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Mostrando postagens com o rótulo ceticismo

Homeopatia, espiritismo e o poder de uma hipótese

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Não sei como andam as coisas nas editorias de Ciência dos jornais hoje em dia, mas nos anos em que cuidei do assunto, no Estadão.com.br, era com uma certa frequência -- digamos, uma vez a cada trimestre -- que aparecia, na caixa de e-mail ou entre as sugestões trazidas por colegas de outras áreas, a notícia de um estudo "provando" a eficácia da homeopatia em animais (ou no combate de alguma aflição humana específica) ou de uma pesquisa a confirmando a existência de forças espirituais, e/ou a respeito do "poder de cura" de certas práticas mediúnicas. Exatamente uma única vez, chamaram-me a atenção para um trabalho realizado na UnB que teria provado a validade da astrologia. Estudos assim sempre me deixavam estupefato. Se tivessem sido realmente bem executados e suas conclusões fossem válidas, deveriam estar sendo publicados na Science ou na Nature -- sendo esta última, historicamente, uma publicação bastante aberta a conclusões polêmicas, tendo dado guarida, por...

Que tal trocar o véu por um escorredor de macarrão?

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Muita gente torce o nariz, mas eu realmente acho que as religiões de paródia, como a Igreja do Monstro de Espaguete Voador e o Discordianismo dizem algo de muito importante sobre a natureza do conhecimento humano. Digo, qual a diferença epistemológica entre se afirmar que o Universo foi criado por uma voz desencarnada que, 14 bilhões de anos depois, resolveu engravidar uma virgem, ou por uma bola gigante de espaguete à bolonhesa? O fato de que a segunda versão parece intrinsecamente ridícula não conta: o que deveríamos nos perguntar é por que a primeira não parece, também. (Pode-se argumentar que espaguete à bolonhesa é algo que surgiu dentro do Universo, e portanto não poderia pré-existir a ele, mas até aí vozes, vontades, personalidades, etc., também estão sujeitas à mesmíssima restrição. E quem garante que os nossos espaguetes à bolonhesa não são apenas imitações baratas do verdadeiro ideal platônico que transcende o devir?) Ambas, afinal, são alegações impossíveis de co...

Netuno, 1 ano

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Faz um ano que o planeta Netuno foi descoberto. Ou, ao menos, um ano netuniano: é apenas hoje -- 60.150 dias, ou 164 anos e nove meses depois -- que o oitavo planeta do Sistema Solar retorna à mesma posição de sua órbita em que se encontrava em 24 de setembro de 1846, quando foi oficialmente descoberto. "Oficialmente" porque a existência do planeta já havia sido prevista matematicamente por Urban de Verrier e John Couch Adams, em cálculos realizados em 1845. Houve uma certa disputa entre De Verrier e Adams quanto à autoria orginal dos cálculos, mas a observação que detectou o planeta foi feita com base nas contas do francês. Netuno foi o primeiro astro descoberto não por meio de observação direta, mas por cálculos feitos com base em seu efeito gravitacional sobre um outro corpo celeste -- no caso, o planeta Urano. Nesse aspecto, De Verrier e Adams são os "cientistas patronos" dos descobridores de planetas extrassolares. Sendo a natureza humana o que é, depois ...

Vampiros e lobisomens, de verdade

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Mitologia é uma coisa engraçada. Mitologia acelerada pela indústria pop, então, nem se fala. O pensamento me ocorreu outro dia enquanto, zapeando a TV por assinatura, assisti aos primeiros minutos de Anjos da Noite , um filme sobre guerra entre vampiros e lobisomens. O que, se você é muito mais novo do que eu, provavelmente remete à saga Crepúsculo . Ou, se você é só um pouco mais novo que eu, remete ao World of Darkness do RPG Vampire e derivados. (Aliás: meninos, eu vi. A primeira entrevista jornalística em inglês que fiz foi com Mark Hein-Hagen, o criador do Vampire , no Parque do Ibirapuera, imagino que lá se vão uns 20 anos. O texto existe em alguma edição histórica do fanzine Panacea : revire os sebos, se quiser -- não creio que esteja online). Agora, se você tem a minha idade, vampiros versus lobisomens remete à capa do gibi que ilustra esta postagem; e se você é um maníaco comparável a mim, talvez se lembre dos estertores da saga de horror da Universal, nos anos 40, quan...

O Livro dos Milagres vem aí!

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Quem acompanha este blog há mais tempo sabe que dediquei os primeiros meses deste ano a escrever uma obra de não-ficção, O Livro dos Milagres -- uma mistura de ensaio, reportagem e divulgação científica sobre, como o título diz, eventos supostamente "milagrosos". Alguns excertos da obra até já deram as caras por aqui (por exemplo, nesta postagem e nesta outra ). É com inegável orgulho, portanto, que anuncio que assinei, neste fim de semana, o contrato para publicação da obra! Ela até já aparece na página de próximos lançamentos da editora Vieira & Lent . Esperamos (a editora e eu) vê-lo publicado em outubro. O índice de capítulos é este aqui: 1. O problema dos milagres 2. Abrindo o Mar Vermelho 3. Visões e êxtases 4. O nascimento virgem 5. Ressurreição 6. O Sudário de Turim 7. Relíquias de sangue 8. Aparições de Maria 9. O fenômeno de Lourdes 10. Aparições e segredos em Fátima 11. Padre Pio e seus estigmas 12. O poder da oração 13. Falando em línguas 14. Cura pela...

