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Divulgação científica: agenda cheia em maio

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"Divulgação científica" é uma daquelas expressões -- como "democracia" ou "justiça" -- que todo mundo concorda que se refere a algo essencial, mas cuja natureza exata tende a ser alvo de intensa disputa.

Há que se distinguir divulgação de educação, há que se decidir se a prioridade é divulgar conteúdos ou modos de pensar, há que se tomar cuidado para que a divulgação "WOW!" (pássaros lindos, estrelas fantásticas, gênios excêntricos) não sufoque a divulgação "de combate" (crítica a charlatanismos e raciocínios tortos, denúncia de fraudes, esclarecimentos sobre saúde ou meio ambiente).

Há que se pensar no público: na academia e no microcosmo das bolhas online, principalmente, é muito fácil cair na ilusão de que se está fazendo divulgação científica quando, na verdade, seu público é sempre aquela meia dúzia de fãs de Carl Sagan que são as pessoas que menos precisam ouvir o que você está dizendo (não é improvável que a carapuça sirva para…

Demônios e ETs em Fátima: erros instrutivos

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Se você, como eu, sofre de uma curiosidade patológica a respeito do que borbulha e fermenta na franja lunática da pseudociência -- clones ciborgues templários de Jesus e conspirações urdidas por demônios lovecraftianos do espaço, coisas perto das quais até homeopatia parece razoável -- uma boa ideia é assinar a newsletter de Jason Colativo, um antropólogo americano  que construiu uma carreira correndo atrás das besteiras que o History Channel empurra para seus telespectadores.

Nesta semana, Colavito chama atenção para  uma pequena indústria que vem sendo criada, tendo como alvo o público evangélico de língua inglesa, para vincular as aparições de Fátima a demônios e extraterrestres. A escolha de  nicho tem lá sua lógica: dizer que os milagres da religião dos outros é, na verdade, ilusão demoníaca representa uma estratégia antiga, mas bem-sucedida.

Para os leitores que não tiveram o duvidoso benefício de uma educação católica (e nem leram meu Livro dos Milagres): entre maio e outubro d…

"Fosfo", terapias alternativas e a maldição do falso positivo

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A fosfoetanolamina sintética volta ao noticiário (aqui e aqui), poucas semanas depois de o Ministério da Saúde produzir manchetes com sua decisão descerebrada de ampliar a oferta de "práticas alternativas e complementares". Já escrevi mais do que o suficiente (aqui, aqui, aqui), imagino, sobre esses dois casos específicos, e então achei que seria hora de tratar do fenômeno mais geral: o fato de tantas pessoas se encantarem com, converterem-se em verdadeiros paladinos de, supostas terapias que não só não funcionam, como ainda por cima podem ser perigosas ou, até mesmo, letais.

E não se trata apenas do que gosto de chamar de "Efeito Franklin", que acontece quando uma pessoa, tendo sido enganada, passa a defender fervorosamente quem a enganou, só para não ter de dar o braço a torcer (tirei o nome da frase atribuída a Benjamin Franklin, "só quem mente mais do que um charlatão são suas vítimas"). Há algo muito mais profundo aí.

Durante milhares de anos, a med…

Pseudociências, cristais, jornalismo

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Em seu divertidíssimo livro sobre a história da medicina e das terapias "integrativas e complementares", Suckers, a jornalista britânica de saúde Rose Shapiro aponta uma distinção simples -- e categórica -- entre a ciência médica e as diversas tradições culturais em que terapeutas alternativos buscam (ou dizem buscar) inspiração: enquanto a ciência foi descobrindo inúmeras causas para as doenças (vírus, bactérias, genética, contaminantes ambientais, estilos de vida, etc.), os integrativos costumam se agarrar a uma monocausa, uma causa única para todo mal: desequilíbrio. Desarmonia. Desalinhamento.

Seja do chi, do prana, do yin ou do yang, da coluna vertebral, da dieta ou de algo genérico como "as vibrações", sempre há uma coisa fora da ordem que, se recolocada no devido lugar, traz a cura. Mesmo se reconhecem a existência de causas imediatas para a doença -- um parasita, uma infecção, uma mutação -- esses terapeutas tendem a pressupor que o agente só conseguiu ata…

Variedades da experiência placeba

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Muito já se lamentou, de ontem para hoje nas redes sociais, sobre a decisão do Ministério da Saúde de ampliar a oferta das chamadas "terapias complementares e alternativas" no Sistema Único de Saúde (SUS). Chamou-se atenção, por exemplo, para o fato de que países com sistemas de saúde pública funcionais, como o Reino Unido,  vêm excluindo essas terapias de seu rol de procedimentos, com o objetivo de otimizar o gasto público, e o SUS não tem exatamente dinheiro para queimar em bobagem; e de que não há evidência científica de que essas terapias funcionem melhor do que um placebo (isto é, do que mentir para o paciente, dizendo que o copo de água que ele tomou durante a consulta era remédio).

É sobre este segundo ponto que eu gostaria de me debruçar no momento. Há algum tempo (pelo menos desde as "Homeopathy Wars" do Jornal da USP, no ano passado) que os proponentes de terapias alternativas vêm respondendo a essa acusação com um "Mas nós temos evidências!"

E…

Notícias falsas: culpa sua, não do robô

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Pessoas físicas, seres humanos, são mais eficientes para espalhar fake news no Twitter do que robôs. E quem diz não sou eu, é o pessoal que pesquisou o assunto e publicou na Science. Depois de rastrear o percurso de 126 mil histórias, verdadeiras ou falsas, postadas entre 2006 e 2017, compartilhadas mais de 4,5 milhões de vezes, os autores concluíram que "contrariando o senso-comum, robôs aceleraram a disseminação de notícias falsas e verdadeiras na mesma proporção, implicando que as notícias falsas se espalham mais que as verdadeiras porque humanos, não robôs, tendem a espalhá-las mais".

"Falsidades difundem-se chegando significativamente mais longe, mais depressa, vão mais fundo e de modo mais amplo em todas as categorias de informação", diz o resumo do artigo. Política é a categoria em que essas notícias têm mais impacto. Lá pelo miolo do texto, somos informados de que "quando estimamos um modelo de probabilidade de retuitar, determinamos que falsidades tê…

Ciência 1, 2, 3

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Em seu livro de ensaios Pluto's Republic, o ganhador do Nobel de Medicina Peter Medawar impacienta-se, seguidas vezes -- preservando sempre aquela elegância ferina que os melhores ensaístas britânicos são mestres em manter, quando exasperados -- com a facilidade com que o que chamaríamos de "pessoal de Humanas" faz pouco caso do que, para Medawar, é a característica que distingue as ciências de todos os outros esforços humanos para fazer sentido do mundo: a correspondência com a realidade.
Medawar gasta alguns parágrafos, por exemplo, criticando o antropólogo francês Claude Levi-Strauss. Quando Levi-Strauss escreve, em O Pensamento Selvagem, que para os povos siberianos que mantêm o mito de que bico de pica-pau cura dor de dente é, de fato, irrelevante se o bico realiza mesmo a cura -- que o importante é que, por meio do mito, "alguma ordem seja introduzida no mundo" -- Medawar pergunta se esse ponto de vista é tão agradável, para o pobre siberiano com um abce…