terça-feira, 10 de abril de 2012

Homeopatia, acupuntura, Torresmo e Pururuca

Os leitores daqui talvez já estejam familiarizados com a tempestade surgida em torno da publicação de nota, na edição mais recente da revista Scientific American Brasil, defendendo o uso da homeopatia como uma espécie de panaceia para os males ecológicos do planeta. A reação da comunidade brasileira de leitores levou a questão a fóruns internacionais de debate sobre ciência e pseudociência, a uma manifestação pública da editora da edição original da revista, desautorizando a publicação de textos pró-homeopáticos e, por fim, a um pedido de desculpas do editor-chefe da SciAm Brasil (que, no entanto, não menciona o puxão de orelha vindo da matriz).

Se a história serve de guia, é provável que um terceiro ato desta comédia, ainda em andamento (surgiram algumas questões pertinentes, por exemplo, quanto à seriedade e sinceridade das desculpas oferecidas pelo editor Ulisses Capozzoli) venha de homeopatas queixando-se do "fascismo metodológico" e do "clima de linchamento" engendrados pela nota. Insinuações de interesses escusos alimentados pela sede de lucro da indústria farmacêutica e da Monsanto não devem demorar muito a surgir.

(Sempre que vejo "alternativos" denunciando a fome maldita de lucro do "establishment" na tentativa de desautorizar críticas, me pergunto: homeopatas e farmácias homeopáticas vivem sob voto de pobreza, doando tudo o que ganham para caridade, por acaso?)

Mas, enfim, qual o problema com a homeopatia? e por que a blogosfera cientificamente alfabetizada se levantou contra a insinuação de reconhecimento, pela SciAm Brasil, da prática como ciência legítima? Existe um artigo recente publicado no jornal britânico The Guardian que cuida bem do assunto, mas faço um resumo aqui:

Os princípios da homeopatia foram desmentidos pela ciência: a física e a química dos últimos 200 anos negam a possibilidade de que os medicamentos se tornam mais potentes a partir de sucessivas diluições, como propõe a teoria homeopática.

A homeopatia não funciona: óquei, a teoria pode estar furada, mas isso não quer dizer que a coisa não pode funcionar. A teoria da gravidade de Aristóteles era uma bobagem, mas as pedras continuavam caindo do mesmo jeito, certo?

Bem: em se tratando de respostas terapêuticas, há uma série de cuidados que precisam ser tomados antes de afirmar qual o fator responsável por um determinado resultado: afinal, o paciente sarou por causa do remédio? ou será porque a bactéria já ia morrer, mesmo, de qualquer jeito? ou, talvez, por causa de um fungo misterioso, que estava crescendo na casca da maçã que ele comeu no almoço? Enfim, sempre que a homeopatia é estudada com o cuidado necessário para isolar o poder do tratamento, em si, dos efeitos de eventos incidentais e paralelos, o resultado é: Zero. Niente. Nada.

Essa questão da metodologia dos testes é especialmente importante porque a história está repleta de exemplos de tratamentos que os médicos juravam que funcionavam, e que os pacientes juravam que funcionavam, mas que, na verdade, eram inócuos ou, pior ainda, homicidas.

Um caso especialmente bem documentado é o de Benjamin Rush, (retrato ao lado) médico americano, um dos signatários da Declaração de Independência dos EUA -- e, segundo a Wikipedia, provável descobridor da dengue -- que, durante uma epidemia de febre amarela no final do século 18, dedicou-se heroicamente ao tratamento de seus concidadãos, atendendo mais de 100 pessoas ao dia... Só que usando sangrias e remédios à base de mercúrio, um metal tóxico.

Rush não era um maníaco, nem um sádico. Ele acreditava que estava salvando seus pacientes, e os pacientes que sobreviviam acreditavam ter sido salvos por ele. Hoje, no entanto, sabemos que muitos dos que morreram "de febre amarela" sob seus cuidados provavelmente sucumbiram ao tratamento, e que os que sararam, sararam a despeito do médico, e não graças a ele.

