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Mitocôndrias e deuses astronautas

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Durante o evento pró-fosfoetanolamina realizado no último sábado, os químicos da USP de São Carlos que, ainda hoje, são os principais promotores da fosfoetanolamina sintética(R) (FOS) como cura universal e inquestionável do câncer, apresentaram sua visão completa do suposto mecanismo de ação da substância (ou mistura de substâncias, de acordo com a análise realizada pelo Instituto de Química da Unicamp). Minimizando o tão decantado papel da FOS em "marcar" as células cancerosas para o sistema imunológico, concentraram-se mais na ideia de que a molécula é capaz de reativar as mitocôndrias, as estruturas responsáveis por oxidar açúcar e gerar energia no interior das células.

Resumindo, os pais da FOS afirmam que as alterações genéticas que fazem a célula reproduzir-se descontroladamente são mera consequência de um problema metabólico, envolvendo o transporte de gordura para o interior da célula.

A falta de gordura, de acordo com o modelo, desativa a mitocôndria. Para obter en…

Alice no País da Fosfoetanolamina

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No último sábado, visitei uma realidade alternativa. Cheguei lá não caindo pela toca de um coelho, mas subindo no elevador de um hotel no centro da cidade de São Paulo, a dois quarteirões da Praça da República: foi no 23º andar do Hotel Excelsior que aconteceu o Seminário Fosfoetanolamina em Debate, patrocinado pelo Sindicado dos Farmacêuticos do Estado de São Paulo.

Neste mundo paralelo, onde as leis mais fundamentais da biologia e da fisiologia divergem das do nosso Universo, o câncer não é causado por mutações genéticas, mas pela mudança na acidez do citoplasma; as células cancerosas são anaeróbicas, mas precisam de oxigênio para viver; e uma só molécula, fosfoetanolamina sintética de São Carlos -- e só a de São Carlos -- , é capaz de levar essas células ácidas que não respiram, mas precisam de oxigênio, ao suicídio.

Esta, ao menos, é a biologia fundamental do câncer de acordo com as apresentações feitas pelos professores Gilberto Chierice e Salvador Claro Neto. Abaixo, alguns sli…

Polígonos em Plutão

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A região de Plutão conhecida informalmente como Planície Sputnik, localizada na parte equatorial do planeta-anão, é recoberta por uma capa de nitrogênio congelado recortada em curiosas formas poligonais com até 40 quilômetros de largura. O centro de cada polígono pode ser vários metros mais alto que as bordas. A origem dessas formas é discutida em dois artigos publicados na revista Nature.

O primeiro artigo, do grupo liderado por William B. McKinnon, da Universidade de St. Louis, aponta que camadas sólidas de nitrogênio com quilômetros de espessura devem sofrer convecção nas condições atuais de Plutão, tal como medidas pela sonda New Horizons, da Nasa. “Demonstramos numericamente que a reviravolta convectiva em camadas de nitrogênio sólido, com vários quilômetros de espessura, pode explicar a grande largura lateral” dos polígonos, diz o texto.

O segundo trabalho, de A. J. Trowbridge, da Universidade Purdue, reforça a tese de que é a convecção no interior das camadas de nitrogênio a c…

Valor-p na mira da "Science"

Artigo publicado na revista Science vem a se somar ao coro de críticas ao uso indiscriminado do critério estatístico do “valor-p” como determinante em publicações científicas. Assinado por Steven Goodman, da Universidade Stanford, o texto condena a “noção equivocada” de que “a divisa entre uma alegação cientificamente justificada e uma injustificada é definida por se o valor-p cruzou a ‘linha luminosa’ da significância, excluindo-se considerações externas como evidências anteriores, compreensão do mecanismo ou conduta e desenho experimental”.

Referindo-se a um nível de probabilidade – por exemplo, “p < 0,05” – o valor-p aparece rotineiramente em artigos científicos e costuma ser interpretado como a chance de os resultados apresentados terem sido causados por mero acaso, e não por um fenômeno real. Essa interpretação foi atacada, em março deste ano, pela Associação de Estatística dos Estados Unidos (ASA, na sigla em inglês), ao afirmar, em nota que “isoladamente, um valor-p não ofere…

E mais um teste da "fosfo" em animais...

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No início da última semana, comentei aqui os resultados (negativos) dos dois primeiros teses patrocinados pelo governo federal da mistureba comumente chamada de" fosfoetanolamina sintética da USP" (FS, pra encurtar) em tumores implantados em ratos e camundongos. De lá para cá, apareceu um terceiro teste, desta vez realizado pelo Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP) em uma linhagem de camundongos transgênicos inoculados com melanoma, um câncer de pele. A íntegra do relatório pode ser lida aqui, mas o resumo gráfico é este abaixo:


E o que o gráfico nos diz? Que o tumor, nos animais tratados com uma solução de FS de 200 mg, cresceu até mais do que no tratamento com "veículo" (água e sal); que, nos camundongos tratados com FS a 500 mg, o tumor cresceu menos; e que os animais onde o câncer progrediu menos foram os tratados com um quimioterápico comum, a cisplatina. Em números, os camundongos tratados com cisplatina chegaram ao fim do tratamento com tumores …

Ciência como biscoito da sorte

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Acho que todo mundo na internet lusófona já teve seus cinco minutos de schadenfreude com a infeliz publicação do Instituto Liberal que atribui o desenvolvimento da Física Quântica a uma suposta agenda de relativismo moral e obscurantismo deliberado, arquitetada e manietada pelas esquerdas.

Vale a pena notar que o Instituto teve a honradez de retratar-se publicamente do texto, ainda que o motivo alegado tenha sido uma suposta "ofensa à comunidade científica" e não o fato de o artigo ser uma coleção mal ajambrada de erros grotescos. De qualquer forma, a web nunca perdoa, nunca esquece: o texto, mesmo já removido na fonte original, pode ser lido, em toda sua glória imorredoura, alhures.

Um ponto curioso nesse caso é que a acusação específica -- de que determinado ramo da ciência não passa de uma espécie de ficção criada para sustentar certas pressuposições políticas e valores -- é algo que já foi (e, em certos círculos, ainda é) muito mais fácil de se encontrar nas esquerdas, …

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

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Foram publicados, no site -- que continua no ar e com o mesmo nome -- do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) os relatórios sobre os testes, realizados pelo Laboratório de Oncologia Experimental da Universidade Federal do Ceará (UFC), com a fosfoetanolamina sintética (FS) de São Carlos em animais com câncer. Contrariando as alegações de quem dizia que os primeiros testes, realizados em culturas de células, não haviam funcionado porque a "fosfo" requer um organismo para metabolizá-la antes de atacar o câncer, os resultados in vivo também foram negativos. Ironicamente, em um dos estudos o grupo tratado com FS teve mais casos de metástase do que o grupo de controle.

Um dos trabalhos avaliou os efeitos da FS em ratos inoculados com carcinossarcoma 256 de Walker, um câncer detectado originalmente na mama de uma rata em 1928. O outro tratou de medir a eficácia da FS em camundongos inoculados com sarcoma 180, um outro tipo de câncer. Para quem quiser um resumo rápido…