E sobre Star Trek Discovery?



Quando a série Star Trek: Discovery estreou na Netflix, escrevi uma postagem neste blog me declarando otimista. Agora que a primeira temporada acabou, portanto, creio que cabe um post mortem. Mas, antes disso, uma digressão.

Jornada nas Estrelas (ou Star Trek, para poupar o teclado) sempre foi duas coisas diferentes: uma promessa e uma realidade. A promessa, promovida com tamanha vivacidade pelo criador Gene Roddenberry que muita gente chegou a confundi-la com a realidade, era a de um espetáculo que usaria a linguagem da ficção científica para explorar questões morais, políticas, sociais e científicas de modo instigante e inteligente; além disso, a de tentar demonstrar que a parte realmente interessante da experiência humana só iria começar, de fato, depois que tivéssemos construído uma utopia na Terra, e que essa utopia seria atingida por meio da compaixão, da lógica e da ciência, não de forças míticas ou místicas (não é por menos que a frase final de Star Trek: The Motion Picture é "A aventura humana está apenas começando").

A realidade, por sua vez, são os produtos da franquia, tal como realizados. Alguns -- as duas primeiras temporadas da série clássica, uma ampla seleção de episódios da Nova Geração, diversos livros e histórias em quadrinhos -- chegam bem perto de cumprir a promessa. Deep Space Nine parece, em certos momentos,  se envergonhar dela. Com o passar do tempo, os produtores do fim do século passado passaram a se mostrar cada vez mais incomodados com o legado de Roddenberry.

Mas, por que a promessa foi se tornando problemática? O ponto principal é que, à medida que os anos 80 iam dando lugar aos 90, a promessa foi entrando, cada vez mais, em choque com o zeitgeist.

Sua primeira parte -- exploração inteligente e instigantes de questões por meio da linguagem da ficção científica -- foi sendo minada (ou, no mínimo, transformada) pela ascensão das narrativas baseadas em personagens. Se a série clássica podia se dar ao luxo de construir parábolas sobre corrida armamentista ou o Paradoxo de Epicuro usando os personagens como arrimo para as ideias, na narrativa baseada em personagem são dramas pessoais, não temas, que dominam. Claro, dramas pessoais podem ser usados para tratar de grandes temas ou ideias, mas o centro de gravidade narrativo muda. Séries em formato de antologia, como Black Mirror, são muito melhor adaptadas para esse novo equilíbrio.

Além disso, drama pessoal pressupõe conflito entre personagens, e a sabedoria convencional é a de que utopias não são boas para isso. Na série clássica, e em boa parte da Nova Geração, o que se via era a humanidade e seus aliados fazendo frente comum perante ameaças, mistérios e perigos externos. Nós tínhamos aprendido a trabalhar juntos, em respeito mútuo, e a administrar nossos desentendimentos de forma não-explosiva, e com isso partíamos para encarar o que estivesse lá fora.

O que é muito bom para um formato episódico (tipo "desafio da semana"), mas um tanto quanto incômodo para uma série que pretende seguir "arcos de desenvolvimento pessoal".

Já a segunda parte da promessa cede não só sob o peso extra dado às personagens, mas também sob a barragem voltada contra a própria ideia de utopia. A mera possibilidade de que os diversos grupos humanos possam resolver suas diferenças de modo pacífico, e cooperar para administrar o planeta de forma racional e harmônica, tornou-se anátema tanto para amplos setores da direita (para quem isso é "comunismo" ou "Nova Ordem Mundial") quanto da esquerda que, com sua guinada rumo à valorização do conflito identitário, parecem ver qualquer sugestão de "não precisamos brigar, vamos resolver isso juntos" como expressão de colonialismo, "silenciamento", usurpação.

Esse mal-estar com a promessa original de Roddenberry já aparecia na concepção tanto de Deep Space Nine quanto de Voyager. Enterprise foi, a meu ver, um esforço de resgate, mal executado, mas um sinal de que a promessa voltava a ser relevante. Tanto a nova série cinematográfica quanto Discovery me parecem tentativas de encontrar um lugar para a velha promessa no mundo contemporâneo, dentro das amarras do blockbuster cinematográfico/televisivo.

Em que pesem os diferentes juízos sobre a qualidade dos produtos finais, o segundo e o terceiro filmes da tripulação de Chris Pine abordam os mesmos temas -- a desfiguração ética de um poder que se pretende benigno, o conflito entre tradição e racionalidade -- que Discovery. E esses são temas que dizem respeito diretamente à segunda parte da promessa, a de que as coisas só vão ficar mesmo legais quando pararmos de brigar. Algo problemático tanto para os klingons de Discovery quanto para o vilão de Fronteira Final:  afinal, parar de brigar não é render-se?

