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O memorando do cara do Google: ofuscados pela ciência

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Quem viu a postagem anterior do blog sabe que andei meio fora de contato com os dramas da civilização nesta semana. Ao que parece, enquanto eu me envolvia com questões menores como a devastação da Mata Atlântica, a poluição das águas, a sustentabilidade das comunidades indígenas e a pesquisa sobre o paleoclima do Hemisfério Sul, algo realmente importante estava acontecendo --  a saber, a demissão de um engenheiro do Google, por ter divulgado um memorando que argumenta que a política da empresa de buscar paridade de gênero em todas as áreas, incluindo liderança e programação, é injusta, incorreta e viola as conclusões da melhor ciência disponível, ciência essa que apontaria uma inadequação inata do sexo feminino para essas posições.

Mas, enfim. Como tenho um histórico de discutir questões envolvendo o choque entre ciência e preconcepções políticas (como em minhas várias postagens sobre aquecimento global e transgênicos), e o assunto envolve o princípio da liberdade de expressão, algo …

Cratera, represa, pobreza e meio ambiente

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A região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, abriga as represas Billings e Guarapiranga, cinco aldeias guarani (sete, se contadas as duas que ficam na mesma área geral, mas já no município de São Bernardo do Campo) e uma cratera de 3,6 quilômetros de diâmetro cuja origem á provavelmente meteorítica -- mas disso ninguém tem certeza. Foi percorrendo esse meio que passei os últimos dias, desde o fim de semana passado (notaram que dei uma sumida da internet?), acompanhado pelo guia Fernando Bike -- morador da comunidade de Vargem Grande, que ocupa parte da chamada Cratera de Colônia -- e acompanhando o fotógrafo Moises Saman, da Agência Magnum.

Saman veio ao Brasil  como parte do investimento do banco francês BNP Paribas no estudo da cratera: uma missão franco-brasileira cientistas está, nesta semana, realizando uma perfuração ali para retirar sedimentos de uma coluna que, esperam os pesquisadores, cobrirá um período passado de 800 mil a 1 milhão de anos.

A operação, delicada, envo…

Evolução a jato em lago de hidrelétrica

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Desde que Charles Darwin retornou à Inglaterra, depois da viagem do Beagle, e se pôs a matutar sobre as 13 diferentes espécies de tentilhão encontradas nas  Ilhas Galápagos, que o isolamento de diferentes populações de uma mesma espécie animal em ilhas, ou em ilhas e no continente, é apontado como um fator que impulsiona a evolução. Não haveria por que imaginar que em ilhas formadas pela ação humana a coisa fosse ser diferente. Trabalho publicado nesta semana no periódico PNASaponta que, em menos de 20 anos desde a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, em Goiás, os lagartos da espécie Gymnodactylus amarali que ficaram "naufragados" em ilhas já divergem consideravelmente dos colegas deixados nas margens.

De autoria de pesquisadores brasileiros e americanos -- e liderado por Mariana Eloy de Amorim, da UnB e da Universidade da Califórnia -- o estudo constatou que as populações que ficaram isoladas nas ilhas agora têm cabeças maiores que os primos que permane…

Cidades perdidas, alfabetos estranhos

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Geralmente, quando se fala em pseudoarqueologia, as pessoas pensam em deuses astronautas pairando sobre as pirâmides, egípcios ruivos emigrando para o México (ou o Peru), Atlântida, templários ou tribos perdidas de Israel na América do Norte ou, um clássico moderno, pirâmides na Bósnia. O brasileiro pode se sentir meio desvalorizado diante de tanta exuberância lá fora. Mas não há razão: existe, sim, uma pequena, porém operosa, indústria de "mistérios do passado" baseada em artefatos nacionais. Ela só é pouco conhecida.

O primeiro desses artefatos é o chamado Documento 512 da Biblioteca Nacional (de onde vem a imagem que abre esta publicação, aliás). Supostamente escrito na década de 1750, mas só vindo a público em 1839, ele narra a descoberta, por um grupo de bandeirantes, dos vestígios de uma civilização perdida no interior da Bahia.

Como relata o historiador Johnni Langer em artigo publicado na Revista Brasileira de História, a mera possibilidade de o Brasil ter abrigado …

Falácias favoritas

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Enquanto me preparava, na última semana, para a mesa sobre divulgação científica da qual participei, na USP de Ribeirão Preto (com Pirula e Reinaldo José Lopes), reli Como Mentir com Estatística, de Darrell Heff, um clássico da alfabetização estatística publicado originalmente em 1954. O livro de Heff é curto, ilustrado com divertidos cartuns assinados por Irving Geis, e evita entrar em detalhes técnicos abordados por diversas obras posteriores, como O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, ou mesmo o Cartoon Guide to Statistics, de Larry Gonick (de onde saiu a ilustração abaixo).




O objetivo de Heff não é ensinar a fazer estatística, ou apresentar as bases filosóficas do pensamento estatístico/probabilístico, mas educar o leitor leigo para que seu simples bom-senso não seja eclipsado por gráficos, porcentagens e alegações supostamente "apoiadas em dados estatísticos".

Nesse trabalho, o autor chama atenção para duas falácias que eram de uso comum no discurso político e publi…

Aquecimento global: notícias do "front"

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Algo que notei em tempos recentes é que, enquanto o combate ao negacionismo climático consome tempo e paciência da pequena comunidade brasileira de divulgação científica (o caso do Pirula, com quem conversei no início da semana, é apenas o mais recente e emblemático), um monte de ciência séria continua a ser feita a respeito da mudança climática e de seus impactos, e nós divulgadores acabamos não dando tanta atenção para ela; ficamos meio obcecados com o ladrar dos cães, e não vemos a caravana passar.

Por conta disso, resolvi fazer aqui um apanhado do que de mais importante publicações científicas sérias, revisadas por pares, andaram dando sobre o assunto -- só na última semana. Vamos nessa?

Começando pelo mais recente: Estados Unidos, China, Índia, Vietnã, Tailândia, Laos, Bangladesh, Mianmar e as duas Coreias correm grave risco de ver seus rios poluídos com excesso de fertilizantes -- causando o efeito conhecido como eutrofização, que provoca grande mortalidade de animais e plantas…

O preço da alternativa

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Um mito comum sobre terapias alternativas é que elas, de alguma maneira, representam  economia para o paciente ou o erário. Esse foi o raciocínio por trás da máquina de propaganda mobilizada por Mao Zedong para inventar a "medicina tradicional chinesa", criando uma ilusão de coerência filosófica que amarrasse a miríade de superstições, invencionices, bruxarias (e algumas observações astutas sobre saúde humana) que curandeiros diversos praticavam, no interior da China, num pacote único que tivesse algum verniz de respeitabilidade. A preocupação de Mao era com o custo de levar médicos adequadamente treinados a todos os cantos da nação continental e, também, criar um produto de exportação atraente, que apelasse à quase automática reverência ocidental diante dos "mistérios do Oriente".

A mesma questão de custos aparece na recente decisão do governo brasileiro de ampliar o cardápio de "terapias alternativas" disponível no SUS. Embora o discurso oficial tenda …