Postagens

Ciência, asteroide assassino e memória da internet

Como todo leitor deste blog sabe (ou deveria saber) a ciência é uma atividade sui-generis porque, entre outras coisas, avança e evolui em meio à crítica e à contestação. Cientistas detonam as ideias de outros cientistas. Cientistas buscam provas de que seus colegas estão errados. Cientistas duvidam de cientistas. E, eis aqui a maravilha da coisa, nada disso é considerado disruptivo, ou falta de educação, ou maus modos: é o processo normal da empreitada. Como jornalista de ciência, eu me vi pego nesse turbilhão algumas vezes, mas nenhuma tão marcante quanto a que envolveu a questão da família de asteroides Baptistina e a extinção dos dinossauros. Você provavelmente encontrou pela internet a notícia de que a sonda Wise, da Nasa, eliminou a possibilidade de o asteroide que caiu no México no fim do período Cretáceo -- aniquilando os dinossauros -- ter sido um dos fragmentos da grande rocha que originou a família Baptistina . Bom. A ideia de que o asteroide que acabou com os dinos te...

Igreja Universal Mundial de Willy E. Coyote

Imagem
Sei que muitas pessoas já passaram por experiências de conversão mística ao encontrar imagens de Jesus ou Maria criadas miraculosamente em paredes, janelas, pisos, etc. Em alguns casos, essas imagens até se tornam focos de peregrinação Pois bem, nesta semana eu passei por algo semelhante. Estava caminhando na rua quando me deparei com a imagem abaixo, fixada na calçada: Óquei. Se esta não é uma representação fiel da figura de Willy E. Coyote prestes a abrir uma nova caixa de produtos Acme, eu não sei o que é. Trata-se, evidentemente, de um sinal. É difícil deduzir o que Willy deseja de nós apenas com esse ícone, criado não por mãos humanas; talvez seja apenas mais uma instância de uma revelação incremental, iniciada com o Evangelho do Coiote de Grant Morrison: O que significa que teremos de nos manter atentos, à espera de novos sinais. Aguardemos. (Óquei: a postagem toda é uma ironia. A foto do "coiote" é real, mas se trata apenas de uma mancha de água formada...

Medicina no mundo das fadas

Finalmente li a matéria da Veja sobre o "tratamento espiritual" do ator Reynaldo Gianecchini. O texto tem o mérito de ser um pouco menos sensacionalista que as usuais incursões da concorrente IstoÉ no mundo das fadas (o que, de certa forma, frustra as expectativas geradas pela capa). Mas, ainda assim, não deixa de misturar alhos com bugalhos, pondo no mesmo saco, por exemplo, as recomendações estritamente pragmáticas da chamada "medicina integrativa" e um estudo sobre o poder da imposição das mãos sobre a saúde dos camundongos. Indo por partes: "medicina integrativa", como fica bem claro na entrevista que a revista faz com um especialista americano, é a ideia de que, se o paciente tem uma superstição que pode ajudá-lo a se sentir mais feliz e tranquilo, o melhor é deixar que ele a pratique de forma controlada, sob supervisão médica e sem atrapalhar o tratamento de verdade. (Esta não é a definição oficial da prática, claro; mas, por baixo de toda a terg...

Mágica!

Imagem
Sábado passado, como parte da celebração do aniversário da Mais Bela e Paciente de Todas as Esposas, fui ao show do ilusionista Franklin Albuquerque , no Teatro Juca Chaves, em São Paulo. Albuquerque constrói suas rotinas em torno do mentalismo -- truques em que o artista parece adivinhar ou antecipar pensamentos da plateia.  Ele também faz objetos se moverem "com o poder da mente" e realiza truques de psicometria, quando o mágico finge captar "vibrações" de objetos para obter informações relevantes. O ponto alto do espetáculo, a meu ver, foi um desses números "psicométricos", uma variação dramática do velho "three card monte", em que é preciso adivinhar sob qual copo está uma ervilha. Não se trata, no entanto, de um espetáculo de mentalismo puro. Não há nenhum número de leitura a frio, nem de leitura muscular: por exemplo, a rotina clássica em que o mágico sai do palco enquanto um comitê de membros da plateia esconde o dinheiro da bilh...

Joseph Ratzinger é um criminoso?

Imagem
A notícia de que uma rede internacional de vítimas de padres pedófilos pediu ao Tribunal Penal Internacional que o papa Bento XVI seja levado a julgamento por crimes contra a humanidade recebeu uma cobertura discreta e confusa aqui no Brasil. Esta nota do G1 , por exemplo, compra a versão oficial do Vaticano, segundo a qual o fato de o papa ter recomendado aos bispos "cooperação com os tribunais" que julgam padres pedófilos é algo significativo -- quando, na verdade, a Santa Sé segue se recusando a determinar que os bispos denunciem padres pedófilos às autoridades (a tal "cooperação" só vale depois que o escândalo já está na rua). Esta versão da France Presse é mais completa, e traz a informação de que a denúncia provavelmente não será aceita, já que a rede de vítimas não é uma parte legítima para representar junto ao TPI. De qualquer forma, a publicidade em torno desse novo desdobramento me levou a, finalmente, ler The Case of the Pope , do jurista britânico...

Meia tonelada caindo do céu

Imagem
A Nasa anunciou no dia 7 de setembro que um satélite de pesquisa atmosférica, o UARS -- sigla em inglês para Satélite de Pesquisa da Alta Atmosfera -- está voltando para casa. Sem ter sido exatamente convidado. Uma boa notícia é que, como o equipamento está desativado desde 2005, o fim do UARS não representa nenhum perigo para os programas científicos da agência espacial. A outra boa notícia é a de que cerca de 90% da massa total do satélite (de respeitáveis 5,6 toneladas) vai se desintegrar na reentrada. A má notícia é que os outros 10%, ou 532 kg, sob a forma de 26 diferentes componentes, feitos de materiais como aço, berílio e titânio, vão chegar à superfície da Terra com velocidades variando entre 75 km/h e 385 km/h (este último bólido são na verdade quatro rodas de aço, pesando 2 kg cada). Esses destroços todos  devem cair ao longo de uma linha de 800 km de extensão. A reentrada deve ocorrer ao longo dos próximos 30 dias, mais ou menos, com uma janela mais estreita e...

Ciência e fé

No fim do mês, estarei no SESC de Curitiba para dar uma palestra sobre Ciência e Fé -- mais precisamente, o tema oficial é "as diferenças entre fé e ciência como formas de produzir conhecimento e de justificar crenças". O convite para falar na capital paranaense surgiu já há vários meses, e desde então ando relendo vários clássicos pertinentes ao tema, e baixado outros tantos, furiosamente, no meu Kindle. Nesse meio tempo, no entanto, também acabei me envolvendo em outros projetos, como esta reportagem para a Galileu , a revisão e a preparação de notas para O Livro dos Milagres , a organização, ao lado de Marcelo Augusto Galvão, de uma antologia nacional de contos de Sherlock Holmes , a manutenção deste blog, a redação de uma novela de ficção científica e, desde o início de agosto, o emprego novo. O resultado é que, embora eu já tenha todo o material para a palestra pronto e organizado, anda faltando tempo para sentar e pôr as ideias em ordem no papel. Eu até que sou um ra...