Educação e catástrofe, novo round





Em seu livro-reportagem-depoimento The Unpersuadables, o jornalista britânico William Storr narra diversos períodos de sua vida em que conviveu com figuras "impersuadíveis" -- pessoas cujas convicções pareciam inabaláveis mesmo diante da mais sólida evidência. Um dos trechos mais tensos do livro relata a viagem que Storr fez a um campo de extermínio nazista, num tour guiado por David Irving, o notório negador do Holocausto. Sem se revelar como jornalista, o autor passa dias, efetivamente, infiltrado num grupo internacional de neonazistas e simpatizantes.

O Irving delineado no perfil de Storr é um sujeito às vezes arrogante, às vezes simpático, cuja principal força motriz é uma necessidade profunda de desafiar o mainstream -- e, o jornalista especula, de provar que a entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foi um erro. Storr propõe a hipótese de que Irving, que era criança durante a "blitz", teve sua infância arruinada pela guerra, e ressente-se disso: sua defesa irracional de Adolf Hitler seria fruto da convicção, gerada por razões emocionais, de que o conflito com a Alemanha nazista foi um lamentável equívoco. A guerra o impediu de ser uma criança feliz: logo, a a guerra não deveria ter acontecido. Logo, Hitler não era tão mau assim.

Storr descreve, ainda, uma conversa que teve com o motorista polonês que conduzia o grupo de turistas guiado por Irving. Esse motorista era também um devoto de ideias políticas de extrema-direita, às quais aderiu após assistir a um comício na televisão. O jornalista lhe pergunta a razão -- as pessoas no comício estavam falando de empregos? de imigrantes? A resposta do motorista é, nas palavras de Storr, "emocional": "Eu não sei. Tudo fez sentido. Apenas encaixou".

Lembrei-me de The Unpersuadables por causa das diversas reações à recente violência durante uma passeata neonazista realizada nos Estados Unidos. Por um lado foi alentador ver algumas figuras notórias da esquerda, como o jornalista Glenn Greenwald, manterem a cabeça no lugar e defender o direito humano à liberdade de expressão e manifestação. Recomendo muito a leitura de seu artigo na íntegra, mas traduzo, aqui, o par de parágrafos finais:

"E então, por fim, há o argumento da eficácia. Como alguém pode imaginar que o neonazismo ou a supremacia branca vão desaparecer nos EUA, ou mesmo enfraquecer, se forem suprimidos à força pelo Estado? Não é obviamente claro que o oposto exato acontecerá: ao transformá-los em mártires da liberdade de expressão, não se fará nada além de fortalecê-los e torná-los mais simpáticos? Nada, literalmente, ajudou mais Yannopoulos a se tornar uma figura de culto nacional do que as tentativas bem intencionadas (mas fracassadas) de lhe negar uma plataforma. Nada poderia ser melhor planejado para ajudar-lhes a causa do que transformar um minúsculo grupo marginal de neonazistas assumidos numa espécie de modelo de propaganda para os direitos de expressão.  

A necessidade de combater o neonazismo e a supremacia branca, onde quer que apareçam, é urgente. O modo menos eficaz de fazê-lo é tentar dar ao Estado o poder de suprimir a expressão de seus pontos-de-vista. Isso vai sair pela culatra de diversas maneiras: fortalecendo os movimentos e garantindo que os defensores da censura estatal, hoje, sejam suas vítimas indefesas amanhã. E, não importa o que mais seja verdade, o impulso de reagir a ataques terroristas com o cerceamento de liberdades civis é sempre irracional, perigoso e autodestrutivo, não importa o quanto seja tentador". 

Por outro lado, no entanto, foi deprimente ver como a posição de Greenwald é minoritária em seu meio ideológico. O mais comum, ao menos nas redes sociais, foi ver pessoas defendendo a repressão estatal e a ideia de que "não dá para conversar com essa gente". Quando uma pessoa começa a se referir a seres humanos como "essa gente", e os coloca, a priori, além de qualquer possibilidade de diálogo, ela está mais perto do nazismo do que gostaria de admitir.

Não que não existam, claro, os inimpersuadíveis, os radicais cabeça-dura e, claro, os intelectualmente desonestos. Mas supor que todos os apoiadores de uma ideologia nefasta se encaixam numa dessas categorias é cometer o velho erro cristão de confundir crença com moral. Uma pessoa que mantém crenças que consideramos imorais (racistas, homofóbicas, misóginas, etc.) não é, necessariamente, uma pessoa imoral: ela pode, apenas, nunca ter encontrado explicações melhores para os fatos que essas crenças a ajudam a entender.

Voltando ao motorista polonês do livro de Storr: para ele, o discurso de direita "fez sentido". Psicólogos argumentam que a cognição humana, em geral, segue a regra de "fez sentido, pare": assim que achamos uma explicação que nos parece fazer sentido, procuramos um ou dois exemplos para confirmá-la, nos satisfazemos com ela e paramos de questionar o assunto. Assim, por exemplo, um homem procurando a explicação para o caos no trânsito pode deparar-se com a explicação "mulheres dirigem mal", encontrar alguns exemplos de mulheres dirigindo mal (e ignorar os homens, já que estão fora de seu radar de confirmação) e satisfazer-se com isso.

No caso do discurso vitimista que baseia muito do movimento supremacista branco: ele pode, prima facie, fazer sentido para o jovem branco pobre, de escola pública, que vê o colega de classe negro ganhar acesso a uma universidade graças a um programa de ação afirmativa. E, se faz sentido, ele para -- a menos que lhe apresentem uma explicação alternativa.

Pelo que se lê hoje na internet, muita gente dita "progressista" parece acreditar que o nosso jovem ressentido, prestes a integrar uma passeata neonazista, é ou um canalha hereditário irrecuperável, ou tem uma espécie de obrigação moral de mudar de ideia por conta própria, numa epifania ou num ato de fé. A situação é insustentável: se ele for pedir uma explicação melhor para o que aconteceu, ele será tratado como um canalha; sem uma explicação melhor para o que aconteceu, ele vai se comportar como um canalha.

Pressupor que todos os que acreditam em ideias escrotas são intratáveis e irracionais, e que a única forma de lidar com eles é a repressão, é simplesmente jogá-los no colo da minoria realmente intratável e irracional. HG Wells escreveu que a civilização é uma "corrida entre a educação e a catástrofe (...) porque a verdade é a maior arma de que dispomos". Se os progressistas perderam a paciência e a vontade de educar, por achar que suas verdades são óbvias e de aceitação obrigatória, o outro lado pode acabar parecendo bem mais acolhedor. E aí, ganha a catástrofe.

Comentários

  1. Nesse livro o Will Storr revela mentiras de James Randi e Richard Wiseman sobre a pesquisa de Rupert Sheldrake, mostrando que há muita má vontade em relação a ideias e experimentos relativos ao paranormal.

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