Lições de um fosfofracasso

As autoridades sanitárias do Estado de São Paulo finalmente apresentaram ao público -- ainda que de forma limitada -- os resultados do teste, patrocinado por essa unidade da Federação, da chamada "fosfoetanolamina sintética" em pacientes de câncer. O desfecho foi considerado "desanimador", e com razão: de mais de 70 pacientes envolvidos, apenas um mostrou sinais de progresso.

Aqui, é importante notar que o estudo paulista foi feito sem grupo de controle, o que significa, em termos práticos, que qualquer sensação de melhora produzida -- por pura sorte, por uma mudança no ajuste do ar condicionado, por efeito placebo -- poderia acabar sendo atribuída, pelos groupies do criador da "fosfo", à substância. E nem com essa ajuda o produto conseguiu algo de chamativo para mostrar.

Muita gente se aferra à crença na "fosfo" por conta dos depoimentos das pessoas que acreditam ter sido beneficiadas pela cápsula. Uma das lições mais duras da história da Medicina, no entanto, é de que depoimentos de pacientes, mesmo envolvendo tradições milenares, significam muito pouco: podem, eventualmente, sugerir linhas de ataque e planos de pesquisa, mas a rigor não provam nada.

Durante séculos, o templo do deus Esculápio e Epidauro, na Grécia, colecionou depoimentos estelares de pessoas que acreditavam ter encontrado a cura ali. Hoje, não passa de uma ruína. Outro exemplo: por mais de 2.000 anos, plantas do gênero Aristolochia foram usadas como uma erva medicinal tanto na Europa quanto na Ásia. Egípcios, gregos, romanos e chineses tinham-nas em suas farmacopeias. Um discípulo de Aristóteles chegou a recomendar a Aristolochia clematitis como remédio para picada de cobra e insônia. Hoje, sabe-se que essas plantas são perigosas, cancerígenas.

Como explicar que tanta gente possa ter se enganado tanto por tanto tempo? O gráfico abaixo é a figura mais importante de todos os tempos para a compreensão do apelo das terapias alternativas e tratamentos populares. Sério. Sem hipérbole:



Ele vem do ensaio The Psychology of Fringe Medicine, de autoria do jornalista Karl Sabbagh, que em 1993 havia publicado o livro Magic or Medicine?: An Investigation of Healing & Healers . A linha serrilhada mostra a variação da qualidade de vida -- a percepção de saúde -- de um paciente sofrendo de alguma doença grave. Ele mostra que, embora a tendência geral (a menos, claro, que haja um tratamento eficaz e a cura ocorra) seja de pioria, essa piora raramente é contínua: há momentos de aparente remissão, e há momentos em que tudo parece desabar.

O raciocínio é o seguinte: o paciente tende a abraçar alguma terapia alternativa -- seja  Aristolochia clematitis ou fosfoetanolamina -- em algum momento como o ponto "A" do gráfico, quando tudo parece perdido. Caso ele não morra, a mera variação natural, então, tende a levá-lo ao ponto "B", e a melhora será atribuída ao tratamento. Caso ele morra -- isto é, caso o ponto "A" seja, de fato, o início da derrocada final -- basta dizer que a terapia foi aplicada "tarde demais", ou que o paciente teve azar, ou lhe faltou fé.  

O que o destino reserva, agora, à "fosfo"? A história e o gráfico de Sabbagh sugerem que ela continuará a angariar fiéis. Fiéis que votam, como os sagazes deputados estaduais paulistas já notaram. Minha previsão é de que ela irá se juntar à miríade de pseudociências que estão "à beira de" -- cujos proponentes garantem (em alguns casos, como o da homeopatia, há séculos) que "em breve", "logo mais", haverá uma reviravolta ou surgirá um experimento crucial que forçará o mainstream científico a fazer um mea culpa e admitir que aquela pseudociência não era tão pseudo assim, afinal. Tal como quem aguarda o "iminente" colapso da teoria da evolução, é bom que esperem sentados.


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Comentários

  1. Senhor Orsi, até o momento, não foi apresentado o relatório completo descrevendo o design e protocolo utilizados nesse estudo... no entanto incrivelmente o sr. que no mesmo artigo critica a credulidade nos outros em relatos de cura, aceita como prova apenas o pronunciamento de alguns envolvidos, sem se munir dos devidos documentos e artefatos descritivos da metodologia desse estudo.

