sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Birlstone, Conan Doyle e a mãe de todos os spoilers

Só para lembrar: neste sábado, 4 de fevereiro, a partir das 15h30, na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulisa, haverá o lançamento da antologia de contos Sherlock Holmes - Aventuras Secretas, da Editora Draco, que co-organizei com Marcelo Augusto Galvão, e da qual participo como autor de um conto e da introdução.

E é sobre a introdução que quero falar aqui. Nela, menciono que no romance Vale do Terror, última narrativa longa estrelada por Holmes, Arthur Conan Doyle traz ao mundo* o "Gambito Birlstone", uma manobra dee prestidigitação narrativa que permite virar o enredo de um romance de mistério de ponta cabeça bem diante dos olhos, estupefatos, do leitor. Lá eu não digo o que o gambito é, mas apenas afirmo que ele já virou uma espécie de clichê.

Ellery Queen, por exemplo, usou-o à exaustão em seus romances iniciais, sempre com novas e criativas variações mas, em essência, retornando à marcação estrita deixada pelo mestre britânico. E em seu romance The Viaduct Murder, de 1925, o padre Ronald Knox já tirava sarro do truquezinho.

E eis que ontem, revendo um episódio da primeira temporada de Law & Order: Criminal Intent (que só deixou de ser minha telessérie favorita quando parou de ser sobre as investigações de Robert Goren e passou a ser sobre as psicoses de Robert Goren), lá estava o gambito, me olhando na cara: minha mulher me deu uma cotovelada discreta quando, depois de reconhecer o truque, desvendei o crime trinta minutos antes do fim do episódio.

Então resolvi, aqui na intimidade do blog, revelar o que deixei no ar na introdução do livro -- o que, afinal, é o tal gambito. Se você é o tipo de pessoa que valoriza mais a sensação de inesperado e de surpresa do que a forma exata com que esses fatores são construídos, continuar lendo a partir deste ponto vai estragar irremediavelmente a boa fruição de uma infinidade de filmes, livros e HQs.

Agora, se você tem um apego maior à forma como as histórias se estruturam do que exatamente aos eventos relatados, conhecer Birlstone pode tornar a experiência muito mais completa, intelectualmente falando. De qualquer modo, o gambito Birlstone é a mãe de todos os spoilers!

Ainda comigo? Óquei. Eu avisei. Eis o gambito:

Quando a vítima do homicídio tem o rosto destruído, é porque ela é outra pessoa, e a vítima pretendida está realmente viva, mas escondida. Simples assim. Um filme clássico, todo construído em torno da ideia, é Laura (Otto Preminger, 1944).


No gambito clássico, a suposta vítima luta com o assassino enviado para matá-la, mata-o, troca de roupas com ele e dá no pé. Mas as variações são inúmeras: o tipo inescrupuloso que mata um inocente e usa o cadáver para despistar seus perseguidores; a vítima inocente morta por engano enquanto a vítima pretendida  se encontra ausente; e outras.

Na época em que se deliciava em usar o gambito, Ellery Queen especializou-se em "provar" que a identidade do morto era indiscutível, apenas para destruir a prova em seguida. À medida que outras formas de identificação (DNA, digitais) avançam, a reciclagem do clichê se torna mas difícil, mas sempre é possível encontrar soluções criativas para -- por falar em clichê -- os desafios da modernidade.


* na verdade, ele já havia usado uma versão menos elaborada do truque num conto anterior, O Construtor de Norwood. Mas foi a aparição em O Vale do Medo a que levou o efeito mais longe, e a que ficou célebre.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Vídeo do lado oculto da Lua

Acho que já escrevi isso antes, mas vamos lá: a despeito do que o Pink Floyd possa pensar, a Lua não tem um "lado escuro" (onde nunca bate Sol) mas um "lado oculto" (que nunca vemos). Quando é Lua Nova aqui, o Sol está brilhando sobre o lado oculto. A lua tem áreas escuras, no fundo de crateras próximas aos polos, mas isso é outra coisa.

 As primeiras imagens do lado oculto foram feitas por sondas russas, na época em que parecia que os soviéticos tinham chance de bater os americanos na Corrida Espacial.

Agora, pare para pensar nisso: um hemisfério inteiro da Lua, nunca antes visto por nenhuma criatura terrestre, revelado pela primeira vez, milhões de anos após o surgimento dos primeiros seres vivos capazes de contemplar os céus, graças ao esforço de meros seres humanos.

Se isso não traz lágrimas aos seus olhos, suma daqui. Agora. E não volte mais.

O vídeo acima é uma animação feita a partir de imagens do par de sondas Grail, da Nasa. Apelidadas de "Ebb" e "Flow" (algo como "Fluxo e Refluxo"), as duas sondas vão mapear a gravidade da Lua. Com as duas sondas percorrendo a mesma órbita, pequenas variações na distância entre uma e outra permitirão aos cientistas determinar a intensidade do puxão gravitacional de cada fração da superfície lunar e, assim, deduzir várias coisas sobre o interior do satélite (por exemplo, áreas que escondem depósitos minerais extremamente densos, ou eventuais espaços vazios).