Pondo cada coisa em seu devido lugar: o papel da intuição

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Passe tanto tempo quanto eu batendo na tecla de que os métodos da ciência são a única rota razoavelmente segura para a verdade e o conhecimento ou, pior ainda, defendendo o Princípio de Clifford (proposto pelo matemático britânico William Clifford, no século XIX), segundo o qual aceitar uma alegação como verdadeira sem prova suficiente é perigoso e   imoral , e você encontrará não uma, mas diversas vezes, variações da objeção do Asno de Buridan. Para quem não conhece, esse é um asno fictício que teria morrido de fome porque era incapaz de decidir entre dois montes de feno (ou moitas na beira da estrada) igualmente apetitosos. A ideia é a de que esperar por prova suficiente, ainda mais por prova científica , antes de formular um juízo ou tomar uma decisão raramente é prático. As pessoas precisam contar com a intuição, o feeling , o palpite, senão ninguém sairia da cama nas manhãs de inverno. O Princípio de Clifford seria um ideal ético tão impraticável quanto o mandamento de vende...

Dois corações batendo como se fossem um...

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Quer que o coração do seu amor bata em sincronia com o seu? Comece a caminhar sobre brasas ardentes na frente dele (ou dela). Resultado de um estudo realizado na Espanha e publicado, nesta semana, pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences (a popular PNAS ) mostra que o ritmo cardíaco de parentes e "amigos íntimos" (categoria que, suponho, deve incluir namorados), presentes à plateia, de pessoas que participaram de um ritual de caminhada sobre brasas ardentes -- mais especificamente, que passearam descalças sobre uma pista de 7 metros de brasas a 677° C -- entrou em sincronia com o dos voluntários que encaravam as chamas. Caminhar sobre brasas é, claro, um truque antigo e sobejamente explicado pela ciência. O que torna possível caminhar sobre brasas a 677° C são exatamente os mesmos princípios que tornam impossível caminhar sobre uma chapa de aço aquecida à mesma temperatura: capacidade e condutividade térmica. Capacidade térmica é o quanto de calor q...

Câmbio! Tem alguém aí?

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Depois de um abril em que estive enrolado com um serviço temporário -- que me manteve saindo de casa às 8h para voltar às 22h -- retorno à paz do desemprego e, com ela, volto a ter a oportunidade de atualizar o blog diariamente (ou quase). Maio é um mês que promete, já que começa com a necrofílica beatificação de João Paulo II e termina com o fim do mundo . Já  tratei dos dois temas neste blog,aliás. Meus pensamentos sobre o processo de beatificação católico podem ser lidos aqui , e sobre cultos apocalípticos em geral, aqui . A respeito do falecido papa Wojtyla, só gostaria de chamar atenção para o fato de que o tirano do Zimbábue, Robert Mugabe, um católico devoto, estará presente à cerimônia. E, também, recordar a profunda admiração de João Paulo II pelo fundador dos Legionários de Cristo, o pedófilo Marcial Maciel , que aparece sendo abençoado pelo novo santo na foto acima.

'Eles riram de Einstein, de Galileu...'

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Preenchendo uma lacuna imperdoável em minha formação, finalmente estou lendo The Making of the Atomic Bomb ,  monumental livro de 800 páginas de autoria de Richard Rhodes e que é, possivelmente, a melhor peça de jornalismo científico/história da ciência de todos os tempos. Rhodes costura, de forma extremamente hábil e com sensibilidade de romancista, os avanços científicos que tornaram a bomba possível; a biografia dos homens (e mulheres) responsáveis por esses avanços; e as condições históricas e sociais que tornaram a bomba real e que levaram a seu uso, começando nos primórdios da física atômica, de um lado, e no papel da ciência na criação de armas (como gases letais e munições) para a I Guerra Mundial, de outro. Uma das muitas coisas que chama atenção nesse quadro -- e que de que gostaria de tratar nesta postagem -- é o número de ideias tidas como "absurdas" ou "inviáveis" que se mostraram corretas em todo o processo. Em dado momento, era consenso entre pe...