O mesmo tipo de fracasso metodológico que atinge a homeopatia afeta outra prática bastante popular, a acupuntura. Inúmeros estudos e revisões sistemáticas de estudos -- onde muitos trabalhos são comparados -- concluíram que a acupuntura é, na melhor das hipóteses, idêntica a um placebo. Isso significa que, cientificamente falando, para cuidar de -- por exemplo -- uma dor nas costas, tanto faz você desembolsar uma grana para ser tratado por um acupunturista qualificado quanto pedir para o(a) seu(a) namorado(a) lhe fazer uma massagem, que além de ser de graça ainda pode levar a resultados muito mais agradáveis. Também há provas de que a prática é inútil como apoio para se parar de fumar.

Isso nos traz à curiosa questão de por que, no Brasil, órgãos representativos da classe médica não só reconhecem a homeopatia como prática legítima como ainda se digladiam na Justiça para monopolizar a acupuntura.

A explicação caridosa é a de que ambas as práticas têm grande penetração cultural, as pessoas não vão parar de usá-las só porque a ciência diz que não prestam e, portanto, é melhor que fiquem nas mãos de médicos (que podem deixar o misticismo de lado e partir para um tratamento sério, caso surja a necessidade) do que na de leigos despreparados. A explicação cínica é de que modismos de saúde dão muito dinheiro, as decisões dos órgãos de classe são mais políticas do que técnicas, o brasileiro é um conciliador por natureza e, bem, já mencionei que essas coisas dão realmente muito dinheiro?

Críticas metodológicas a práticas alternativas muitas vezes atraem, como resposta, listas, apresentadas com ar ora petulante, ora condescendente, de casos em que a ciência estabelecida de uma determinada época se recusou a aceitar avanços que, no fim, mostraram-se corretos.

Um caso clássico é o da importância da assepsia: Ignaz Semmelweis, o primeiro médico a sugerir que seria melhor que os doutores lavassem as mãos ao sair de uma dissecção de cadáveres -- principalmente, se o próximo compromisso fosse um parto -- foi cruelmente ridicularizado, em sua época. Curiosamente, a opinião médica prevalente na época de Semmelweis encarava as doenças como o efeito de desequilíbrios de humores e miasmas malignos, algo muito próximo do que pensa a "medicina alternativa" de hoje.

Injustiças como a sofrida por Semmelweis podem muito bem voltar a ocorrer, claro. O ser humano é o "animal inviável", nas sábias palavras de Millôr Fernandes. Mas também é sempre bom lembrar esta frase de Carl Sagan, que cito em paráfrase: "Eles riram de Copérnico. Eles riram de Pasteur. Mas eles também riram de Torresmo e Pururuca".

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O sofrimento dignifica?

É bem possível que um dos memes mais difundidos do planeta -- aparecendo, de uma forma ou de outra, em todas as culturas, seja por meio de dolorosos ritos de iniciação à vida adulta, ou  na valorização do martírio -- seja o de que a dor e o sofrimento são, no fim e ao cabo, bons. Que o sofrimento dignifica o sofredor.

Que o castigo edifica o caráter, fortalece o espírito, engrandece, enfim, a vida. A concordância em torno desse ponto é tão grande que nele até o pensamento de Nietzsche ("O que não nos mata nos torna mais fortes") e o ethos católico ("a gestação do feto anencéfalo dignifica a mãe", nas palavras de um arcebispo) parecem convergir.

Desconfio até de que muito do desprezo com que costuma ser visto o princípio da ética utilitarista, pelo qual o importante é maximizar o prazer e minimizar a dor, deriva mais do temor de que "minimizar a dor" nos reduza todos a um bando de bundões invertebrados do que do receio de que "maximizar o prazer" converta o mundo numa Sodoma embriagada.

Essa admiração atávica pelo sofrimento não deixa de ser curiosa, porém. Afinal, tudo indica que a evolução nos fez capazes de sofrer exatamente porque a dor é aversiva: comportamentos que causam dor nos animais são comportamentos danosos. Ao fazer o animal sofrer, o comportamento passa a ser evitado, e com isso os animais capazes de sofrer vivem mais e têm mais filhos. Faz sentido, então, que a dor seja respeitada. Mas, admirada? Valorizada? Por quê?

A ideia de que a dor, de alguma forma, edifica ou enobrece me parece ter três fontes principais: a primeira é a constatação de que o sofrimento prepara para o sofrimento. É importante, por exemplo, que as crianças aprendam a lidar com a frustração, se esperamos que se tornem adultos funcionais. A dor funciona como uma espécie de vacina moral. Mas, se analisarmos com cuidado esse caso, veremos que usá-lo para considerar que o sofrimento, em geral, é, "no fundo", bom faz tanto sentido quanto achar que um vírus é bom porque, sem ele, não teríamos uma vacina para evitar a doença que ele mesmo causa!