Na animação, a imagem vai do polo norte ao polo sul da face oculta. Divirta-se. E maravilhe-se.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Que tal cobrar pela sacola plástica?

Moro em Jundiaí (SP), cidade que se arroga a posição de primeira no país (ou no Estado?) a abolir a distribuição de sacolas plásticas em supermercados. Vocês, meus leitoras mais cosmopolitas, não imaginam como foi duro aguentar o chapabranquismo da mídia local -- "Capital paulista se curva à política sustentável de Jundiaí", etc. -- quando a tal da lei das sacolinhas foi aprovada e finalmente entrou em vigor em São Paulo.

Acho que ninguém nega que as sacolinhas plásticas comuns são um pepino ambiental. São feitas de petróleo, duram para sempre, entopem bueiros, poluem rios, vão para o mar e acabam indo boiar na Grande Mancha de Lixo do Pacífico, onde eventualmente acabam asfixiando até a morte algumas pobres tartarugas marinhas de espécies ameaçadas de extinção (mais detalhes no livro World Without Us).

(Ou talvez não: um blog em defesa das sacolas cita um artigo curioso a respeito no Times de Londres.)

Do ponto de vista amplo e abstrato, portanto, abolir as sacolinhas não é uma má ideia. Mas, até aí, abolir os automóveis particulares também não seria, mas o fato é que não vivemos num mundo amplo e abstrato, mas particular e concreto. E, nesse mundo, a questão das sacolinhas esbarra em dois obstáculos: 1. o costume da população e 2. a viabilidade das alternativas.

A questão do costume é especialmente penosa de tratar. Não é muito difícil encarar os participantes de campanhas do tipo "quero minha sacolinha plástica" com a mesma mistura de exasperação e desprezo com que foram vistas as pessoas que entraram na Justiça contra o rodízio de automóveis na capital paulista em nome do "direito de ir e vir", ou os donos de restaurante que, ameaçados com a proibição do consumo de tabaco em seus estabelecimentos, de repente se converteram em campeões dos princípios da livre iniciativa e da liberdade individual.

(A mim, essa gente sempre soa como passageiros da primeira classe do Titanic, reclamando da falta de champanhe nos botes salva-vidas, ao mesmo tempo em que empurram mulheres grávidas para a água a fim de fazer espaço para mais um colega de fraque. Eu até acho que a batalha do apocalipse será travada pelos defensores da autonomia individual lutando contra a ingerência totalitária de igrejas e Estados, mas, como dizem os gringos, enough is enough.)

Bem: acontece que o costume existe, e geralmente é mais fácil mudar um regime político do que um hábito cotidiano arraigado.

Sobre o segundo ponto, o das sacolas supostamente biodegradáveis, existe um bom índice da discussão nesta postagem do blog Discutindo Ecologia. Resumindo: há fortíssimas suspeitas de que a emenda acaba sendo pior que o soneto.

Mas, se o fim das sacolinhas é desejável e as sacolas biodegradáveis são suspeitas, a solução óbvia parece ser convencer as pessoas a usar sacolas reaproveitáveis em suas compras -- sacolas de ráfia, de lona, como as velhas sacolas de feira, por exemplo, além de mochilas, bolsas, malas e até sacolas plásticas mais grossas e resistentes.

Essa parte de "convencer as pessoas" é mais complicada, já que voltamos à questão da mudança de hábitos e costumes. Mas que tal tentar pelo bolso?

Falando sobre minha experiência de consumidor jundiaense, confesso que sempre me espantava, antes da proibição, com a prodigalidade da distribuição das velhas sacolinhas gratuitas: não era raro um empacotador (quando empacotadores havia) colocar apenas um ou dois produtos por sacola, quando, pelo tamanho e resistência, cada uma delas poderia comportar quatro ou cinco (ou cinco ou seis). A superabundância gerava gratuidade, que gerava desprezo, que gerava desperdício. E daí para os bueiros, os mares e (talvez) as tartarugas...

Então, talvez o problema real não esteja nas sacolas, ou no material de que são feitas, mas no fato de serem gratuitas. E se, em vez de receber sacolas plásticas gratuitamente, as pessoas tivessem de comprar "créditos de sacola", mais ou menos como a indústria europeia compra "créditos de carbono"?

Isso passou a acontecer, de certa forma, com a cobrança pelas sacolas ditas biodegradáveis!

É bem provável que o verdadeiro impacto ambiental positivo (se houver) das medidas de coibição das sacolinhas depende mais do fato de elas terem um preço do que de qualquer outra dessas coisas que tanto se andam discutindo a respeito, por exemplo, se o ciclo de produção do plástico é menos poluente que o do papel, ou se a sacola biodegradável é mesmo biodegradável.

Se isso for verdade, no entanto, a sacola biodegradável vira uma espécie de fetiche (ou fraude), sem efeito prático para além do de mudar a economia das sacolinhas em geral. O que não deixará de ser curioso.