Falha mais uma tentativa de distinguir acupuntura de placebo

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Acho que é do Millôr Fernandes a observação de que qualquer qualquer afirmação, independentemente da validade, sempre tem uma chance mais do que razoável de ser levada a sério quando sai da boca de um velhinho chinês. Não sei se o Millôr tinha a chamada "medicina tradicional chinesa" em mente quando formulou o pensamento, mas alguns resultados recentes de estudos sobre acupuntura me trouxeram à lembrança a pérola do Mestre do Méier. O trabalho mais recente, divulgado nesta quinta-feira, foi patrocinado pelo Instituto Karolisnka -- onde ficam os caras que decidem o Nobel de Medicina -- concluiu que acupuntura placebo funciona tão bem quanto acupuntura real no tratamento da náusea sentida por pacientes de câncer, submetidos a radioterapia. O trabalho envolveu 277 pacientes. Desses, 215 foram distribuídos, aleatoriamente, entre um grupo que passou por acupuntura e outro que apenas teve agulhas falsas -- cujas pontas se retraem, sem perfurar a pele -- pressionadas contra o c...

Não, Virgínia, a ciência não encontrou provas de precognição

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Confesso que desde novembro do ano passado eu vinha esperando algum veículo da imprensa brasileira resolver divulgar, de forma sensacionalista, o artigo "Feeling the Future: Experimental Evidence for Anomalous Retroactive Influences on Cognition and Affect" , de autoria do pesquisador Daryl Bem e que relata nove experimentos que testaram a capacidade humana de prever o futuro -- alguns dos quais, segundo o autor, obtiveram resultados positivos. Com os meses passando e o relativo silêncio sepulcral na mídia tupiniquim -- entre as exceções, houve um artigo bem ponderado e nada sensacionalista de Hélio Schawrtsman -- eu já estava quase começando a me sentir culpado por esperar o pior. ( Adendo : o iG publicou uma extensa entrevista com Daryl Bem em janeiro; e agora em março a revista Mente e Cérebro  trouxe artigo a respeito. Isso é pra eu aprender a não fazer mais afirmações categóricas sobre o que saiu ou deixou de sair por aqui...)  Mas, confirmando o dito de H.L. M...

Nas ondas do rádio!

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Ou, nos cabos da internet: meu bate-papo com o pessoal do programa Rock com Ciência, da Universidade Federal de Viçosa, vai ao ar neste sábado, dia 5, às 17h. O tema são estudos sobre o poder da oração e o mecanismo das curas pela fé. Discutimos a análise estatítisca pioneira realizada por Francis Galton no século XIX, um grande estudo recente feito nos Estados Unidos e, perto do fim do programa, ofereço uma bênção que deve curar dores de cabeça instantaneamente e fazer os relógios dos ouvintes voltarem a funcionar. (Sério.) Mas você deve ouvir mesmo por causa da trilha sonora, que vai de Elvis Presley a Pantera (eu havia sugerido também Gloria Gaynor, mas o pessoal não quis usar, por algum motivo...). Queria agradecer ao Rubens Pazza pelo convite, e a todo o pessoal do Rock com Ciência pela conversa. E espero que os leitores deste blog aproveitem a oportunidade para ouvir o melífluo som de minha voz... Ah, claro: o programa vai aparecer online aqui .

Pois é, então redescobriram o vídeo do óvni em Jerusalém...

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Há alguns dias (vários dias, na verdade), eu soltei um link no Twitter sobre o desmascaramento de um vídeo forjado que supostamente mostrava um objeto voador não-identificado flutuando sobre a Esplanada das Mesquitas em Jerusalém. Mas, como na internet os boatos nunca morrem (pelas minhas contas, ao longo de dez anos escrevi sete matérias desmentido a história do "livro didático americano que diz que a Amazônia pertence à ONU"), eis que o vídeo não só volta a dar o ar de sua graça como chega ao "mainstream" da mídia brasileira, graças aos inestimáveis préstimos da agência EFE -- como se pode conferir  aqui e aqui . (Se um dia nos encontrarmos numa mesa de chope, lembre-se de me embebedar e depois pergunte-me sobre a experiência de tentar manter um canal online sério de ciência tendo por base o material da EFE e da BBC.) Mas, enfim: Phil Plait, o BadAstronomer , tem uma postagem de 9 de fevereiro em seu blog explicando como o primeiro vídeo foi falsificado . Um...

Rufem os tambores: minha estreia na série A

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Será que a maior parte dos leitores deste blog já ouviu falar em James Randi? O mágico americano (naturalizado; Randi é canadense de nascimento) apareceu há alguns anos no Fantástico, da Globo, desafiando Thomas Green Morton a demonstrar seus "poderes paranormais" sob condições controladas, mas é provável que a maioria dos brasileiros não esteja familiarizada com o currículo desse grande homem. Aqui, então, algumas pinceladas: Projeto Alfa: Randi treinou dois jovens mágicos que, de 1979 a 1983, enganaram os pesquisadores do Laboratório McDonnell de Pesquisa Psíquica. Criado com uma doação de meio milhão de dólares feita pelo presidente da empresa aeroespacial McDonnell-Douglas, o laboratório tinha por objetivo testar alegações de poderes paranormais  em condições científicas controladas. O fato é que os dois discípulos de Randi demonstraram que os "controles" usados eram insuficientes, e que os cientistas eram facilmente enganados. Curandeiros da Fé: Em 1987, Ra...