quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Raízes do Dieselpunk: Norvell Page

Neste fim de semana acontece, na Fantasticon, o lançamento oficial da antologia Dieselpunk, da editora Draco (a mesma do meu romance Guerra Justa, link para comprar ali em cima, à direita), que comete a temeridade de abrir com um conto -- mais uma novela -- de minha autoria.

Tenho um orgulho especial por essa novela, Fúria do Escorpião Azul, e por conta disso vou quebrar uma velha regra pessoal, a de não escrever nada sobre minhas obras ficcionais. No geral, acredito que, da mesma forma que o juiz fala nos autos, o escritor fala nos escritos; é até por isso que acho que polêmicas com críticos e leitores são meio estéreis. É bom, para arejar os ares da cultura, que críticos e leitores polemizem entre si, mas não vejo muito sentido em o autor entrar nesse samba (a menos que seja como crítico ou leitor -- dos outros, claro).

Mas, enfim, divago. O que queria dizer é que Escorpião Azul é especial, então merece virar exceção a essa minha norma idiossincrática de etiqueta. E é especial por causa do senhor mencionado no título da postagem, o inefável Norvell Page.

Page foi aquele tipo de gênio que, se não é uma invenção particular do ambiente cultural dos Estados Unidos, certamente passou por um desenvolvimento que só poderia ter acontecido por lá.

Repórter policial nos anos 20, desempregado com o "crash" de 29, reinventou-se, a partir do fim da II Guerra Mundial, como um Grande Explicador: conquistou um cargo, no governo federal americano, que consistia em redigir estudos e relatórios -- basicamente, coligir informações especializadas dos diversos ramos do governo e transformá-las em textos que leigos nos assuntos tratados -- incluindo autoridades de outros ramos da administração -- pudessem digerir. Ele redigiu relatórios até mesmo para comissões presidenciais, incluindo a que elaborou o plano decenal de saúde de 1948.

Page iniciou essa carreira de "escritor público" no Gabinete de Informação de Guerra, e nos anos 50 havia se tornado editor-chefe  de publicações para o público leigo da Comissão de Energia Atômica.

Entre 1929 e sua chegada a Washington, Page ganhou a vida escrevendo para os "pulps". Principalmente, criando aventuras para The Spider, ou O Aranha.

O personagem surgira do mesmo molde de onde já tinham vindo o Zorro e o Sombra, e da onde viriam o Batman, o Arqueiro Verde, o Sandman... Um milionário que decide pôr uma máscara e combater o mal.

Pelas mãos de Page, no entanto, esse justiceiro da alta sociedade se converteu, de protagonista de uma série de aventuras agradáveis, ainda que formulaicas, em um maníaco obsessivo, ao mesmo tempo apaixonado e atormentado por sua causa, e passou a enfrentar vilões cada vez mais distantes do estereótipo clássico do chinês megalomaníaco decidido a dominar o mundo (emboratenha enfrentado um ou dois desses, também).

Num poderoso libelo pulp contra o fascismo, o Aranha chegou até mesmo a liderar uma insurreição contra o governo do Estado de Nova York, na saga The Spider VS. The Empire State.

Ao longo de sua grande viagem psicótica pelo mundo do Aranha, Page estabeleceu diversos tropos que viriam a aparecer de novo e de novo, incluindo a ideia de uma invasão de Nova York por robôs humanoides gigantes, em Robot Titans of Gotham. A ideia, claro, virou um grande clichê dieselpunk -- o que nos traz de volta à minha novela.

Minha ideia original era fazer o Escorpião Azul inspirado, até certo ponto, no Besouro Verde (você jamais teria pensado nisso, certo?), mas enquanto escrevia, a sombra do Aranha simplesmente caiu sobre a história.

De repente, me vi destinando praticamente toda minha verba mensal para a compra de livros à importação de textos de Page. A saga do Empire State, uma trilogia, foi minha última leitura do ano passado.

O resultado é, talvez, a aventura mais movimentada, maluca e ininterrupta que já escrevi; incluindo uma combinação de paralelismo temporal e flash-backs na ação que não devem confundir demais o leitor (se confundissem, creio que o editor da antologia teria dado algum aviso!).

Entre o material de Page que obtive para me ajudar a construir o clima da história e acertar o tom dos personagens, há um volume de contos não relacionados ao Aranha,City of Corpses, que tem um posfácio escritor pelo autor, onde ele descreve suas ideias sobre literatura e o ofício de escrever.

O texto começa assim: Pessoas que falam em arte pela arte me irritam. Eu já fiz isso, mas aprendi minha lição. Hoje em dia, escrevo por duas razões: porque gosto, e porque ganho mais escrevendo ficção para editores de revistas do que escrevendo reportagens para editores de jornais.


No meio, diz isso:

Para minhas histórias do Aranha, os romances de 55.000 palavras que abrem mensalmente a revista do mesmo nome (...), tenho escrito até seis diferentes capítulos de abertura, e passado um dia inteiro para pôr as primeiras duas mil palavras no papel. Posso ter escrito oito, dez, até doze mil palavras para chegar nessas duas mil e, ainda assim, nem sempre gosto delas.


E termina assim:

Nunca produzi uma história em minha vida que não fosse simples trabalho duro. Não que a escrita em si não tivesse sido agradável, que eu tenha de suar cada palavra ou me preocupar com a ação assim que meus personagens ganham vida. Mas, em algum ponto da história, o trabalho foi duro. Conseguir a ideia, organizar a sinopse, revisar o texto, fazer uma abertura rápida que, ainda assim, passe toda a informação necessária, lutar para descrever uma cena exatamente como a vejo em minha mente.

Enfim, Norvell Page é uma inspiração em muitos aspectos. Ele morreu em 1961.