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... E o arsênio, pelo jeito, não estava lá

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Em dezembro de 2010, a pesquisadora americana Felisa Wolfe-Simon fez manchetes ao afirmar, numa entrevista coletiva patrocinada pela Nasa, que sua equipe havia descoberto uma espécie de bactéria capaz de viver sem um dos nutrientes essenciais para a vida na Terra -- o elemento fósforo --, alimentando-se, em vez disso, de arsênio (ou "arsênico": cientistas lusófonos preferem reservar o termo "arsênio" para o elemento, e "arsênico" para um composto químico que contém esse elemento). Mas a gora, dois artigos publicados na revista Science -- a mesma que trouxe o estudo original de  Wolfe-Simon -- afirmam que, não, de fato a bactéria é resistente à intoxicação por arsênio, mas ela precisa de uma pitada de fósforo para continuar viva. Aqui, duas peças de contexto: primeiro, qual a importância disso? Bem, a existência de uma forma de vida capaz de abrir mão de um dos seis nutrientes essenciais (a lista completa é: oxigênio, hidrogênio, carbono, fósfo...

Os Mundos de Philip José Farmer e eu

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Philip José Farmer (1918-2009) é meu escritor favorito de ficção científica. Quem conhece o gênero geralmente se lembra de Farmer como o cara que introduziu (sem trocadilho) o sexo na fc -- primeiro com sua novela The Lovers , e depois com uma série de contos explorando as mais estrambóticas formas de cópula, envolvendo humanos e alienígenas, alienígenas e alienígenas e, às vezes, até humanos e humanos. Esse material todo aparece reunido no volume  Strange Relations . Mas essa nunca foi, de fato, a vertente de sua obra que mais me atrai, embora eu certamente reconheça seu valor e a enorme energia imaginativa investida aí. Acontece que sempre preferi o Farmer autor de aventura . Em séries como Riverworld  e World of Tiers , ele cria planetas -- às vezes, universos inteiros -- com o que parece ser o objetivo único e precípuo de pôr o protagonista em apuros. São mundos e mais mundos que não passam de sequências de armadilhas engenhosas e vilões disfarçados. Ao mesmo tempo em qu...

Ladies and Gentlemen: o provável bóson de Higgs

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Numa nota à imprensa divulgada nesta madrugada, o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN) anunciou que dois experimentos do Grande Colisor de Hádrons (LHC) encontraram "uma nova partícula com massa entre 125 e 126 GeV". Essa "nova partícula" é provavelmente a peça que faltava para completar o Modelo Padrão das partículas elementares, o bóson de Higgs . (A unidade usada, giga-elétron-volt, é na verdade uma medida de energia, mas massa e energia podem ser convertidas uma na outra via E=mc2. Os 126 GeV correspondem, se não errei na contagem dos zeros, a 0,0000000000000000000002 gramas.) Sei que para a maioria das pessoas o grande evento histórico desta quarta-feira é o jogo do Curíntia, mas tentemos pôr a questão do bóson de Higgs em perspectiva, pois não? vamos lá: o Modelo Padrão é uma grande teoria, elaborada ao longo do século passado, que explica as relações entre luz, eletricidade e as forças que atuam no núcleo do átomo. O Modelo Padrão é, ao fim e ao...

Ciência, religião, cura gay

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A Sociedade Brasileira de Genética (SBG) emitiu nota condenando o crescimento do ensino do criacionismo -- a ideia de que os seres vivos foram criados por Deus em sua forma atual -- em detrimento da teoria da evolução, originada por Charles Darwin e Alfred Russell Wallace no século19, e de lá para cá reforçada e reformulada à luz das descobertas de áreas tão díspares quanto geologia e genética. A nota é muito importante, na medida em que marca posição num tema que deve se tornar cada vez mais candente com o crescimento do protestantismo evangélico no Brasil . Filosoficamente, ela adota uma postura que já foi majoritária nos países onde essa batalha é travada há mais tempo, com os EUA, mas que vem sendo cada vez mais criticada como, dependendo de quem se consulta, covarde, míope ou intelectualmente desonesta: trata-se da postura acomodacionista , segundo a qual não há nenhum conflito de fundo entre ciência e religião, porque, no fim, a ciência não tem nada a dizer sobre as "v...

Depois disso, só falta a Skynet

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Óquei, esqueçam o apocalipse zumbi. O apocalipse cibernético chegou antes. japoneses construíram um robô capaz de derrotar seres humanos no joquempô 100% das vezes . Na verdade, o robô trapaceia -- ele vê qual dos três instrumentos (tesoura, pedra, papel) o ser humano selecionou e só então faz sua jogada, mas com um atraso de apenas 1 milissegundo, o que é suficiente para enganar nossos pobres olhos humanos. Então, não se trata apenas de uma máquina capaz de nos vencer, como no caso dos computadores jogadores de xadrez ou de damas , mas de nos vencer sempre, jogando sujo . É o fim. Abaixo, o vídeo que prefigura nossa iminente derrocada:

Lago Ness, criacionismo e o futuro que nos aguarda

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Um leitor envia-me um e-mail chamando minha atenção para esta nota, segundo a qual uma editora de material didático dos EUA está distribuindo um livro de biologia que diz que o Monstro do Lago Ness prova que a evolução é uma fraude. Mesmo supondo, por um instante, que o monstro exista (mais sobre isso, adiante) coisa toda soa como um non sequitur , e é mesmo: a ideia geral que os criacionistas parecem querem usar é a de que, se houvesse provas de que dinossauros e seres humanos coexistiram, então o registro fóssil, como é interpretado hoje, não seria digno de confiança -- e não seria mesmo. Mas -- preste atenção, isto é crucial! -- o argumento só funciona caso haja provas de que seres humanos viviam na época dos dinossauros, isto é, antes de a espécie humana ter tido tempo de evoluir, segundo a cronologia ortodoxa. A eventual sobrevivência  de dinossauros até os dias atuais não contradiz em nada a teoria da evolução. Detalhe que, ao que tudo indica, escapou aos autores do ...

Acabou a solidão de George

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Morreu no domingo, no Equador, o último exemplar conhecido da subespécie de tartaruga gigante  Chelonoidis nigra abingdoni , Lonesome Gorge ("George Solitário"). Originalmente de uma das Ilhas  Galápagos, a espécie foi levada à extinção pela caça e, também, pela introdução de cabras na ilha, o que devastou a vegetação nativa. Claro, nem as cabras nadaram espontaneamente até a ilha, e nem foram os incas venusianos que caçaram as tartarugas até a extinção. Asteroides e convulsões geológicas acontecem de vez em quando, é fato, mas tem coisas que só o ser humano faz por você. Lonesome George já havia sido descrito como "a criatura mais rara do mundo". Tentativas de fazê-lo reproduzir-se com fêmeas de subespécies próximas nunca deram certo, e a menos que algum outro exemplar seja encontrado na natureza, ou que Tony, uma tartaruga mantida no zoológico de Praga , seja confirmado como membro da mesma subespécie, um outro produto da evolução terá ido pelo mesmo caminho do ...