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Raios cósmicos e a Grande Pirâmide

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"Os egípcios não eram um povo de mentalidade esotérica", escreve o antropólogo e arqueólogo Paul Jordan em sua contribuição para o livro Archaeological Fantasies. "Mesmo os rituais de Osíris eram bem menos esotéricos que os mistérios de Elêusis dos gregos (...) O Livro dos Mortos pode ser obscuro e fantástico, mas não é uma composição esotérica". A ideia do Egito Antigo como uma terra de mistérios e segredos esotéricos escondidos por trás de uma mitologia alegórica, a ser interpretada por iniciados, é uma invenção tardia, surgida no período posterior à conquista do país por Alexandre Magno e amplificada na Europa da Renascença e, depois, na Era Vitoriana.

Por conta disso, é uma grata surpresa encontrar, na literatura científica, um verdadeiro mistério egípcio -- e envolvendo não só uma das pirâmides como, também, raios cósmicos!

Vamos lá: três experimentos envolvendo detectores de múons -- partículas criadas pela colisão de raios cósmicos com a atmosfera, e que vi…

Cidadãos-cientistas vs. mosquitos

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Um aplicativo de celular, Mosquito Alert, pelo qual cidadãos comuns podiam reportar avistamentos do mosquito-tigre (Aedes albopictus), um vetor de doenças como dengue e zika, mostrou-se mais eficiente para monitorar a invasão da espécie na Espanha do que os métodos tradicionais de vigilância, que dependem da colocação de armadilhas para capturar ovos dos insetos, diz artigo publicado em Nature Communications.

"Nosso sistema fornece informações acuradas de aviso prévio sobre o mosquito na Espanha, muito além do disponível via métodos tradicionais, e vitais para os serviços de saúde pública", escrevem os autores. "Estes resultados ilustram o quanto a participação pública na ciência pode ser poderosa, e indica que a ciência cidadã está em posição de revolucionar a vigilância das doenças transmitidas por mosquitos em todo o mundo".

Esta nota fez parte da newsletter enviada a assinantes na semana passada.


Leituras para Halloween e adjacências

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Muito tempo atrás, numa galáxia muito distante (na verdade, há uns 20 anos, e por aqui mesmo) eu escrevia histórias de terror. Muitas. Algumas até ganharam uns prêmios por aí. Saíram em fanzines xerocados de papel, em livros de editoras obscuras (e que fecharam, ou mudaram de linha editorial, há tempos). Ano passado, no entanto, boa parte dessa produção acabou reunida num livro só, de uma editora muito viva, a Draco. É este aqui:


Também tenho uns contos avulsos publicados em e-book, como este aqui, sobre vampiros e este outro, com lobisomem. Há quem diga que a coisa mais assustadora que já escrevi foi este conto de ficção (pseudo)científica, mas não vou dar palpite a respeito. Claro, se alguém quiser aproveitar o período para refletir sobre a trêmula e periclitante base factual por trás de coisas como possessões e exorcismo, tenho O Livro dos Milagres. E para quem estiver a fim de se livrar de uma superstição antiga, há O Livro da Astrologia.

A venda dessas obras ajuda a manter este b…

Monstro de Loch Ness como "fake news"

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Em 1983, o livro The Loch Ness Mystery Solved, de Ronald Binns, obteve aquele feito raro no mundo da literatura sobre mistérios do mundo real: apresentou, de fato, a solução do problema. Em pouco mais de 200 páginas, Binns destrincha cuidadosamente o caso do lago escocês, mostrando como uma série de testemunhos vagos, notícias sensacionalistas, fraudes e brincadeiras (porque, claro, o ser humano é um animal intratável) acabou moldando a narrativa de uma criatura pré-histórica vivendo em Loch Ness.

Agora em 2017, mais de 30 anos depois de seu triunfo, Binns publica um novo volume, The Loch Ness Mystery Reloaded, em que revisita a evidência coligida para o livro de 1983, atualiza alguns pontos -- por exemplo, incluindo a confissão do criador do dinossauro de brinquedo que gerou a famosa foto do monstro de 1934 (a "Fotografia do Cirurgião", abaixo) e reinterpreta a gênese do mito sob o enfoque atual das "fake news".



O momento zero da lenda do Monstro de Loch Ness pod…

O poder do preço no efeito nocebo

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Pacientes tendem a reportar efeitos colaterais mais intensos quando informados de que a droga que estão recebendo é muito cara -- mesmo quando a droga é, na verdade, uma substância inerte. O chamado efeito nocebo, quando a mera crença de que se está consumindo uma substância ativa leva o paciente a sentir dor ou outros malefícios, foi tema de artigo publicado na revista Scienceno início do mês (e quem assina a minha newsletter ficou sabendo disso antes!).

O nocebo é o oposto do efeito placebo, em que pacientes que recebem "medicamentos" inertes acabam reportando melhoras. Os autores do artigo na Science, vinculados a instituições europeias, lembram que, quando o placebo atua contra a dor, o mecanismo de ação está ligado à produção de opioides no cérebro e ao recrutamento de um sistema de modulação da dor que afeta a medula espinhal.

Informação sobre o preço do falso medicamento pode ampliar o efeito placebo ("remédios" mais caros parecem funcionar melhor), e o nov…

TEDx, Unicamp, Unesp: agenda cheia!

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A vida anda acelerando neste fim de ano, e ao que tudo indica a angústia atual com a proliferação de "fake news" e "pós-verdade" está fazendo com que as pessoas prestem um pouco mais de atenção em trabalhos como o meu, na fronteira entre o ceticismo e a divulgação científica. As próximas semanas serão agitadas por aqui. Segue a agenda:

Nesta sexta-feira, dia 27, falarei no TEDx USP sobre minha experiência de 20 anos tentando escrever racionalmente sobre coisas como deuses astronautas, o Sudário de Turim, curas quânticas, teorias da conspiração e horóscopos, e como as lições que aprendi, ao longo de minha carreira bizarra no jornalismo, podem se transferir para a população em geral, nesta época em que as notícias falsas e os exageros absurdos saíram das páginas de curiosidade e entretenimento e caíram no mainstream. O TEDx terá, além do espaço no auditório, transmissão online, neste link.

No próximo dia 14 de novembro estarei no Simpósio Mídia e Pesquisa da Embrapa, …

Arte vulcânica marciana

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Esta foto aí é a ampliação de uma seção de um milímetro de largura de um meteorito marciano, vista por um microscópio de luz polarizada. As diferentes cores representam diferentes minerais. Ela faz parte de um estudo publicado emNature Communications sobre a taxa de crescimento dos vulcões marcianos, que pelo que estimam os autores é muito mais lenta que a verificada na Terra.

O estudo foi feito com base numa família de meteoritos que se originou, toda ela, de um único evento -- a colisão de um asteroide com a encosta de um vulcão marciano há 10 milhões de anos (mais ou menos), lançando lascas ao espaço. Algumas delas caíram na Terra, em lugares tão diversos quanto Egito, Antártida e Brasil (o Meteorito Governador Valadares).

Mas essa conversa de meteorito e vulcões marcianos é só desculpa minha para publicar a foto, mesmo. Eu podia tentar sacar da algibeira algumas platitudes (como "sacar da algibeira") sobre a interação entre acaso, catástrofe, natureza, ciência e arte --…