sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Mais uma métrica para qualidade científica aí, gente

Publicada na revista Science, uma análise estatística da produtividade de milhares de pesquisadores de diversas áreas, bem como do impacto dos artigos desses cientistas, mostra que os trabalhos mais influentes distribuem-se de modo aleatório ao longo da sequência de publicações de cada carreira individual, embora os cientistas mais bem- sucedidos acumulem mais publicações, com maior impacto, nas primeiras duas décadas de atividade científica.

Numa tentativa de modelar os parâmetros que regem as principais métricas usadas na avaliação institucional de pesquisadores, os autores, da Europa e dos Estados Unidos, buscaram separar os efeitos da sorte e do mero volume de publicações sobre o impacto geral da careira, e chegaram a um fator, que chamaram de “Q”, que “captura a capacidade de um pesquisador de tirar vantagem do conhecimento disponível de modo a ampliar (Q > 1) ou reduzir (Q < 1) o impacto de um artigo α”.

O valor de “Q”, diz o artigo, é constante ao longo da carreira do pesquisador. “O modelo obtido pressupõe que cada cientista seleciona ao acaso um projeto com potencial pα, e o aperfeiçoa com um fator Qi que é exclusivo do cientista, resultando num artigo de impacto. Publicações de impacto verdadeiramente alto, portanto, são resultado de um cientista de alto Qi selecionar, por sorte, um projeto de alto pα; qualquer cientista, independentemente de seu parâmetro Qi, pode publicar artigos de baixo impacto ao selecionar um pα baixo”. (Esta nota faz parte da coluna Telescópio do Jornal da Unicamp)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dia dos Mortos


Vida, diz uma anedota, é uma doença sexualmente transmissível que leva inevitavelmente à morte. As únicas certezas do Universo, pontifica um dito popular, são a morte e os impostos (alguns brasileiros miliardários parecem ter encontrado formas de escapar do Fisco, mas a Magra não parece sensível à propina). A morte é o grande equalizador, o ponto onde todo acabaremos nos encontrando, o fim do tempo, onde todos os sonhos se tornam irrealizáveis, as ambições, irrelevantes e os arrependimentos, inúteis. O dia em que morremos é o único dia de nossas vidas sem um amanhã. O que gera, é claro, a questão de como lidar com isso.

Minha solução favorita é a sugerida por Epicuro: a morte não é um problema para o morto, porque existir é uma pré-condição para se ter problemas, e morrer é deixar de existir. Essa não é, no entanto, uma solução popular: a vaidade humana, somada ao apelo intuitivo do princípio da indução -- se todos os dias têm um amanhã, menos o último, é fácil supor que esse também terá --, gosta de fazer com que nos imaginemos eternos.

Não é só vaidade, por certo. Há também o egoísmo: não gostamos da ideia de que pessoas que são importantes para nós podem nos deixar de uma vez por todas. A ideia de que elas se mantêm disponíveis em algum outro lugar, mesmo depois de mortas, é reconfortante. Então, a crença na vida após a morte é apenas uma mistura glorificada de vaidade e egoísmo?

Bom, essa é a minha opinião. Existem diversas outras por aí, a maioria delas levando a conclusões diametralmente opostas, e que são sustentadas por antigas tradições culturais e bibliotecas inteiras de tratados filosóficos. E há também aqueles que, não satisfeitos com o pronunciamento de santos e sábios, apelem para a ciência.

O fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20 assistiram a um verdadeiro tsunami de testes científicos da chamada "hipótese da sobrevivência da alma". Foi uma onda gigante de entusiasmo que acabou quebrando contra o rochedo da realidade, produzindo muito mais espuma do que clareza: depois de descartadas as fraudes, os mal-entendidos e a autoilusão pura e simples (como a do chamado efeito ideomotor), os detritos que restaram sobre a praia não foram suficientes para convencer quem já não estivesse predisposto a tanto.

