Postagens

Medindo o poder da mídia com ciência

Imagem
A exposição de um assunto na mídia, mesmo que apenas através de veículos de pequeno ou médio porte, é capaz de modificar a opinião pública -- e se não chega a mudar as opiniões individuais dos membros do público, ao menos afeta o tom e o conteúdo da " grande conversação" da sociedade. Esse fenômeno, que até agora só havia sido captado indiretamente, foi quantificado num estudo ambicioso publicado na revista Science desta semana.

Os autores, da Universidade Harvard e do MIT, inspirados nos protocolos usados para testar tratamentos médicos, desenvolveram um método para aplicar a "droga" de sua escolha (no caso, conteúdos jornalísticos específicos), de forma controlada e randomizada, à "população de tratamento" -- no caso, o público dos Estados Unidos.

Os autores firmaram parceria com mais de 40 veículos de pequeno ou médio porte, que concordaram em produzir conteúdo a partir de um cardápio de 11 questões de política pública -- raça, imigração, emprego, abo…

Lições de um fosfofracasso

Imagem
As autoridades sanitárias do Estado de São Paulo finalmente apresentaram ao público -- ainda que de forma limitada -- os resultados do teste, patrocinado por essa unidade da Federação, da chamada "fosfoetanolamina sintética" em pacientes de câncer. O desfecho foi considerado "desanimador", e com razão: de mais de 70 pacientes envolvidos, apenas um mostrou sinais de progresso.

Aqui, é importante notar que o estudo paulista foi feito sem grupo de controle, o que significa, em termos práticos, que qualquer sensação de melhora produzida -- por pura sorte, por uma mudança no ajuste do ar condicionado, por efeito placebo -- poderia acabar sendo atribuída, pelos groupies do criador da "fosfo", à substância. E nem com essa ajuda o produto conseguiu algo de chamativo para mostrar.

Muita gente se aferra à crença na "fosfo" por conta dos depoimentos das pessoas que acreditam ter sido beneficiadas pela cápsula. Uma das lições mais duras da história da Medic…

Diversidade na pesquisa médica

Imagem
Estudo divulgado nesta segunda-feira, 6, pelo periódico Nature Human Behaviour aponta que a presença de mulheres num grupo de pesquisa médica aumenta a probabilidade de o estudo conduzido incluir análises específicas sobre sexo e/ou gênero.

"Estudos médicos que incluem mulheres, especialmente em posições de liderança, têm muito maior chance de discutir possíveis diferenças sexuais e de gênero no risco de doenças, prevenção e tratamento", diz a nota à imprensa divulgada pelo Grupo Nature sobre o trabalho, conduzido por pesquisadores de Stanford, nos Estados Unidos, e da Dinamarca.

"Usando uma amostra de mais de 1,5 milhão de artigos de pesquisa médica, nosso estudo examinou a ligação potencial entre a participação de mulheres na ciência médica e a atenção a fatores relacionados a sexo e gênero em pesquisas específicas sobre doenças", escrevem os autores.

"Mulheres são 40% dos primeiros autores em estudos que não incluem análise de sexo e gênero (ASG), e 49% no…

Raios cósmicos e a Grande Pirâmide

Imagem
"Os egípcios não eram um povo de mentalidade esotérica", escreve o antropólogo e arqueólogo Paul Jordan em sua contribuição para o livro Archaeological Fantasies. "Mesmo os rituais de Osíris eram bem menos esotéricos que os mistérios de Elêusis dos gregos (...) O Livro dos Mortos pode ser obscuro e fantástico, mas não é uma composição esotérica". A ideia do Egito Antigo como uma terra de mistérios e segredos esotéricos escondidos por trás de uma mitologia alegórica, a ser interpretada por iniciados, é uma invenção tardia, surgida no período posterior à conquista do país por Alexandre Magno e amplificada na Europa da Renascença e, depois, na Era Vitoriana.

Por conta disso, é uma grata surpresa encontrar, na literatura científica, um verdadeiro mistério egípcio -- e envolvendo não só uma das pirâmides como, também, raios cósmicos!

Vamos lá: três experimentos envolvendo detectores de múons -- partículas criadas pela colisão de raios cósmicos com a atmosfera, e que vi…

Cidadãos-cientistas vs. mosquitos

Imagem
Um aplicativo de celular, Mosquito Alert, pelo qual cidadãos comuns podiam reportar avistamentos do mosquito-tigre (Aedes albopictus), um vetor de doenças como dengue e zika, mostrou-se mais eficiente para monitorar a invasão da espécie na Espanha do que os métodos tradicionais de vigilância, que dependem da colocação de armadilhas para capturar ovos dos insetos, diz artigo publicado em Nature Communications.

"Nosso sistema fornece informações acuradas de aviso prévio sobre o mosquito na Espanha, muito além do disponível via métodos tradicionais, e vitais para os serviços de saúde pública", escrevem os autores. "Estes resultados ilustram o quanto a participação pública na ciência pode ser poderosa, e indica que a ciência cidadã está em posição de revolucionar a vigilância das doenças transmitidas por mosquitos em todo o mundo".

Esta nota fez parte da newsletter enviada a assinantes na semana passada.


Leituras para Halloween e adjacências

Imagem
Muito tempo atrás, numa galáxia muito distante (na verdade, há uns 20 anos, e por aqui mesmo) eu escrevia histórias de terror. Muitas. Algumas até ganharam uns prêmios por aí. Saíram em fanzines xerocados de papel, em livros de editoras obscuras (e que fecharam, ou mudaram de linha editorial, há tempos). Ano passado, no entanto, boa parte dessa produção acabou reunida num livro só, de uma editora muito viva, a Draco. É este aqui:


Também tenho uns contos avulsos publicados em e-book, como este aqui, sobre vampiros e este outro, com lobisomem. Há quem diga que a coisa mais assustadora que já escrevi foi este conto de ficção (pseudo)científica, mas não vou dar palpite a respeito. Claro, se alguém quiser aproveitar o período para refletir sobre a trêmula e periclitante base factual por trás de coisas como possessões e exorcismo, tenho O Livro dos Milagres. E para quem estiver a fim de se livrar de uma superstição antiga, há O Livro da Astrologia.

A venda dessas obras ajuda a manter este b…

Monstro de Loch Ness como "fake news"

Imagem
Em 1983, o livro The Loch Ness Mystery Solved, de Ronald Binns, obteve aquele feito raro no mundo da literatura sobre mistérios do mundo real: apresentou, de fato, a solução do problema. Em pouco mais de 200 páginas, Binns destrincha cuidadosamente o caso do lago escocês, mostrando como uma série de testemunhos vagos, notícias sensacionalistas, fraudes e brincadeiras (porque, claro, o ser humano é um animal intratável) acabou moldando a narrativa de uma criatura pré-histórica vivendo em Loch Ness.

Agora em 2017, mais de 30 anos depois de seu triunfo, Binns publica um novo volume, The Loch Ness Mystery Reloaded, em que revisita a evidência coligida para o livro de 1983, atualiza alguns pontos -- por exemplo, incluindo a confissão do criador do dinossauro de brinquedo que gerou a famosa foto do monstro de 1934 (a "Fotografia do Cirurgião", abaixo) e reinterpreta a gênese do mito sob o enfoque atual das "fake news".



O momento zero da lenda do Monstro de Loch Ness pod…