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Dilma, mariologia e o antropólogo de Marte

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Só uma breve nota pré-carnavalesca: no rastro da gritaria histérica contra a ministra Eleonora Menicucci (detalhes na postagem, abaixo), alguns comentaristas "neocons" resolveram tirar umas casquinhas da presidente Dilma, que num programa do Datena, ainda quando candidata, referiu-se a Nossa Senhora como "deusa" e se declarou devota de Nossa Senhora "de uma forma geral". Que a presidente merece ser trollada por isso, não tenho a menor dúvida. Primeiro, por condescender em jogar para  a galera desse jeito; segundo, por fazê-lo tão mal. Curiosamente, no entanto, a mariologia dilmística tem uma alta plausibilidade intuitiva e, mais do que isso, importantes precedentes históricos. A questão de até que ponto o catolicismo pode ser considerado um sistema monoteísta, por exemplo, não é tão clara quanto os próprios católicos gostam de acreditar. A crítica de que a devoção praticada pelos fiéis da Igreja Católica seria politeísta de facto (embora se declare...

Alô, alô, Estado laico, câmbio, tem alguém aí?

Faz alguns anos, vi um carro com placa oficial -- de alguma Casa Legislativa, fosse Assembleia estadual ou Câmara de vereadores -- na Marginal Tietê com um adesivo do peixe cristão no para-choque traseiro. Comecei a esbravejar: o carro era oficial, pago com dinheiro público, não podia ser usado para propaganda religiosa! Minha mulher me olhou de soslaio e disse: "Poxa, larga a mão de ser chato". Estava eu sendo chato? Suponho que sim. Principalmente com as pessoas que estavam perto de mim, que certamente preferiam ouvir o rádio ou conversar sobre o escândalo político da vez a engolir minha diatribe. Se eu realmente quisesse fazer algo a respeito, poderia simplesmente anotar placa, modelo, etc., e fazer uma denúncia formal à ouvidoria competente, ou ao Ministério Público. Mas agora, em meio ao furor histérico dos religiosos em torno da nomeação de Eleonora Menicucci para a Secretaria de Políticas para as Mulheres, eu me lembro de quando, como e por qual motivo fiquei ch...

Brincando de Wolfram Pro: aquecimento global

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O serviço Wolfram Alpha abriu um período de 40 dias de testes grátis de sua versão "Pro", que traz ferramentas de análise de dados -- dá para subir fotos, textos, arquivos XLS, etc., e mandar as ferramentas do Wolfram virar seus conteúdos de um lado para o outro e de cabeça para baixo. Brincando um pouco com o sistema, confesso que fiquei meio decepcionado quando vi que, ao analisar um arquivo .doc ou .pdf, por exemplo, o sistema traz uma série de dados sobre o código -- qual o hexadecimal mais usado, por exemplo -- mas não uma análise do texto (palavra mais frequente, número de parágrafos, grupos de palavras mais usados, etc.). O uso de arquivos Excel também é meio ranzinza. Mas se você tiver um conjunto de dados brutos -- isto é, um arquivo txt com uma longa série de números, por exemplo -- o negócio funciona, e funciona bem. Para bem orgulho, consegui criar uma sequência de dez dígitos que, segundo o Wolfram Pro, correspondia a uma distribuição normal com 95% de cert...

As marcas do apocalipse, de ontem e de hoje

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"Literatura apocalíptica" é um gênero que se tornou bastante popular nos escritos hebraicos a partir do exílio na Babilônia, iniciado em 587 AEC, depois que o Reino de Judá foi a pique. Trata-se de uma forma literária, ao menos do ponto de vista moral e psicológico, especialmente desprezível, na medida em que cumpre a função mesquinha de satisfazer, por meio da fantasia, o sadismo dos ressentidos. O texto apocalíptico é, em geral, o produto de um oprimido que sonha em rasgar a jugular e beber o sangue do opressor, mas não vê oportunidade para tanto. Logo, espera que Deus se enfeze e acabe com a palhaçada de uma vez por todas, de preferência com muito choro, ranger de dentes e requintes diversos de crueldade. Parafraseando as categorias nietzschenianas de moral do senhor e moral do escravo , o apocalipse é uma manifestação desenfreada do id do escravo. A paixão por esse tipo de vendetta escatológica passou dos judeus oprimidos para os cristãos perseguidos, e exempl...

Darwin e a questão de Fermi

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Feliz aniversário, Charlie! Neste domingo, faz 203 anos que nasceu Charles Darwin, codescobridor, com Alfred Russel Wallace, do processo de evolução das espécies. Como não dava para deixar passar a data em branco, resolvi registrar aqui uma reflexão que me ocorreu há algum tempo -- e que já li, de uma forma ou de outra, alhures, também. Essa reflexão aplica o princípio de "sobrevivência do mais apto" a um dos problemas candentes do século 20, a Questão de Fermi. Formulada pelo físico italiano Enrico Fermi, a questão pergunta: "Onde está todo mundo?" Sendo "todo mundo", no caso, as outras civilizações inteligentes da galáxia. Fermi fez a pergunta depois de estimar, de um modo meio grosseiro, o número esperado de espécies racionais que deveria haver na Via Láctea, e concluir que, ora bolas, já deveríamos ter sido visitados, aqui na Terra, por pelo menos uma. Cálculos posteriores confirmaram a intuição do italiano: pelo que sabemos, nossa galáx...

Aquecimento global: números e argumentos

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A revista Skeptic lançou na internet um ótimo artigo do geólogo Donald Prothero sobre o aquecimento global e a desonestidade dos argumentos usados pelos negacionistas climáticos. Minha recomendação é que todas as pessoas interessadas no assunto leiam o texto, mas como ele é longo e está em inglês, resolvi produzir uma versão "digest", capturando alguns dos gráficos usados pelo cientista. O primeiro deles é uma versão atualizada do "hockey stick", o gráfico que mostra a elevação acentuada da temperatura média nos últimos cento e poucos anos: O segundo é o que registra as concentrações de CO2 na atmosfera da Terra ao longo das eras (as concentrações passadas foram medidas em amostras congeladas extraídas da Antártida). Como dá para ver, as temperaturas nunca foram tão altas e as concentrações de CO2 também são recorde. Até aí, dá para dizer que "correlação não é causação", e que a coisa toda pode ser uma simples coincidência. Esse argumento ignor...

Para que serve o editor, afinal?

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O mundo de língua inglesa assiste, atualmente, a uma guerra entre cientistas e editores  empresas editoras de publicações científicas. O estopim foi um projeto de lei, patrocinado por grandes grupos editoriais e em tramitação no Congresso americano, que se aprovado proibirá o governo dos EUA de exigir a divulgação gratuita de artigos científicos previamente publicados em revistas privadas. Para entender melhor o imbróglio, precisamos de duas peças de contexto. Uma: quando um cientista acredita ter algo de relevante para apresentar à humanidade em geral (e aos colegas, em particular) a etiqueta atual requer que ele não convoque uma entrevista coletiva, nem que se enrole num lençol e saia por aí pregando de porta em porta mas, em vez disso, articule suas ideias e descobertas num artigo; submeta o artigo a uma revista especializada, que se encarregará que passar o texto adiante a pares  ("peers") do autor. Esses pares são outros cientistas, pessoas teoricamente capazes d...