    Desde o primeiro pronunciamento do dr. Paulo Hoff, membros da equipe de auditoria (que sabe lá pq não estavam na mesma coletiva de imprensa dando seu parecer oficial) se pronunciaram afirmando que a equipe do Icesp não estava seguindo o combinado...

    Nesse ponto fica a palavra de uns contra de outros... no entanto testes assim são pre registrados, para evitar a mudança no procedimento, então pq cargas d'agua o Icesp não apresentou até o momento o design do experimento assinado por ambas as partes, incluindo a equipe de auditoria?

    De forma que com esse documento previamente assinado eles não poderiam alegar que os testes não foram feitos conforme estabelecido por eles...

    Porem, o próprio parecer que o sr. esta divulgando, corrobora exatamente o que os membros da auditoria alegaram 7 meses atrás, que equipe do Icesp ministrou a substancia em uma unica vez ao dia, sendo que o necessário seria 4 vezes ao dia...
    Aliás, na falta do relatório e documentação dos voluntários, quem pode afirmar que os sistema imune dos mesmos estava funcionando o suficiente para trabalhar com a substancia?
    Pacientes recém submetidos a quimioterapia tem o sistema imune comprometido e os propositores da substancia alegam que sua eficacia depende do sistema imune...

    Me admira ver o sr. que trabalha a tanto tempo com divulgação cientifica, não prestar atenção a essas falhas bizarras...

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  2. Sr. Orsi, segue mais um update sobre a questão da fosfoetanolamina.
    Como sr. sabe, esta ocorrendo a CPI para apurar os testes feitos no Icesp, e alguns depoimentos foram disponibilizados na internet, como esse abaixo, onde se vê claramente a incoerência das respostas de uma das responsáveis pelo teste.

    O silencio de vcs, quando questionados (como anteriormente) sobre tais falhas, como por exemplo, o fato de cientistas muito bem credenciados, ministrarem as capsulas de um possível medicamento, em uma unica vez ao dia em uma dosagem que sabe lá de onde foi tirada (não fizeram a farmacocinética, como esta sendo feita agora na UFC, para saber qual a dosagem correta a se ministrar), tal silencio responde muito mais que suas afirmações cínicas do seu artigo acima...

    Eu estou apenas tentando avisar... essa historia esta mal contada, e falhas berrantes estão visíveis...
    Vai ficar feio pra vcs, acho melhor serem humildes e admitir que vcs se precipitaram em relação a divulgação dos resultados pronunciados pelo dr. Hoff.

    Segue o depoimento:
    https://www.facebook.com/1108390639288639/videos/1401397286654638/?hc_ref=ARRnEp0Vslgj_QrOzjCFTnrovHQuZJnBFoA-vaNUodvIjdpXigKPRkQO3vUTpIbf0e4&pnref=story

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Desculpe, mas a edição do vídeo é extremamente desonesta: o fato de a pesquisadora nunca ter ouvido falar na fosfo até pouco antes começar a trabalhar com o assunto não contradiz a afirmação de que ela trabalhava com uma dose indicada pelo prof. Chieriche -- afinal, o professor estava colaborando com o Icesp, certo?

      Também acho muito engraçada essa preocupação com farmacocinética agora, depois de 20 anos de distribuição da pílula numa dose tirada, exatamente, "sabe-se lá de onde".

      Excluir
    2. "...afinal, o professor estava colaborando com o Icesp, certo? "

      Não sei, há algum documento mostrando isso, como o design do experimento, informando que deveria ser 1,5 g em 3 capsulas em uma vez?
      Se tiver basta que o pessoal do Icesp apresente esse documento assinado pelo Chierice ou qualquer representante da equipe de auditoria e pronto, acaba a discussão.

      "Também acho muito engraçada essa preocupação com farmacocinética agora, depois de 20 anos de distribuição..."

      Só posso analisar o que esta sendo feito nesse momento, não me baseio nem corroboro nada que o Chierice ou qualquer outro propositor da substancia reivindica antes.
      Me limito a analisar o procedimento e verificar as falhas dos testes que agora estão a vista de todos... o sr. e demais divulgadores científicos deveriam tb se limitar a isso e parar com disse que me disse...

      Excluir

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