Não que não houvesse resultados intrigantes. Em seu livro Search for the Soul, o mágico americano Milbourne Christopher relata alguns episódios. Em 1907, por exemplo, um médico do Hospital Geral de Massachusetts, Duncan McDougal, publicou um artigo em que afirmava ter conseguido detectar uma variação na massa do corpo humano no instante da morte -- o que seria o diferencial causado pela partida da alma. Mas a integridade dos dados, das conclusões (e da ética) de McDougal revelou-se altamente questionável.

Em 1921, Hereward Carrington propôs o uso de uma câmara de nuvens, similar à usada por físicos para capturar a trajetória de partículas subatômicas, a fim de detectar o movimento da alma para fora do corpo de animais de teste. Resultados iniciais aparentemente positivos, no entanto, logo foram explicados como a mera detecção dos gases da decomposição do animal, e não da "matéria intra-atômica" do espírito.

A exposição das fraudes cometidas pela médium americana Mina Crandon -- que buscava reconhecimento de seus poderes sobrenaturais pela revista Scientific American -- por Harry Houdini e, depois, por um grupo de investigadores da Universidade Harvard pelo pai da paraspsicologia, J.B. Rhine, na segunda metade da década de 20, pôs fim à era do grande interesse popular pelo estudo "científico" da vida após a morte. Esse interesse seria revivido, décadas mais tarde, pelos relatos do médico Raymond Moody sobre "experiências de quase-morte", mas o consenso científico logo decidiu que as experiências apontadas por Moody e seus seguidores podiam ser explicadas como meras alucinações.

Aliás, Near-Death Experiences Are Hallucinations é exatamente o título de um dos capítulos do livro The Myth of An Afterlife ("O Mito de uma Vida Após a Morte"). Organizado pelo filósofo Michael Martin e pelo pesquisador Keith Augustine, o livro busca apresentar o "estado da arte" atual da ciência e da filosofia não-teológica a respeito da possibilidade da existência (e sobrevivência) da alma humana. O veredicto é negativo.

Além de críticas ao trabalho de Moody e seus seguidores, os autores dos diferentes capítulos se debruçam sobre estudos a respeito de reencarnação, mediunidade e apresentam os resultados da neurociência atual que apontam que a atividade mental e a atividade cerebral têm uma conexão íntima e necessária -- não se pode ter a segunda sem a primeira: se o cérebro morre,  a mente vai junto.

Outras figuras eminentes do mundo científico apontam para a mesma conclusão: em seu mais recente livro, The Big Picture, o físico Sean Carroll afirma, logo na introdução, que a compreensão atual das ciências físicas permite excluir de vez coisas como "telecinese, astrologia e vida após a morte".

O que tudo isso quer dizer? Se você gosta de manter sua metafísica separada da sua ciência, não muita coisa. Se você gosta de invocar a ciência para justificar suas crenças pessoais, talvez um bocado. E se você prefere manter suas crenças pessoais alinhadas ao consenso científico, talvez signifique um chamado a repensar algumas coisas e, quem sabe, um convite para estudar Epicuro.

Mas a mesma ciência que nos rouba a vida após a morte pode oferecer algo semelhante, um similar material, a nossos entes queridos.

Em seu livro I Am a Strange Loop, o pesquisador Douglas Hofstadter sugere que, se pensamentos são padrões de atividade cerebral, então quando tentamos pensar como outras pessoas -- quando tentamos entender como elas sentiriam ou compreenderiam uma determinada situação -- estamos, de um modo bem concreto, simulando suas mentes em nossos cérebros. Se a mente é um padrão de atividade cerebral, ao recriar o padrão de outra pessoa em meu cérebro, estou recriando a mente dela, ou ao menos uma parte.

Os mortos ressuscitam quando nos lembramos deles e, com eles, compartilhamos nossos pensamentos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Lições dos deuses astronautas

Minha fé na humanidade sofreu um novo abalo neste fim de semana. E não estou me referindo ao resultado do segundo turno das eleições municipais brasileiras, mas sim à realização, na Califórnia, da primeira AlienCon, a convenção anual de fãs do programa de TV Alienígenas do Passado. Para quem não está ligando o nome à pessoa, trata-se daquela série interminável do History Channel sobre como este ou aquele artefato arqueológico, mito antigo ou evento histórico representa um sinal de interferência de civilizações alienígenas nos caminhos da humanidade.

