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Besteirol corporativo: eu no Zero Hora

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Até hoje me lembro de como fiquei chocado quando, no fim do século passado, tive em mãos um jornalzinho produzido pelo setor de marketing da agência de notícias em que trabalhava, para ser divulgado entre executivos de grandes empresas -- na época, antes do boom da internet, o principal mercado da agência eram empresas que precisavam de serviços de informação em tempo real. O primeiro impacto foi notar como o texto era ruim, mal escrito, mal ajambrado. O segundo foi decifrar, debaixo da massa ignara de anglicismos toscos e mal resolvidos (antes da esquerda nos trazer o "empoderamento", o capitalismo gerou a "monetização") e da sintaxe confusa de quem pensa em inglês ruim e escreve em português pior ainda, os significados pobres, as promessas vazias, o otimismo imbecil e a absoluta ausência de lógica. Foi ali que comecei a desconfiar que a fronteira final a ser conquista pelo pensamento crítico racional não seria a medicina alternativa, a crença na vida após a ...

Drosófila astrológica: a utilidade das pseudociências

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Como parte da pesquisa para escrever meu Livro da Astrologia , fiz uma assinatura (anual, £16) da revista  Correlation , publicada pela Associação Astrológica da Grã-Bretanha e definida pelos editores como  "um periódico de pesquisa". A Correlation é publicada há três décadas, e seus arquivos estão disponíveis, online, para os assinantes. A revista tem todas as marcas distintivas de um journal : capa sóbria e levemente desinteressante, artigos precedidos por abstracts,  cheios de gráficos e equações, uma preocupação quase obsessiva com valores-p que chegam abaixo de 0,05 (se você já está acostumado com essa conversa de valor-p, pode pular o parágrafo entre parênteses, abaixo). (O valor-p representa a probabilidade de se obter dados idênticos ou ainda mais extremos que os gerados pelo experimento, pressupondo-se que o trabalho foi bem conduzido e que a hipótese testada é falsa . Por conta disso, um valor-p baixo muitas vezes é interpretado como sinal de que seria ra...

O psiquiatra exorcista

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A falácia do apelo à ignorância  -- alegar que, já que um fenômeno X não tem explicação racional conhecida, todos deveriam aceitar a explicação irracional Y -- tem uma espécie de toque de Midas  retórico: faz arrogância insuportável soar como profunda humildade.Quem a utiliza geralmente começa declarando, humildemente, que não sabe explicar X, que na verdade ninguém sabe explicar X, para em seguida argumentar que, se você não for um cabeça-dura orgulhoso, resta a opção de aceitar que a única explicação cabível é Y. O argumentador está, em resumo, dizendo: "eu sou humilde, e se vocês forem humildes como eu, vão aceitar que estou inquestionavelmente certo e que a verdade é Y". Essa manobra toda fica muito clara no artigo "As a psychiatrist, I diagnose mental illness. Also, I help spot demonic possession" , publicado no início do mês pelo jornal The Washignton Post . Nele, o psiquiatra e psicanalista Richard Gallagher, católico, relata como se converteu numa espéc...

O estilo paranoico na política brasileira

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"Como podemos explicar nossa situação atual, a menos que creiamos que homens em altas posições deste governo estão concertados para nos levar ao desastre? Isto deve ser o produto de uma grande conspiração, numa escala tão imensa que apequena qualquer outra empreitada do tipo na história da humanidade" . As aspas acima não são de Marilena Chauí ou de Olavo de Carvalho , mas de Joseph McCarthy (1908-1957), senador americano eleito pelo Estado de Wisconsin e famoso (ou infame) por ter desencadeado a onda paranoica de "caça aos comunistas" que varreu os Estados Unidos durante a década de 50, e cujos métodos seriam, segundo a professora Chauí, a inspiração da Operação Lava-Jato. Esse trecho específico de uma fala de McCarthy é citado no hoje clássico artigo  The Paranoid Style in American Politics ("O Estilo Paranoico na Política Americana"), publicado pelo historiador Richard Hofstadter na revista Harper's em 1964. "A política americana tem fr...

Por Júpiter!

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E a sonda Juno, da Nasa, está em órbita de Júpiter! Esta é apenas a segunda missão espacial a entrar em órbita do planeta gigante, o maior do sistema solar. A primeira foi a Galileu, que ficou 14 anos, de 1989 a 2003, navegando entre Júpiter e suas luas. Antes disso, o planeta gigante já havia sido visitado, de passagem, pelas duas sondas Voyager, em 1979 (a imagem da Grande Mancha Vermelha de Júpiter, nesta postagem, veio da Voyager 1) . Diferentemente da Galileu, que produziu alguns de seus resultados mais espetaculares estudando os satélites de Júpiter -- por exemplo, a sonda obteve boa parte dos dados que sugerem a presença de um oceano na lua Europa -- Juno vai se dedicar exclusivamente ao planeta gigante, principalmente a sua composição, campo magnético e gravitacional. Como diz o material divulgado pela Nasa: "O objetivo principal da Juno é revelar a história da formação e evolução de Júpiter. A nave observará os campos gravitacional e magnético do planeta, a dinâmica...

Preservar a floresta. Que floresta?

O desmatamento costuma ser apontado como o principal responsável pela perda de biodiversidade na Amazônia, mas a perturbação que os seres humanos causam na floresta, mesmo sem derrubá-la – por exemplo, por meio do corte seletivo de árvores, do parcelamento de áreas, de incêndios florestais – pode ser tão danosa para a ecologia quanto a remoção pura e simples da mata, afirma artigo publicado na revista Nature . O trabalho, realizado no Estado do Pará e que envolveu cientistas de diversos países, com forte presença de pesquisadores brasileiros, mostrou que estimativas de impacto na biodiversidade que levam em conta apenas o desmate, sem considerar as perturbações, podem subestimar os efeitos negativos em mais de 90%. Em artigo de análise publicado na mesma edição da Nature , o pesquisador britânico David P. Edwards, da Universidade Sheffield, afirma que “os resultados sublinham a necessidade de uma mudança de passo na conservação florestal, com muito maior ênfase na saúde da floresta pre...

Pensamento positivo, cura e café fraco

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Durante séculos, o templo de Esculápio em Epidauro, na Grécia, foi o principal centro de cura do mundo antigo. Doentes dirigiam-se até lá para se submeter ao ritual da incubação. Nesse rito, os afligidos passavam a noite e dormiam numa área especial do templo, o abaton , esperando que Esculápio, o deus da Medicina, lhes aparecesse em sonho e ditasse o tratamento adequado. Arqueólogos já encontraram inúmeras placas votivas, contendo depoimentos de pacientes satisfeitos que gravaram, para a posteridade, seus sonhos divinos e curas maravilhosas. Hoje, o templo de Epidauro está em ruínas -- parte delas você vê na imagem acima --, e é considerado um Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A despeito dos séculos acumulados de depoimentos positivos e relatos sinceros de cura, não se veem mais multidões ansiosas pela próxima incubação. Corta para o Brasil, 2016. Num domingo desses, pela manhã, estava eu num hotel em São Paulo e, zapeando pela TV, parei no programa de uma igreja neopentecost...