Se dores pequenas nos preparam para os grandes malogros, isso não muda o fato de que, idealmente, o melhor seria que não houvesse dores ou malogros -- da mesma forma que a eficácia das vacinas não torna a existência das doenças infecciosas desejável.

A segunda fonte é o fato de que, como costuma acontecer com os produtos da evolução, nossa capacidade de sofrer e de sentir dor não é perfeitamente ajustada ao fim a que serve, mas é apenas boa o suficiente. Se a dor que sentimos ao tocar uma chama acesa é compreensível em sua funcionalidade -- fazendo-nos recolher a mão rapidamente, e ensinando-nos a não encostar mais no fogo no futuro -- a dor de um paciente terminal de câncer, ou o sofrimento psicológico prolongado após a morte de um ente querido, por exemplo, são mais difíceis de enquadrar num esquema teleológico, onde tudo que se dá destina-se a um determinado fim.

Acontece, porém, que quando alguma coisa ocorre sem razão aparente, seres humanos tendem a inventar uma razão para ela. Assim nascem os mitos, e entre eles, o mito de que toda dor "é para o seu próprio bem", que ganha reforço da ideia, ainda extremamente popular, de que o Universo é regido por uma consciência benevolente. Então: se o mundo é bom e se eu sofro, conclui-se que é bom que eu sofra.

Em linhas gerais, numa curiosa inversão da máxima machista de que "O homem não sabe por que bate, mas a mulher sabe por que apanha", o ser humano não sabe por que apanha, mas o Universo sabe por que está batendo -- e o motivo é sempre o melhor possível. Mesmo que o sofrimento seja atribuído a demônios, na maioria das mitologias populares da atualidade eles só agem com autorização do poder benevolente maior.

 Se esse enquadramento da questão muitas vezes consola e, até, acalma, ele também dá margem a muita perversidade.

Das torturas da Inquisição, passando por toda uma gama de tratamentos "médicos" tóxicos e repugnantes e pela relutância de certos hospitais religiosos, no século 19, em adotar o parto sob anestesia (afinal, o próprio Deus havia decretado: "Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos"), a ideia de que a dor "é merecida" ou "para o seu próprio bem" provavelmente foi a que mais justificou crueldades em toda a história humana.

Este é, no entanto, um preço que muitas pessoas estão dispostas a pagar para fugir das conclusões alternativas: a de que o Universo é deliberadamente cruel, ou a de que o Universo não está nem aí.

A terceira fonte é a constatação de que a capacidade de suportar dor é um sinal de força e um agregador de status. A dor, nesse caso, é valorizada como um elemento de teste, uma peneira, aquilo que "separa os homens dos meninos". Grupos -- de gangues juvenis a sociedades inteiras -- valorizam a dor como sacrifício, como prova de até onde uma pessoa está disposta a ir pela coletividade a que pertence.

Pela dor o indivíduo se eleva acima do grupo e, se o sofrimento é entendido como um sacrifício em nome da coletividade, o sofredor conquista, pelo princípio da reciprocidade, a prerrogativa de exigir que o grupo realize certos sacrifícios (no limite, honras póstumas) em seu benefício. Essa é a dor dos mártires e dos heróis, a dor que, em tese, "dignifica".

No entanto, é preciso notar que a dignidade que vem do sacrifício não é um valor absoluto. Depende, crucialmente, dos códigos do grupo e da ética pessoal: a morte do homem-bomba pode ser uma fonte de honra aos olhos de seus correligionários, mas não passa de um crime obsceno aos olhos do mundo.

E também que a dignidade, por relativa que seja, não reside no sofrimento em si, e sim na disposição voluntária de enfrentá-lo. A própria tradição cristã reconhece isso: do suor de sangue no Jardim de Getsêmani às vidas de santos que preferiram a tortura e a morte à apostasia, a ênfase está na escolha livre e informada.

Só isso já permite pôr de lado, como uma estupenda arrogância (quando não, puro sadismo), a pretensão de se ditar quais, a priori, são os sofrimentos "dignificantes" e, ainda mais, de usar o argumento da "dignificação" para impor comportamentos em lei. Quem sofre porque a lei não lhe dá escolha além de sofrer não é herói. É vítima.