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Ceticismo, pensamento crítico e "tone trolls"

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Encontrei a expressão "tone troll" (literalmente, "troll de tom"), pela primeira vez, há quase dez anos, em meio às reações da comunidade cética/racionalista internacional à palestra Don't Be a Dick ("Não Seja Babaca"), do astrônomo e divulgador de ciência americano Phil Plait. Plait, que em seu site Bad Astronomy analisa à exaustão bobagens como as teorias da conspiração em torno do Projeto Apollo, sugeria na palestra que divulgadores de ciência, principalmente nas trincheiras do movimento cético/laicista, evitassem tratar os oponentes como idiotas. As pessoas raramente mudam  de ideia quando são xingadas, ponderava ele.

Plait foi rapidamente acusado de ser um "tone troll". Definição: alguém que, embora concorde com a substância do que você diz, se dá ao trabalho de vir a público criticá-lo pela forma como você diz. "Astrologia não faz sentido, homeopatia é uma bobagem, certo, concordo, mas por que você não respeita os sentimentos das…

Uma modesta proposta: astrologia no SUS

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Passando os olhos pela ampla relação de Práticas Alternativas e Complementares (PICs) abraçadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e incluídas no II Workshop de PICs a ser realizado Centro de Práticas Esportivas da USP, o popular Cepê, deparei-me com uma curiosa omissão: a astrologia. Como um sistema integrativo que contempla ayurveda, homeopatia, medicina tradicional chinesa, antroposofia e acupuntura ignora uma das mais venerandas tradições curativas do Ocidente?

Para quem se escandaliza com a sugestão, afirmo que não existe nada -- absolutamente nada -- que se possa dizer a favor das PICs atualmente em uso que também não se possa afirmar, e com vantagem, sobre a arte da interpretação de cartas astrais e elaboração de horóscopos. Eu sei, até porque escrevi um livro sobre o assunto. Senão, vejamos:

Tradição milenar: praticamente todas as PICs são bebês recém-nascidos se comparadas à astrologia, que remonta à antiga civilização mesopotâmica. Essas foram os caras que inventaram a lingu…

Epistemologias "alternativas" e saúde

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A recente publicação, em O Estado de S. Paulo, de um artigo apontando a incoerência da introdução de práticas ditas "alternativas" -- isto é, carentes de base científica -- no Sistema Único de Saúde (SUS) provocou uma previsível maré de objeções, a maioria das quais, quando analisadas, acaba se enquadrando em um de três campos: "ei, mas nós temos base científica"; "terapias com base científica também não são isso tudo";  "base científica é um critério ruim, porque se fecha a epistemologias alternativas".

Da primeira objeção já tratei algumas vezes (por exemplo, aqui e aqui), então vou deixá-la de lado, desta vez. Da segunda, diga-se que confunde critério necessário com suficiente. Não é porque nem todo mundo que tem duas pernas consegue correr os 100 metros em menos de dez segundos que ter duas pernas deixa de ser uma vantagem considerável para quem se dispõe disputar os 100 metros rasos.

Do mesmo modo, não é porque nem toda terapia que passa p…

O algoritmo na cabeça das pessoas

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O Brasil é um dos cinco países que mais usa WhatsApp, e linchamentos motivados pela internet não são novidade por aqui, mas a imprensa nacional meio que vem ignorando a grande polêmica que cerca o aplicativo no mundo de língua inglesa -- a saber, a onda de linchamentos, na Índia, estimulada por boatos divulgados nessa rede. Jornais britânicos (aqui, aqui e aqui) e americanos (aqui) vêm cobrindo o assunto com atenção. E por um bom motivo: a tragédia indiana abre um novo capítulo no debate sobre "fake news", seus impactos e modos de ação.

Muitas das notícias publicadas falam de apelos das autoridades para que a rede, de alguma forma, coíba a circulação de boatos. Isso me parece fazer tanto sentido quanto pedir para as fábricas de motocicleta que façam algo para coibir o uso desses veículos em assaltos na saída de caixas eletrônicos, ou que as operadoras de telefonia façam algo para combater os trotes.

Afinal, diferente do Facebook, que aplica uma série de filtros e algoritmos

Notícias falsas: mais complicado do que parece

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Uma capacidade fantástica do ser humano é de pegar o que poderia ser um debate rico, complexo e produtivo e imediatamente reduzi-lo a meia-dúzia de clichês rasteiros. A questão das notícias falsas/fake news, por exemplo, que poderia ter dado margem a uma discussão séria sobre meios de comunicação, uso de fontes e credibilidade, virou basicamente uma estratégia de marketing da mídia corporativa -- "confie em nós", dizem os jornalões, as grandes redes de TV e rádio em suas campanhas de conscientização sobre fake news -- "e tudo vai ficar bem".

Mas aí a gente se lembra de que o Estadão engoliu a lorota do Jogo da Baleia Azul com isca, anzol e linha; que a Folha de S. Paulo endossou teorias de conspiração malucas sobre o 11 de setembro; que a CBN fez um programa cantando os loas da "medicina" ayurvédica; que a febre nacional da fosfoetanolamina começou com uma reportagem de afiliada da Globo,  e é compreensível que fiquemos desconfiados e desconsolados.

A qu…

Fé, longevidade, burrificação

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Semana retrasada tive uma pequena maratona de eventos acadêmicos sobre divulgação científica -- aparentemente, hoje em dia não é de bom-tom, no meio universitário, realizar um seminário, sobre o que quer que seja, sem incluir pelo menos uma mesa redonda tratando do tema, o que parece indicar uma certa angústia, que precisa ser melhor explorada (e explicada). Mas, enfim: em quase todos os eventos do tipo, costuma recorrer uma questão que assume diversas formas, mas que pode ser exemplificada pelo trocadilho "como simplificar sem burrificar"?

Claro, muitas vezes a pergunta embute um quê de arrogância -- o subtexto sendo, "esse negócio que eu estudo é complicado demais, a plebe ignara nunca vai entender" -- mas há inúmeras situações em que a preocupação é legítima e real, principalmente quando a informação vai passar por um filtro midiático: isto é, vai ser reinterpretada  e "re-embalada" com base nos critérios usuais de novidade, alcance, capacidade de atr…

As ondas da ficção científica nacional

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Entre 1989 e 2013, mais ou menos, escrevi muita ficção científica: às vezes, chegava a produzir um conto por mês. Como, de acordo com as leis da probabilidade, quem  atira muito na direção do alvo tende a acabar acertando de vez em quando, parte desse material prestou um pouco -- o suficiente para que eu ganhasse dois Prêmios Argos e, agora, tivesse um conto incluído no livro Fractais Tropicais -- Os Melhor da Ficção Científica Brasileira, organizado por Nelson de Oliveira, e que deve ser lançado no próximo semestre pela SESI Editora (estudei da 1ª à 8ª série num SESI, a propósito; fico imaginando que minhas professoras de então achariam disso).

O escopo de Fractais Tropicais é, para dizer o mínimo, ambicioso: cobre 30 autores e um período de cerca de 70 anos, de Jerônymo Monteiro (o primeiro escritor brasileiro a se dedicar seriamente à produção de ficção científica, ativo a partir do final da década de 30 do século passado) a Cristina Lasaitis, jovem autora que estreou já neste séc…