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Dando as devidas proporções

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Imagino que os leitores habituais deste blog já estão mais ou menos familiarizados com o conceito de viés cognitivo -- filtros mentais e hábitos de pensamento que distorcem o modo como vemos e interpretamos a realidade. Os mais comumente citados são o viés de confirmação (dar importância desproporcional a eventos que parecem confirmar nossas crenças e preconceitos), a validação subjetiva (interpretar uma série de ocorrências não relacionadas como uma cadeia de eventos que confirma nossa visão particular do mundo) e o viés de disponibilidade (achar que nossa experiência pessoal, ou os exemplos que estão mais à mão, são verdadeiramente típicos e representativos da realidade em geral). Cada um deles traz sérios desafios à tarefa, quase sempre árdua, de pensar com clareza, e tem parcela razoável de responsabilidade por muita coisa lamentável no estado atual da civilização.

Mas a leitura de Suspicious Minds,  do psicólogo britânico Rob Brotherton, chamou minha atenção para um outro viés q…

Vestígio de um asteroide extinto

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Um meteorito de um tipo até agora desconhecido na Terra foi descoberto numa pedreira sueca, informa artigo publicado no periódico Nature Communications. A pedra espacial única foi encontrada num leito de onde também foram extraídos mais de 100 meteoritos de um tipo mais comum, os L-condritos. Os autores do trabalho, de instituições da Suécia e dos EUA, especulam que a rocha pode ser parte de um asteroide que colidiu com o corpo original de onde vieram os L-condritos, há cerca de 470 milhões de anos. “Este pode ser o primeiro exemplo documentado de um meteorito ‘extinto’, isto é, um tipo de meteorito que não cai mais na Terra porque seu corpo de origem foi consumido em colisões”, escrevem os pesquisadores. Esta e outras notas da ciência internacional você encontra no Telescópio do Jornal da Unicamp.

A mentira dos "2% de sobrevivência"

Meus contatos recentes com a subcultura das "terapias alternativas" para câncer andaram me expondo, seguidas vezes, à alegação de que a "quimioterapia tem uma taxa de sobrevivência de apenas 2%". Como costuma acontecer no reino das pseudociências, trata-se de uma frase de impacto mas cujo sentido exato, uma vez que se para para pensar a respeito, não é claro: o que essa "taxa de sobrevivência de 2%" quer dizer, afinal? Que as pessoas que entram em quimioterapia já se encontram tão à beira da morte que a intervenção quase não traz benefício? Que o tratamento quimioterápico é ridiculamente ineficaz? Que a quimioterapia em si mata 98% dos pacientes?

Seja qual for o sentido preciso que se procure atribuir à afirmação, ela é falsa. Mentirosa. Irresponsavelmente cruel. Eu, que já escrevi defendendo a liberação da autobiografia de Adolf Hitler, relutaria, por alguns instantes, em condenar a ideia de pôr na cadeia quem sai por aí repetindo esse tipo de coisa. Por…

Mitocôndrias e deuses astronautas

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Durante o evento pró-fosfoetanolamina realizado no último sábado, os químicos da USP de São Carlos que, ainda hoje, são os principais promotores da fosfoetanolamina sintética(R) (FOS) como cura universal e inquestionável do câncer, apresentaram sua visão completa do suposto mecanismo de ação da substância (ou mistura de substâncias, de acordo com a análise realizada pelo Instituto de Química da Unicamp). Minimizando o tão decantado papel da FOS em "marcar" as células cancerosas para o sistema imunológico, concentraram-se mais na ideia de que a molécula é capaz de reativar as mitocôndrias, as estruturas responsáveis por oxidar açúcar e gerar energia no interior das células.

Resumindo, os pais da FOS afirmam que as alterações genéticas que fazem a célula reproduzir-se descontroladamente são mera consequência de um problema metabólico, envolvendo o transporte de gordura para o interior da célula.

A falta de gordura, de acordo com o modelo, desativa a mitocôndria. Para obter en…

Alice no País da Fosfoetanolamina

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No último sábado, visitei uma realidade alternativa. Cheguei lá não caindo pela toca de um coelho, mas subindo no elevador de um hotel no centro da cidade de São Paulo, a dois quarteirões da Praça da República: foi no 23º andar do Hotel Excelsior que aconteceu o Seminário Fosfoetanolamina em Debate, patrocinado pelo Sindicado dos Farmacêuticos do Estado de São Paulo.

Neste mundo paralelo, onde as leis mais fundamentais da biologia e da fisiologia divergem das do nosso Universo, o câncer não é causado por mutações genéticas, mas pela mudança na acidez do citoplasma; as células cancerosas são anaeróbicas, mas precisam de oxigênio para viver; e uma só molécula, fosfoetanolamina sintética de São Carlos -- e só a de São Carlos -- , é capaz de levar essas células ácidas que não respiram, mas precisam de oxigênio, ao suicídio.

Esta, ao menos, é a biologia fundamental do câncer de acordo com as apresentações feitas pelos professores Gilberto Chierice e Salvador Claro Neto. Abaixo, alguns sli…

Polígonos em Plutão

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A região de Plutão conhecida informalmente como Planície Sputnik, localizada na parte equatorial do planeta-anão, é recoberta por uma capa de nitrogênio congelado recortada em curiosas formas poligonais com até 40 quilômetros de largura. O centro de cada polígono pode ser vários metros mais alto que as bordas. A origem dessas formas é discutida em dois artigos publicados na revista Nature.

O primeiro artigo, do grupo liderado por William B. McKinnon, da Universidade de St. Louis, aponta que camadas sólidas de nitrogênio com quilômetros de espessura devem sofrer convecção nas condições atuais de Plutão, tal como medidas pela sonda New Horizons, da Nasa. “Demonstramos numericamente que a reviravolta convectiva em camadas de nitrogênio sólido, com vários quilômetros de espessura, pode explicar a grande largura lateral” dos polígonos, diz o texto.

O segundo trabalho, de A. J. Trowbridge, da Universidade Purdue, reforça a tese de que é a convecção no interior das camadas de nitrogênio a c…

Valor-p na mira da "Science"

Artigo publicado na revista Science vem a se somar ao coro de críticas ao uso indiscriminado do critério estatístico do “valor-p” como determinante em publicações científicas. Assinado por Steven Goodman, da Universidade Stanford, o texto condena a “noção equivocada” de que “a divisa entre uma alegação cientificamente justificada e uma injustificada é definida por se o valor-p cruzou a ‘linha luminosa’ da significância, excluindo-se considerações externas como evidências anteriores, compreensão do mecanismo ou conduta e desenho experimental”.

Referindo-se a um nível de probabilidade – por exemplo, “p < 0,05” – o valor-p aparece rotineiramente em artigos científicos e costuma ser interpretado como a chance de os resultados apresentados terem sido causados por mero acaso, e não por um fenômeno real. Essa interpretação foi atacada, em março deste ano, pela Associação de Estatística dos Estados Unidos (ASA, na sigla em inglês), ao afirmar, em nota que “isoladamente, um valor-p não ofere…