira e em seu contexto próprio, fantasias históricas.

Meu apreço pelo gênero tinha raízes menos nobres, no entanto: ele veio da paixão pelo trabalho de Robert E. Howard, principalmente em contos como The Grey God Passes e, principalmente, as aventuras protagonizadas por Turlogh O'Brien, Bran Mak Morn e Cormac McArt.

Além disso, era uma época em que o mercado para ficção fantástica nacional se resumia, quase só, a revistas de RPG, como Dragão Brasil e Só Aventuras. A fantasia histórica era um gênero de apelo fácil para o público dos jogos de interpret…