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Polígonos em Plutão

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A região de Plutão conhecida informalmente como Planície Sputnik, localizada na parte equatorial do planeta-anão, é recoberta por uma capa de nitrogênio congelado recortada em curiosas formas poligonais com até 40 quilômetros de largura. O centro de cada polígono pode ser vários metros mais alto que as bordas. A origem dessas formas é discutida em dois artigos publicados na revista Nature.

O primeiro artigo, do grupo liderado por William B. McKinnon, da Universidade de St. Louis, aponta que camadas sólidas de nitrogênio com quilômetros de espessura devem sofrer convecção nas condições atuais de Plutão, tal como medidas pela sonda New Horizons, da Nasa. “Demonstramos numericamente que a reviravolta convectiva em camadas de nitrogênio sólido, com vários quilômetros de espessura, pode explicar a grande largura lateral” dos polígonos, diz o texto.

O segundo trabalho, de A. J. Trowbridge, da Universidade Purdue, reforça a tese de que é a convecção no interior das camadas de nitrogênio a c…

Valor-p na mira da "Science"

Artigo publicado na revista Science vem a se somar ao coro de críticas ao uso indiscriminado do critério estatístico do “valor-p” como determinante em publicações científicas. Assinado por Steven Goodman, da Universidade Stanford, o texto condena a “noção equivocada” de que “a divisa entre uma alegação cientificamente justificada e uma injustificada é definida por se o valor-p cruzou a ‘linha luminosa’ da significância, excluindo-se considerações externas como evidências anteriores, compreensão do mecanismo ou conduta e desenho experimental”.

Referindo-se a um nível de probabilidade – por exemplo, “p < 0,05” – o valor-p aparece rotineiramente em artigos científicos e costuma ser interpretado como a chance de os resultados apresentados terem sido causados por mero acaso, e não por um fenômeno real. Essa interpretação foi atacada, em março deste ano, pela Associação de Estatística dos Estados Unidos (ASA, na sigla em inglês), ao afirmar, em nota que “isoladamente, um valor-p não ofere…

E mais um teste da "fosfo" em animais...

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No início da última semana, comentei aqui os resultados (negativos) dos dois primeiros teses patrocinados pelo governo federal da mistureba comumente chamada de" fosfoetanolamina sintética da USP" (FS, pra encurtar) em tumores implantados em ratos e camundongos. De lá para cá, apareceu um terceiro teste, desta vez realizado pelo Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP) em uma linhagem de camundongos transgênicos inoculados com melanoma, um câncer de pele. A íntegra do relatório pode ser lida aqui, mas o resumo gráfico é este abaixo:


E o que o gráfico nos diz? Que o tumor, nos animais tratados com uma solução de FS de 200 mg, cresceu até mais do que no tratamento com "veículo" (água e sal); que, nos camundongos tratados com FS a 500 mg, o tumor cresceu menos; e que os animais onde o câncer progrediu menos foram os tratados com um quimioterápico comum, a cisplatina. Em números, os camundongos tratados com cisplatina chegaram ao fim do tratamento com tumores …

Ciência como biscoito da sorte

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Acho que todo mundo na internet lusófona já teve seus cinco minutos de schadenfreude com a infeliz publicação do Instituto Liberal que atribui o desenvolvimento da Física Quântica a uma suposta agenda de relativismo moral e obscurantismo deliberado, arquitetada e manietada pelas esquerdas.

Vale a pena notar que o Instituto teve a honradez de retratar-se publicamente do texto, ainda que o motivo alegado tenha sido uma suposta "ofensa à comunidade científica" e não o fato de o artigo ser uma coleção mal ajambrada de erros grotescos. De qualquer forma, a web nunca perdoa, nunca esquece: o texto, mesmo já removido na fonte original, pode ser lido, em toda sua glória imorredoura, alhures.

Um ponto curioso nesse caso é que a acusação específica -- de que determinado ramo da ciência não passa de uma espécie de ficção criada para sustentar certas pressuposições políticas e valores -- é algo que já foi (e, em certos círculos, ainda é) muito mais fácil de se encontrar nas esquerdas, …

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

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Foram publicados, no site -- que continua no ar e com o mesmo nome -- do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) os relatórios sobre os testes, realizados pelo Laboratório de Oncologia Experimental da Universidade Federal do Ceará (UFC), com a fosfoetanolamina sintética (FS) de São Carlos em animais com câncer. Contrariando as alegações de quem dizia que os primeiros testes, realizados em culturas de células, não haviam funcionado porque a "fosfo" requer um organismo para metabolizá-la antes de atacar o câncer, os resultados in vivo também foram negativos. Ironicamente, em um dos estudos o grupo tratado com FS teve mais casos de metástase do que o grupo de controle.

Um dos trabalhos avaliou os efeitos da FS em ratos inoculados com carcinossarcoma 256 de Walker, um câncer detectado originalmente na mama de uma rata em 1928. O outro tratou de medir a eficácia da FS em camundongos inoculados com sarcoma 180, um outro tipo de câncer. Para quem quiser um resumo rápido…

Espadas contra Cthulhu: pré-venda!

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Está em pré-venda na Amazon.com a antologia britânica Swords vs. Cthulhu, que traz um conto meu! Tratei algumas vezes, aqui no blog, de minha participação nesse livro, . Como o título deixa claro, o livro reúne contos em que aventureiros do mundo da espada-e-feitiçaria enfrentam Criaturas Que Não Devem Ser Mencionadas -- monstros inspirados pela mitologia criada pelo americano H.P. Lovecraft e seu círculo de amigos e fãs, inicialmente nas páginas da revista "pulp" Weird Tales nos anos 20/30 do século passado e, nas gerações seguintes, em livros, revistas, filmes, seriados e videogames numerosos demais para mencionar.

Pode parecer covardia lançar os Grandes Antigos de Lovecraft contra aventureiros armados de adagas e floretes -- ou mesmo espadas de duas mãos -- mas a tradição em torno desse tipo de confronto é antiga e remonta, pelo menos, aos contos The Shadow Kingdom e Worms of the Earth, de Robert E. Howard. Outros autores, como Clark Ashton Smith e Fritz Leiber -- este, …

Pedro e o lobo transgênico

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A mitologia negativa criada em torno dos alimentos geneticamente modificados -- os transgênicos -- não parece dar sinais de arrefecer. Em vez disso, como costuma acontecer com teorias da conspiração e outros fenômenos do folclore contemporâneo, desloca-se, adapta-se: ao mesmo tempo que algumas pessoas ainda se preocupam com a presença de material geneticamente modificado na ração de seus gatinhos, outras já transferem os temores para os pesticidas associados a certas variedades de transgênicos.

Esse deslocamento talvez signifique que fatos e evidências científicas acabam tendo alguma penetração na consciência coletiva, ainda que de modo lento e enviesado. Há dois anos, por exemplo, foi publicado no Journal of Animal Science um trabalho que comparou os registros sobre saúde do gado e dos frangos, antes e depois da introdução dos transgênicos na ração animal nos Estados Unidos, e não encontrou nenhuma diferença relevante.

Ao longo das duas décadas analisadas na pesquisa, a parcela da r…