Postagens

Truques paradoxalistas

Imagem
Pesquisando para uma postagem que fiz semana passada , encontrei uma expressão, "paradoxalistas", usada por Alfred Russell Wallace para se referir a pessoas que se recusam, teimosamente, a aceitar evidência científica que contradiz suas crenças pessoais. Wallace, especificamente, teve uma série de problemas com terraplanistas, que ele acabou processando por calúnia diversas vezes. Em sua autobiografia, Wallace se refere a sua polêmica com os terraplanistas como "o incidente mais lamentável de minha vida": depois de demonstrar, empiricamente, a curvatura ad Terra, respondendo a um desafio desse grupo, o cientista passou a ser alvo de incômodos de diversos tipos, incluindo processos judiciais e cartas difamatórias. Ele escreve no livro que o geólogo Charles Lyell acreditava que uma demonstração clara da curvatura deveria "deter esses tolos". O que, obviamente, não aconteceu. Terra plana é apenas uma faceta do paradoxalismo. A síndrome reaparece em di...

On writing

Imagem
Estava fazendo umas contas e percebi que 2018 será o ano em que mais contos inéditos meus sairão, em inglês, do que em português: além da história já publicada em Mystery Weekly , vem aí mais um na antologia A World of Horror , a sair nos próximos meses, e ainda um mistério de quarto fechado programado para a edição de maio/junho de Ellery Queen Mystery Magazine -- e esse conto acabou me trazendo um convite para colaborar com o blog da revista . Aqui o Brasil, fora as histórias antigas programadas para antologias multi-autorais, deve sair um conto novo -- se tanto. Nada disso, claro, aconteceu do dia para a noite. Comecei a arriscar textos em inglês ainda no século passado, escrevendo para fanzines. Minha primeira venda foi para a antologia  Rehearsals for Oblivion , publicada em 2006. Depois, War Stories , de 2014, e Swords vs Cthulhu , 2016. Nesse meio tempo, minha colaboração com Octavio Aragão misturando José de Alencar, Edgar Rice Burroughs e Philip José Farmer tam...

Terraplanismo, século 19

Imagem
A reemergência do movimento "terraplanista" -- que defende a ideia de que o planeta Terra é chato como uma panqueca -- neste início de século é, às vezes, citado como prova da decadência geral da mentalidade humana no novo milênio. Não deixa de ser um alívio, portanto, descobrir que as mesmas ideias -- defendidas com a mesma convicção e os mesmos argumentos furados -- já  circulavam no século 19. Uma edição de 1870 da revista Nature traz uma nota sobre uma aposta de 500 libras (algo como 56 mil libras em dinheiro de hoje , ou mais de 250 mil reais) entre um terraplanista, John Hampden, e o co-descobridor da evolução por seleção natural, Alfred Russell Wallace, para determinar a forma da Terra. Foram usados três estacas de 4 metros, espaçadas a intervalos de 5 quilômetros. Por meio de um par de telescópios, um em cada extremidade da fila de estacas, buscou-se uma linha de visada ligando a primeira estaca à terceira. A aposta dizia respeito à altura aparente a estaca d...

Vaca louca e febre amarela: apontamentos

Imagem
O livro The Oxford Handbook of the Science of Science Communication  tem um capítulo dedicado ao vexame que foi a comunicação entre cientistas, governo britânico e público durante a chamada "crise da vaca louca", desencadeada nos anos 90 quando se descobriu que uma doença neurológica, que podia afetar gado alimentado com um certo tipo de ração, era transmissível, via consumo de carne bovina, para seres humanos. Embora o foco do capítulo esteja nas lições desse episódio para a comunicação de riscos alimentares, há alguns pontos que talvez sejam úteis para quem se encontra envolvido na atual onda de incertezas e contradições governamentais em torno da febre amarela. Uma das principais conclusões do capítulo diz respeito ao elevado "risco de dizer que não há risco": se as autoridades insistem que não há perigo, ou que a situação está sob controle -- que "não há risco" -- e depois se veem desmentidas pelos fatos, sua credibilidade sofre, e a chance de ...

Ciência, tecnologia e pobreza

Imagem
Cientistas e divulgadores costumam atribuir negação ou a hostilidade à ciência a questões político-ideológicas ou religiosas. Mas, em artigo publicado na edição mais recente da revista Skeptical Inquirer , o pesquisador de comunicação científica Matthew Nisbet cita trabalhos empíricos que sugerem outros fatores que influenciam essas posturas , incluindo um que parece ser ainda mais importante do que religião ou política, na determinação do olhar -- favorável ou hostil -- do público americano diante da ciência e da tecnologia: classe social. Os mais pobres desconfiam mais, e têm mais receio, de avanços científicos e tecnológicos. "Essas pessoas podem ter uma preocupação justificada sobre como poderão competir numa economia baseada em inovação, pagar o preço dos novos avanços médicos e tecnológicos e como esses avanços poderão reforçar padrões de discriminação e outras desigualdades", escreve Nesbit. Entre as principais fontes de preocupação encontram-se a automação --...

O rebote do efeito rebote

Imagem
As controvérsias públicas em torno de questões científicas que não são mais controversas entre cientistas -- como vacinação, aquecimento global, evolução -- acabaram gerando uma questão de pesquisa dentro da psicologia e das ciências sociais: por quê? Por que a população em geral parece feliz em acatar a chamada "ciência estabelecida", definida como o consenso presente dos especialistas, em inúmeras questões, mas às vezes opta por ignorá-la, agir contra ela, negá-la violentamente, fingir que ela não existe? Não há, aparentemente, uma resposta única. A explicação default é a chamada "teoria do déficit": as pessoas negam a ciência estabelecida porque não tiveram acesso a ela, não sabem o que ela diz. A teoria do déficit muitas vezes é atacada a partir de um ponto de vista que defende um certo relativismo epistemológico: seria, digamos, politicamente incorreto insinuar (ou afirmar) que o povo é ignorante. O problema com essa crítica é que ela veta,  in limine ,...

O detox do detox

Imagem
Estamos na chamada "silly season", a "temporada tonta", em que a mídia, por falta de gente (muitos jornalistas de férias), de assunto (recesso parlamentar, pré-temporada esportiva) e atenção (leitores/espectadores na praia) começa a gastar páginas inteiras com bobagens, fazendo hora até o ano começar de verdade. É nesta época que afloram com maior intensidade as longas entrevistas com subcelebridades e videntes, as retrospectivas, os avistamentos de óvni e, claro, as chamadas "dietas detox". Não há nada errado em achar que tomar um copo de couve batida com espinafre e óleo de peixe vai aliviar a angústia existencial deixada pela comilança das últimas duas semanas, mas se você acredita que, além da purificação espiritual trazida pela penitência, esse procedimento vai causar alguma purificação física, removendo toxinas de seu corpo... sinto muito, mas não. Mesmo. O corpo humano é, no geral, bem capaz de desintoxicar-se sozinho: os rins e o fígado faz...