A noção de "alienígenas do passado" ou "deuses astronautas" tem uma história relativamente curta -- data do início do último século -- mas convoluta. As primeiras especulações a respeito costumam ser atribuídas ao jornalista americano Charles Fort, de onde foram incorporadas à ficção de HP Lovecraft, que por sua vez teve seu trabalho reaproveitado como "não-ficção" na obra francesa O Despertar dos Mágicos, que acabou inspirando Erich von Däniken e seu atroz Eram os Deuses Astronautas?. A obra de Von Däniken, por sua vez, acabou gerando toda uma indústria, da qual a AlienCon é apenas a manifestação mais recente.

Há algo de didático nas apresentações das teorias sobre alienígenas do passado, ainda que tendam a se tornar tediosas pela repetição. Tratem elas das Linhas de Nasca, do Mapa de Piri Reis, de bombas atômicas na Índia antiga ou discos voadores bíblicos, todas partem do mesmo erro -- o de tentar encaixar o passado num esquema de referências ancorado na imaginação e no repertório disponível no presente: o fato de uma imagem evocar uma nave espacial ou um astronauta quando vista com os olhos de hoje não implica que ela tivesse o mesmo referente séculos atrás. 

Um caso típico aparece no exemplo ao lado, em que uma pintura rupestre pré-histórica encontrada na Itália se deixa confundir, com um pouco de imaginação, com uma ilustração de astronautas do tipo visto nas histórias em quadrinhos de meados do século 20. 

Se levada a sério, a "semelhança" exigiria uma explicação para o fato de alienígenas avançadíssimos usarem uma tecnologia análoga à imaginada por desenhistas como Mac Raboy

Um exemplo diverso do mesmo efeito de descontextualização por anacronismo é o das imagens de "viajantes do tempo" falando em telefones celulares que volta e meia são encontradas em filmes antigos, mas que na verdade mostram pessoas da época usando um tipo primitivo de aparelho de surdez.

Outro ponto de didatismo involuntário que surge da AlienCon é esta entrevista com o criador do programa Alienígenas do Passado, Kevin Burns, em que ele defende o, digamos, "padrão jornalístico" de seu produto. Diz ele:

"Talvez haja pseudociência apresentada por alguns dos teoristas. Não há dúvida de que algumas das teorias apresentadas pelos entrevistados são, mesmo para mim, forçadas, Ou, não sei se são verdadeiras. Eles acreditam que sejam verdadeiras. Permito que nossos apresentadores falem com base em suas próprias pesquisas, suas próprias observações e suas próprias crenças. Aceito a palavra deles. Tudo o que dizemos é que "se isso é verdade, então aquilo também pode ser". Trabalho duro, junto com os produtores do show, para garantir que o narrador nunca diga nada que não seja absolutamente factual. Por exemplo, se a narração diz que um fato ocorreu em 1923, ele aconteceu em 1923. Se ele diz que a ciência oficial acredita em X, então a ciência oficial acredita em X."

Existem umas duas ou três teses de doutorado em Comunicação Social e ética jornalística encapsuladas no parágrafo acima. Uma delas mostra como a diferença entre o espetáculo pseudocientífico e o jornalismo dito "sério" é diminuta. 

Nada do que Burns defende em sua fala  estaria fora de lugar numa grande redação contemporânea.  A ideia de que a busca objetiva da verdade pode ser substituída pela mera crença na "sinceridade" das fontes; a alegação de que a ênfase numa espécie de precisão mecânica -- "se dizemos 1923, foi 1923" -- permite que se cometam imprecisões de contexto ("se isso é verdade, então aquilo também pode ser") muito mais graves; a certeza de que é correto lavar as mãos quanto à qualidade e acuidade do conteúdo veiculado, em nome da liberdade de opinião ("Permito que nossos apresentadores falem com base em suas próprias pesquisas, suas próprias observações e suas próprias crenças") são todos padrões encastelados na mídia em geral.

No fim, Alienígenas do Passado é apenas uma extensão lógica do bom e velho jornalismo declaratório a que estamos todos acostumados.