Fim da digressão. O que achei de Discovery, afinal? A série não me agradou -- nem desagradou -- profundamente. A ideia de um ecossistema existindo nos interstícios do espaço-tempo é muito rica (e meio lovecraftiana, não?), e Greg Egan já se valeu dela pelo menos duas vezes (no romance Schild's Ladder e no conto Dark Integers), mas acabou mal utilizada (se os "fungos" existem nos espaços entre os universos, por que precisam do solo de um planeta para germinar?). A solução da guerra klingon ficou muito fácil. De resto, para o meu gosto, "character development" demais, "plot development" (e "sf development") de menos.

Não aguardo ansiosamente a segunda temporada, mas também não vou recebê-la com animosidade. Vejo Discovery como (mais) uma tentativa de tornar a promessa original relevante para os tempos atuais. Talvez consiga, talvez não. Minha aposta é de que ficará no meio do caminho, mas abrirá espaço para algo ou alguém com uma visão mais clara do que a promessa de Star Trek representa neste século 21.

Comentários

  1. Eu consigo ver o "mal estar com a promessa" em DS9, mas qual o problema de Voyager com ela?

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  2. Bacana seu "review" sobre Star Trek Discovery, Carlos!
    Concordo com muito do que escreveu.

    Acho que essa nova série de Star Trek acaba se dobrando um pouco ao que se espera dos seriados atualmente.
    Percebo que as discussões filosóficas, científicas e morais acabaram por ficar um pouco de lado.
    É tarefa ingrata tentar manter a essência do que era Star Trek nas décadas passadas com o modelo de seriado televisivo que temos hoje em dia.

    Ao mesmo tempo me diverti bastante com a série e com seus personagens.
    Para o bem ou para o mal, essa versão atualizada conquistou certa audiência.
    Vi muitos de meus amigos, que taxavam os episódios das séries anteriores de Star Trek de "parados" e "pouco empolgantes", se interessando por esse rico universo por meio de Discovery.
    Temos pouquíssimos seriados que abordam ciência e exploração espacial, menos pessoas ainda que se interessam por essas temáticas. Então acho, de certa forma, que o saldo é positivo.

    Eu, particularmente, achei o final da temporada bem anticlímax. Confesso que eu esperava bem mais do último episódio dessa primeira temporada.
    Mas ao mesmo tempo me surpreendi com o tom do episódio, quando a personagem Michael Burnham, em seu discurso, resgata e deixa claro quais os valores da Frota Estelar.

    Vou aguardar a próxima temporada com uma expectativa positiva. :)

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  3. A própria gênese da tripulação acontece em tensão com ela, não? Dá para dizer que o desenvolvimento da série acaba sendo congruente com ela, mas a ideia de "juntos e em paz somos mais fortes" está sempre tensionada ali.

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  4. É um ponto. Eu senti como se Voyager tentasse recuperar parte do aspecto exploratório da série original, mas algo tivesse dado muito errado.

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  5. Na verdade, é como se essa premissa em VOY morresse na praia, Orsi: a ideia de um conflito em uma tripulação mista, federados e maquis, morre rapidinho, e é tudo "pasmaceira nas estrelas", voltando - e aí são dos motivos que histórias acabam sendo como são - ao formulaico que se via de NG até ENT. Digitando agora, não sei se é uma extensão do "family magic" disneyano, em que todo o conflito na família TEM QUE ser resolvido durante o tempo de exibição do produto.

    Ou apenas uma saída preguiçosa.

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  6. Muito bacana o review. Achei a análise da série junto ao zeitgeist do momento muito bem alinhada.. e, apesar de também ter minhas ressalvas sobre a Discovery, ainda espero com ansiosidade a segunda temporada. Ela realmente não supriu minhas expectativas como as séries anteriores já o fizeram... mas ainda prefiro algo que tenha pelo menos lapsos disto do que ao contrário.

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  7. Eu sinceramente odiei a série, sinceramente, motor movido a cogumelos cósmicos? nem nos desenhos do Duck Dodgers tem coisa tão esdrúxula, até minha filha de 9 anos achou engraçado, Klingons que mais se parecem com orcs da terra média, uma salada de Star wars, Galáctica ,power rangers e um visual meio Flash Gordon dos quadrinhos da década de 30 no universo espelho. É triste ter que dizer isto, mas espero que não tenha 2° temporada. É preferível não ter mais nada de Star Trek a ter algo tão ridículo.

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