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Vício primário

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Uma coisa que sempre me espanta no Brasil é a incapacidade dos agentes públicos -- e, suponho, da população que os elege -- de levar a sério qualquer possibilidade de desenvolvimento econômico que não seja baseada em algum tipo de (neo)extrativismo. É o pré-sal da esquerda, são o nióbio e o grafite da direita estulta, são a soja e o boi da direita "esperta", é, agora, o cobre da Amazônia.

Num cenário em que a produção mundial de bens e serviços cada vez mais se estrutura em redes, com centros dispersos de design, montagem, produção de peças e produção de matéria-prima, só o que parece fazer brilhar os olhos dos brasileiros e entrar na visão estratégica dos governantes são exatamente as etapas de menor valor agregado, que mais agridem o meio ambiente e que mais exploram e maltratam a mão-de-obra. Será outro aspecto do tal "complexo de vira-lata"?

Certa vez conversei com um economista que era fã incondicional da política de "Campeãs Nacionais" do ciclo pet…

Raízes do fascismo

Na fogueira retórica em que o debate público brasileiro se transformou nos últimos anos, a palavra "fascista" acabou sendo reduzida a um xingamento genérico, uma espécie de equivalente de "canalha", cuja única especificidade é a de sinalizar em que lado do espectro político o falante se vê. Historicamente, no entanto, "fascista" significa alguém que adere ao "fascismo" -- a doutrina de que os direitos individuais, e os das minorias, são irrelevantes diante da vontade da maioria, do grupo maior, do Todo, vontade essa que é tida como equivalente à do Líder que comanda o Todo. Após o fim da 2ª Guerra Mundial, vários estudos psicológicos foram realizados para buscar as raízes do fascismo na psiquê humana. Semana passada, escrevi uma matéria a respeito. Ela começa assim:

O que leva uma pessoa a pôr uma bandeira nazista nos ombros e sair por aí gritando “sangue e solo” e “judeus não nos substituirão”? Se você se sentiu tentado a responder “burrice”, s…

Um conto de dois Brunos

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Enquanto pesquisava meu Livro da Astrologia, tive algum contato com o trabalho de Giordano Bruno -- ele foi mais um dos filósofos renascentistas que viam na simbologia astrológica uma espécie de tecnologia mágica para manipular a realidade -- e descobri que, para além de suas especulações sobre a infinitude do cosmo ("apresento-vos minha contemplação sobre o infinito universo e seus mundos inumeráveis", como escreveu certa vez) e dos pronunciamentos heréticos que acabaram por condená-lo à fogueira, o sábio também havia composto uma obra sobre a mnemônica, a arte de fixação e preservação da memória.

No meu tempo, quem estudava para o vestibular acabava bem familiarizado com truques mnemônicos, do tipo "Bela Magrela Casou com Senhor BaRão", que dá os elementos da família 2A da Tabela Periódica. No mundo intelectual da Idade Média e do Renascimento, onde eram comuns disputas retóricas acaloradas e debates ao vivo -- que, eventualmente, poderiam acabar custando a vida…

Os segredos da cratera, e arredores

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Semana passada, passei cinco dias percorrendo a região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, em companhia de um guia local e de um fotógrafo espanhol, contratado para documentar o trabalho de um grupo de cientistas franco-brasileiros na Cratera de Colônia, uma depressão (provavelmente) provocada por um asteroide, milhões de anos atrás. Como a pauta do fotógrafo envolvia a questão ambiental no entorno da cratera, visitamos muita coisa -- favelas, aldeias indígenas -- além do próprio local do trabalho dos cientistas. O resultado da experiência eu destilei nesta reportagem, publicada pelo Jornal da Unicamp.

Educação e catástrofe, novo round

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Em seu livro-reportagem-depoimento The Unpersuadables, o jornalista britânico William Storr narra diversos períodos de sua vida em que conviveu com figuras "impersuadíveis" -- pessoas cujas convicções pareciam inabaláveis mesmo diante da mais sólida evidência. Um dos trechos mais tensos do livro relata a viagem que Storr fez a um campo de extermínio nazista, num tour guiado por David Irving, o notório negador do Holocausto. Sem se revelar como jornalista, o autor passa dias, efetivamente, infiltrado num grupo internacional de neonazistas e simpatizantes.

O Irving delineado no perfil de Storr é um sujeito às vezes arrogante, às vezes simpático, cuja principal força motriz é uma necessidade profunda de desafiar o mainstream -- e, o jornalista especula, de provar que a entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foi um erro. Storr propõe a hipótese de que Irving, que era criança durante a "blitz", teve sua infância arruinada pela guerra, e ressente-se disso: sua …

O memorando do cara do Google: ofuscados pela ciência

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Quem viu a postagem anterior do blog sabe que andei meio fora de contato com os dramas da civilização nesta semana. Ao que parece, enquanto eu me envolvia com questões menores como a devastação da Mata Atlântica, a poluição das águas, a sustentabilidade das comunidades indígenas e a pesquisa sobre o paleoclima do Hemisfério Sul, algo realmente importante estava acontecendo --  a saber, a demissão de um engenheiro do Google, por ter divulgado um memorando que argumenta que a política da empresa de buscar paridade de gênero em todas as áreas, incluindo liderança e programação, é injusta, incorreta e viola as conclusões da melhor ciência disponível, ciência essa que apontaria uma inadequação inata do sexo feminino para essas posições.

Mas, enfim. Como tenho um histórico de discutir questões envolvendo o choque entre ciência e preconcepções políticas (como em minhas várias postagens sobre aquecimento global e transgênicos), e o assunto envolve o princípio da liberdade de expressão, algo …

Cratera, represa, pobreza e meio ambiente

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A região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, abriga as represas Billings e Guarapiranga, cinco aldeias guarani (sete, se contadas as duas que ficam na mesma área geral, mas já no município de São Bernardo do Campo) e uma cratera de 3,6 quilômetros de diâmetro cuja origem á provavelmente meteorítica -- mas disso ninguém tem certeza. Foi percorrendo esse meio que passei os últimos dias, desde o fim de semana passado (notaram que dei uma sumida da internet?), acompanhado pelo guia Fernando Bike -- morador da comunidade de Vargem Grande, que ocupa parte da chamada Cratera de Colônia -- e acompanhando o fotógrafo Moises Saman, da Agência Magnum.

Saman veio ao Brasil  como parte do investimento do banco francês BNP Paribas no estudo da cratera: uma missão franco-brasileira cientistas está, nesta semana, realizando uma perfuração ali para retirar sedimentos de uma coluna que, esperam os pesquisadores, cobrirá um período passado de 800 mil a 1 milhão de anos.

A operação, delicada, envo…