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Evolução a jato em lago de hidrelétrica

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Desde que Charles Darwin retornou à Inglaterra, depois da viagem do Beagle, e se pôs a matutar sobre as 13 diferentes espécies de tentilhão encontradas nas  Ilhas Galápagos, que o isolamento de diferentes populações de uma mesma espécie animal em ilhas, ou em ilhas e no continente, é apontado como um fator que impulsiona a evolução. Não haveria por que imaginar que em ilhas formadas pela ação humana a coisa fosse ser diferente. Trabalho publicado nesta semana no periódico PNASaponta que, em menos de 20 anos desde a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, em Goiás, os lagartos da espécie Gymnodactylus amarali que ficaram "naufragados" em ilhas já divergem consideravelmente dos colegas deixados nas margens.

De autoria de pesquisadores brasileiros e americanos -- e liderado por Mariana Eloy de Amorim, da UnB e da Universidade da Califórnia -- o estudo constatou que as populações que ficaram isoladas nas ilhas agora têm cabeças maiores que os primos que permane…

Cidades perdidas, alfabetos estranhos

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Geralmente, quando se fala em pseudoarqueologia, as pessoas pensam em deuses astronautas pairando sobre as pirâmides, egípcios ruivos emigrando para o México (ou o Peru), Atlântida, templários ou tribos perdidas de Israel na América do Norte ou, um clássico moderno, pirâmides na Bósnia. O brasileiro pode se sentir meio desvalorizado diante de tanta exuberância lá fora. Mas não há razão: existe, sim, uma pequena, porém operosa, indústria de "mistérios do passado" baseada em artefatos nacionais. Ela só é pouco conhecida.

O primeiro desses artefatos é o chamado Documento 512 da Biblioteca Nacional (de onde vem a imagem que abre esta publicação, aliás). Supostamente escrito na década de 1750, mas só vindo a público em 1839, ele narra a descoberta, por um grupo de bandeirantes, dos vestígios de uma civilização perdida no interior da Bahia.

Como relata o historiador Johnni Langer em artigo publicado na Revista Brasileira de História, a mera possibilidade de o Brasil ter abrigado …

Falácias favoritas

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Enquanto me preparava, na última semana, para a mesa sobre divulgação científica da qual participei, na USP de Ribeirão Preto (com Pirula e Reinaldo José Lopes), reli Como Mentir com Estatística, de Darrell Heff, um clássico da alfabetização estatística publicado originalmente em 1954. O livro de Heff é curto, ilustrado com divertidos cartuns assinados por Irving Geis, e evita entrar em detalhes técnicos abordados por diversas obras posteriores, como O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, ou mesmo o Cartoon Guide to Statistics, de Larry Gonick (de onde saiu a ilustração abaixo).




O objetivo de Heff não é ensinar a fazer estatística, ou apresentar as bases filosóficas do pensamento estatístico/probabilístico, mas educar o leitor leigo para que seu simples bom-senso não seja eclipsado por gráficos, porcentagens e alegações supostamente "apoiadas em dados estatísticos".

Nesse trabalho, o autor chama atenção para duas falácias que eram de uso comum no discurso político e publi…

Aquecimento global: notícias do "front"

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Algo que notei em tempos recentes é que, enquanto o combate ao negacionismo climático consome tempo e paciência da pequena comunidade brasileira de divulgação científica (o caso do Pirula, com quem conversei no início da semana, é apenas o mais recente e emblemático), um monte de ciência séria continua a ser feita a respeito da mudança climática e de seus impactos, e nós divulgadores acabamos não dando tanta atenção para ela; ficamos meio obcecados com o ladrar dos cães, e não vemos a caravana passar.

Por conta disso, resolvi fazer aqui um apanhado do que de mais importante publicações científicas sérias, revisadas por pares, andaram dando sobre o assunto -- só na última semana. Vamos nessa?

Começando pelo mais recente: Estados Unidos, China, Índia, Vietnã, Tailândia, Laos, Bangladesh, Mianmar e as duas Coreias correm grave risco de ver seus rios poluídos com excesso de fertilizantes -- causando o efeito conhecido como eutrofização, que provoca grande mortalidade de animais e plantas…

O preço da alternativa

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Um mito comum sobre terapias alternativas é que elas, de alguma maneira, representam  economia para o paciente ou o erário. Esse foi o raciocínio por trás da máquina de propaganda mobilizada por Mao Zedong para inventar a "medicina tradicional chinesa", criando uma ilusão de coerência filosófica que amarrasse a miríade de superstições, invencionices, bruxarias (e algumas observações astutas sobre saúde humana) que curandeiros diversos praticavam, no interior da China, num pacote único que tivesse algum verniz de respeitabilidade. A preocupação de Mao era com o custo de levar médicos adequadamente treinados a todos os cantos da nação continental e, também, criar um produto de exportação atraente, que apelasse à quase automática reverência ocidental diante dos "mistérios do Oriente".

A mesma questão de custos aparece na recente decisão do governo brasileiro de ampliar o cardápio de "terapias alternativas" disponível no SUS. Embora o discurso oficial tenda …

Partido da ciência?

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Pesquisadores brasileiros, assustados com os cortes suicidas no financiamento público para a ciência, analisam a possibilidade de criar um partido político para fazer a representação e a defesa dos cientistas nas instâncias em que se decide a divisão do butim -- desculpe -- da verba pública. Em princípio, não há nada de essencialmente ruim com a ideia. Se pastores evangélicos têm seus próprios partidos, por que não cientistas? Há até alguma base -- científica -- para a ideia.

Lá nos idos de 2010, fiz uma entrevista com o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2007, Roger Myerson, que na época fazia um estudo sobre, exatamente, o sistema eleitoral brasileiro (a área de especialização de Myerson é teoria dos jogos).

De acordo com ele, o sistema brasileiro de voto proporcional com lista aberta -- onde os votos são, primeiro, do partido e, só depois, dos candidatos, seguindo a ordem de escolha popular -- é o "segundo pior possível", porque, primeiro, divorcia o eleitor do elei…

Ficção científica e eu

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Eu às vezes escrevo ficção científica. Já escrevi mais, é verdade, mas já faz um tempo que ando espaçando (sem trocadilho) minha produção no gênero. Já falei sobre essa pausa em postagens anteriores, mas, resumindo: a ficção científica, para mim, entrou na fase de retornos reduzidos, em que a energia gasta na produção da história acaba superando as recompensas (materiais e outras) da publicação. De qualquer maneira, ainda tem muita gente que me identifica com o gênero, o que é perfeitamente compreensível: não dá pra passar mais de 20 anos fazendo uma coisa sem que a "coisa" acabe grudando na sua pele, por assim dizer.

Por conta disso, às vezes me convidam para palpitar a respeito. A oportunidade mais recente veio da Revista ComCiência da Unicamp, para a qual produzi o artigo A Veia Obscurantista da Ficção Científica, uma chance fantástica de refletir sobre algo que me incomoda há tempos: por que um gênero -- literário, cinematográfico, quadrinístico, radiofônico, etc. -- qu…