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Efeito gaveta e pesquisas em animais

Uma grande frustração da pesquisa biomédica é o fato de que a maior parte dos resultados positivos documentados em testes com animais acaba não se traduzindo em tratamentos para seres humanos. Há uma piada corrente de que a ciência já sabe como dar juventude eterna e imortalidade aos camundongos, mas para o resultado chegar aos seres humanos ainda vai demorar um pouco... Hipérboles à parte (mesmo se fosse verdadeira, a piada ignora as multidões de camundongos "voluntários" mortos no processo), o fato é que, de acordo com uma estimativa recente citada pelo Chronicle of Higher Education , apenas 11% das drogas que entram em testes em seres humanos acabam liberadas para uso comercial. Mas, se chegam a ser testadas em seres humanos, é bem provável que se tenham mostrado promissoras em animais. Onde está o gargalo? Um problema, óbvio, é que gente é gente, bicho é bicho. Não seria mesmo esperado que tudo o que funciona em animais também funcionasse em pessoas. Ainda assim, uma ...

Há 44 anos, nesta data...

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O papa, e o que estamos pagando

A visita papal que começa em breve no Rio de Janeiro, a chamada Jornada Mundial da Juventude (JMJ), está repleta das ambiguidades típicas de tudo o que envolve o Vaticano: por um lado, trata-se de um evento religioso, já que o papa Francisco é, ora bolas, o papa; por outro, de um evento diplomático, já que o papa também é o chefe de um Estado que, a despeito de sua legitimidade discutível , é reconhecido pelo Brasil. Essa ambiguidade costume ser muito bem explorada pela hierarquia católica. Quando interessa (por exemplo, na hora de explicar como a concordata Brasil-Vaticano "não é" inconstitucional), a Santa Sé é um país. Quando não interessa -- imagino que os bispos, padres e cardeais que tando gostam de dar palpite na política interna do Brasil detestariam ser vistos como agentes provocadores a soldo de um Estado estrangeiro -- é uma religião. A JMJ é especialmente curiosa porque se revela um caso em que ambas as faces da Santa Sé se mostram, numa análise cuidadosa,...

Reforma política: palpite do Nobel

Já que se está falando tanto em mudança no sistema de eleição parlamentar no Brasil, acho que vale a pena compartilhar o que ouvi, lá nos idos de 2010, do ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2007 Roger Myerson, que estava fazendo um estudo sobre, exatamente, o sistema eleitoral brasileiro (a área de especialização de Myerson é teoria dos jogos). De acordo com ele, o sistema brasileiro de voto proporcional com lista aberta -- onde os votos são, primeiro, do partido e, só aí, preenchidos pelos candidatos, de acordo com a escolha popular -- é o "segundo pior possível", porque, primeiro, divorcia o eleitor do eleito: seu voto pode acabar pondo no Parlamento alguém em quem você jamais votaria. Segundo, porque induz o candidato a buscar "clientelas", ou rebanhos de votantes cativos -- o que leva à formação de coisas como bancada evangélica, bancada ruralista, etc. O "primeiro sistema pior possível", de acordo com Myerson, seria o de eleição proporcional ...

Teorias da conspiração

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A reportagem de capa da Galileu de julho é de minha lavra (ainda se usa isso, "minha lavra"?), e trata de teorias da conspiração. Além de apresentar e explicar dez das teorias mais populares no mundo atual -- dos reptoides de David Icke ao Climategate -- também discuto um pouco da psicologia por trás das formulações conspiratórias e, algo especialmente relevante no Brasil atual, dos efeitos sociais que essas teorias têm quando ganham livre curso na sociedade. Teorias da conspiração são daninhas porque corroem as ferramentas fundamentais da democracia, que são a negociação e o diálogo. Se o "outro" é um conspirador, então nada do que ele diz é verdade e suas intenções não são realmente as que ele apresenta: a única forma de lidar com ele é pelo confronto. Ao eliminar a possibilidade  de discordância honesta, a visão conspiratória divide os adversários em inimigos e inocentes úteis, com quem não tem conversa respeitosa, mas apenas ódio (para os primeiros) e des...

Mestre Richard Matheson, lenda

Richard Matheson, que morreu no fim de semana, é, dependendo do tipo de relação que se mantém com o mundo da ficção científica literária, do cinema e da televisão, ou o escritor mais importante de quem você nunca ouviu falar, ou uma lenda, uma assombração. No primeiro caso, você é apenas um consumidor eventual desse tipo de coisa -- alguém que lê um trabalho aqui, outro acolá, acompanha esta série ou aquela outra, este ou aquele filme, sem muito interesse. Se é assim, talvez não saiba que praticamente todas as ideias legais que nos últimos 50 anos viraram clichês, da ocupação da Terra por mortos-vivos à visita de casas mal-assombradas por caçadores de fantasmas high-tech nasceram em obras de Richard Matheson. Ao lado de HP Lovecraft, Matheson é o grande arquiteto do inconsciente coletivo da narrativa pop norte-americana (e, por extensão, mundial). No segundo caso, você é alguém que tem um interesse mais profundo por essas coisas -- séries de TV, filmes, livros de aventura, vampiros...

Picareta lançada!

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Acabo de voltar do Rio de Janeiro (a foto acima foi tirada da janela do quarto do hotel), onde participei do evento de lançamento do livro Pura Picaretagem , escrito em parceria com o físico Daniel Bezerra . Visitar o Rio é sempre um prazer, ainda mais podendo contar com a hospitalidade do amigo e colega escritor de ficção-científica Gerson Lodi-Ribeiro e sua mulher, Cláudia; e da conversa sempre estimulante de Octavio Aragão, a cabeça por trás de alguns dos projetos mais instigantes do quadrinho nacional . Além da companhia e da boa conversa de vários amigos com quem praticamente só tenho contato via internet. Como eu e minha mulher, Renata , ficamos hospedados no Leblon, as manifestações que sacudiram a cidade não nos afetaram muito -- mas o suficiente, por exemplo, para que um taxista se recusasse a levar a Renata até o hotel, no início da noite de sábado, deixando-a meio perdida em meio aos manifestantes que cercavam a morada do governador Sérgio Cabral. Saber que a manif...