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Pensamento positivo, cura e café fraco

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Durante séculos, o templo de Esculápio em Epidauro, na Grécia, foi o principal centro de cura do mundo antigo. Doentes dirigiam-se até lá para se submeter ao ritual da incubação. Nesse rito, os afligidos passavam a noite e dormiam numa área especial do templo, o abaton, esperando que Esculápio, o deus da Medicina, lhes aparecesse em sonho e ditasse o tratamento adequado. Arqueólogos já encontraram inúmeras placas votivas, contendo depoimentos de pacientes satisfeitos que gravaram, para a posteridade, seus sonhos divinos e curas maravilhosas. Hoje, o templo de Epidauro está em ruínas -- parte delas você vê na imagem acima --, e é considerado um Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A despeito dos séculos acumulados de depoimentos positivos e relatos sinceros de cura, não se veem mais multidões ansiosas pela próxima incubação.

Corta para o Brasil, 2016. Num domingo desses, pela manhã, estava eu num hotel em São Paulo e, zapeando pela TV, parei no programa de uma igreja neopentecostal.…

Moral ambígua para a inteligência artificial

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Carros autônomos, controlados por algoritmos, vêm sendo desenvolvidos há vários anos, e já foram testados em condições reais diversas vezes. No entanto, seu uso em larga escala requer a definição de algumas prioridades morais – por exemplo, caso um acidente seja inevitável, a inteligência do carro deve adotar a conduta que maximiza a segurança dos passageiros, ou a dos pedestres ao redor?

Na revista Science, pesquisadores da França e dos Estados Unidos revelam o resultado contraditório de uma série de pesquisas de opinião pública sobre o tema: a maioria das pessoas prefere que os outros comprem carros programados para poupar pedestres, em prejuízo dos passageiros – mas a maioria também diz que preferiria andar num carro que preserva a vida dos passageiros a qualquer custo.

Se ambos os tipos de veículo entrarem no mercado, especulam os autores, o modelo “altruísta” provavelmente será eliminado pela competição “egoísta”. Já uma regulamentação que obrigue todos os carros a serem “altruíst…

Estado da ciência na China

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A revista Nature da semana passada dedicou uma seção especial ao panorama da ciência na China. Em comentário escrito para o periódico, Wei Yang, presidente da Fundação Nacional de Ciências Naturais do país asiático, diz que a produtividade chinesa cresceu, mas que é preciso aumentar o impacto das publicações e reduzir os casos de má-conduta científica, como fraude e plágio.

"A má conduta – incluindo falsos autores e falsos revisores – tem se disseminado, como fica evidente na série de retratações de artigos de autores chineses em periódicos da BioMed Central, Elsevier e Springer nos últimos dois anos", escreve ele. 
Seu olhar crítico se estende, ainda, ao papel da ciência chinesa na economia e aos níveis de investimento: "O progresso científico e tecnológico contribuiu com apenas 55% do crescimento econômico na China em 2015, comparado com 88% nos Estados Unidos no mesmo período", queixa-se. "E a China gasta relativamente pouco de seu orçamento total de pesqu…

Superstição chique

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Quando, no meu Livro da Astrologia, refiro-me à prática astrológica como uma "superstição socialmente sancionada", eu estava me referindo a coisas assim (recorte da coluna de Sonia Racy do último domingo):


Treino placebo para o cérebro

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Estudo publicado no periódico PNAS mostra que muitos dos resultados apresentados pela chamada indústria do “treinamento cerebral” – que oferece jogos e atividades capazes, de supostamente, aumentar a memória e a inteligência – na verdade podem ser apenas efeitos placebo.

“Demonstramos clara evidência de efeitos placebo após uma rotina curta de treinamento cognitivo que levou a ganhos significativos de inteligência fluida”, escrevem os autores. “Nossa meta é enfatizar a importância de se excluir explicações alternativas antes de atribuir efeitos às intervenções”.

O trabalho consistiu no uso de dois tipos de panfletos para recrutar voluntários para um exercício de treinamento cerebral. Um dos panfletos foi escrito em tom entusiástico, de modo a estimular uma resposta placebo, enquanto o outro descrevia o experimento de modo neutro. No final, testes de inteligência mostraram que os voluntários que participaram do treinamento após receber o convite-placebo se saíram muito melhor que os que…

Dando as devidas proporções

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Imagino que os leitores habituais deste blog já estão mais ou menos familiarizados com o conceito de viés cognitivo -- filtros mentais e hábitos de pensamento que distorcem o modo como vemos e interpretamos a realidade. Os mais comumente citados são o viés de confirmação (dar importância desproporcional a eventos que parecem confirmar nossas crenças e preconceitos), a validação subjetiva (interpretar uma série de ocorrências não relacionadas como uma cadeia de eventos que confirma nossa visão particular do mundo) e o viés de disponibilidade (achar que nossa experiência pessoal, ou os exemplos que estão mais à mão, são verdadeiramente típicos e representativos da realidade em geral). Cada um deles traz sérios desafios à tarefa, quase sempre árdua, de pensar com clareza, e tem parcela razoável de responsabilidade por muita coisa lamentável no estado atual da civilização.

Mas a leitura de Suspicious Minds,  do psicólogo britânico Rob Brotherton, chamou minha atenção para um outro viés q…

Vestígio de um asteroide extinto

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Um meteorito de um tipo até agora desconhecido na Terra foi descoberto numa pedreira sueca, informa artigo publicado no periódico Nature Communications. A pedra espacial única foi encontrada num leito de onde também foram extraídos mais de 100 meteoritos de um tipo mais comum, os L-condritos. Os autores do trabalho, de instituições da Suécia e dos EUA, especulam que a rocha pode ser parte de um asteroide que colidiu com o corpo original de onde vieram os L-condritos, há cerca de 470 milhões de anos. “Este pode ser o primeiro exemplo documentado de um meteorito ‘extinto’, isto é, um tipo de meteorito que não cai mais na Terra porque seu corpo de origem foi consumido em colisões”, escrevem os pesquisadores. Esta e outras notas da ciência internacional você encontra no Telescópio do Jornal da Unicamp.