sexta-feira, 11 de março de 2011

Mais um avanço médico para o Vaticano dar palpite...

Sou só eu que acho a maioria das questões bioéticas envolvendo óvulos e embriões são, na verdade, não-questões, que só chamam atenção porque a mídia insiste em dar voz a uma intensa claque obscurantista, descendente ideológica do mesmo pessoal que, no século XIX, era contra o uso de anestesia no parto, porque no livro do Gênese fica claro que Deus faz questão que as mulheres sofram ao dar à luz (Gn 3:16)?

A dúvida me ocorre diante deste despacho da agência Reuters, dando conta de que médicos britânicos aperfeiçoaram uma técnica que permite transferir o núcleo de um óvulo humano fecundado para outro óvulo, do qual todo o material nuclear foi previamente extirpado.

A técnica permite usar fertilização in vitro para evitar doenças transmitidas pelo DNA mitocondiral. Que, como o nome diz, existe fora do núcleo celular, nas mitocôndrias.

Para além das questões éticas envolvidas em qualquer tipo de nova intervenção médica -- é seguro? os benefícios superam os riscos? -- o procedimento criado pelos britânicos pode fazer acender luzes de alerta na cabeça da turma que adora ver distopias biotecnológicas a cada esquina por, pelo menos, dois motivos.

O primeiro é que crianças geradas de acordo com essa nova técnica terão três pais biológicos: os doadores do DNA nuclear e a doadora do DNA mitocondrial. Aposto minha camiseta do Chuck Norris que isso ainda vai virar novela de Glória Perez, tipo Tarcísio Meira descobre que a Deborah Secco é a doadora do óvulo onde foi implantado o núcleo do embrião que ele gerou com a Vera Fischer.

(Vera Fischer não está mais em idade fértil? bolas, desde quando esse tipo de detalhe deteve a Glória Perez?)

O segundo é que a técnica de transferência nuclear é "filhote" da usada para criar Dolly, a ovelha clonada, em 1996. O fato de esse procedimento estar pronto para ser usado em embriões humanos sugere que a clonagem humana é uma possibilidade técnica cada vez mais próxima. E clonagem humana é, claro, a porta do apocalipse; o pesadelo final. Meninos do Brasil e etc. e tal.

E eu realmente me pergunto por quê. Um clone humano seria apenas mais uma pessoa, com direitos e deveres iguais aos das outras pessoas.

A maioria das distopias envolvendo clonagem partem do princípio de que haveria algum tipo de desumanização social dos clones. Mas o problema, então, não está na tecnologia biológica ou em seu emprego -- e, sim, no comportamento da sociedade em relação a ambos.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Buraco negro no Olho de Sauron

Não, não se trata de um crossover entre Star Trek e Senhor dos Anéis, e sim de uma imagem gerada pelo Observatório Chandra de Raios X, a saber:


Descendo aos detalhes picantes: esta é uma foto da região central da galáxia NGC 4151, apelidada de "Olho de Sauron" pelos astrônomos -- depois vem gente reclamar dos estereótipos em Big Bang Theory -- localizada a 43 milhões de anos-luz de nós.

Sua principal atração turística é o buraco negro ativo no núcleo. A "pupila" azul do olho é formada pelos raios-X emitido pela matéria que cai no buraco. O contorno vermelho são emissões de ondas de rádio. Mais detalhes sobre a galáxia e o buraco negro (bem como outras versões da foto acima) podem ser obtidos aqui.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Como o pênis humano perdeu seus espinhos

Não consigo deixar de imaginar que não é mera coincidência a Nature publicar este artigo na mesma semana do Dia Internacional da Mulher.

Cientistas analisaram 510 sequências de DNA que são muito comuns em chimpanzés e outros mamíferos, mas que desapareceram do genoma humano. Esses trechos sumidos são regulatórios -- controlam a intensidade da expressão de outros genes. Um desses pedaços que faltam no genoma humano, por exemplo, tem a função de impedir o crescimento de certas partes do cérebro.

Mas o que realmente chamou atenção foi o sumiço de uma sequência que administrava um gene ligado ao controle hormonal masculino.

Aparentemente, sem esse fragmento específico, os homens não desenvolvem bigodes sensíveis -- como o dos gatos -- e espinhos no pênis.

Diversas espécies de mamíferos têm machos equipados com isso: espinhos de queratina, que se fixam no interior da vagina durante o coito. De acordo com este artigo sobre o cio dos felinos, "é incerto se, no momento da remoção do pênis, a gata grita de dor ou de prazer". É possível que os espinhos ajudem a estimular a ovulação, e tornem a cópula mais curta.

O sumiço dos espinhos, portanto, permite um intercurso mais prolongado, possivelmente menos traumático para a fêmea e, se a tese da ovulação estiver correta, reduz a probabilidade de gravidez.

Você pode ler mais sobre o assunto neste despacho da Reuters. De minha parte, fico me perguntando: se o ser humano foi criado por um designer inteligente e se esse designer realmente queria que o sexo fosse reservado para a reprodução, por que os gatos têm esses espinhos e a gente, não? Talvez os gatos sejam o verdadeiro objeto da criação! (JBS Haldane tinha apostado nos besouros, mas agora fiquei na dúvida).

Nós realmente precisamos de raízes?

A noção de "origens" ou "raízes" -- culturais, sociais, genéticas, etc. -- é um fetiche caro tanto ao discurso de esquerda quanto ao de direita, ainda que cada um dos lados do espectro político seja bastante seletivo quanto ao tipo de "raiz" que deve ser valorizado (as tradições dos "povos oprimidos" num caso, as "raízes cristãs da Europa", no outro, por exemplo).

O apelo às raízes tem um poder retórico e emocional tão forte que muitas vezes surgem disputas sobre qual a "verdadeira raiz" disso ou daquilo: afinal, quem estava primeiro na Palestina, árabes ou judeus? A civilização evoluiu a partir de uma organização matriarcal ou patriarcal? O cinema (a literatura, a música, o teatro) que Fulano ou Beltrano faz é "nacional" ou "colonizado"? A figura do herói que "reencontra suas raízes" e, por meio delas, triunfa, é um dos clichês mais cansados de toda a ficção.

(Há alguns anos, quando foi levantada a hipótese de que os índios da América do Norte teriam sido os autores do genocídio de uma população ainda mais antiga de habitantes do continente, a disputa deixou rapidamente as publicações sobre arqueologia e antropologia e virou um cavalo de batalha político.)

Sem negar que o poder que a ideia de "raízes" tem de emocionar, motivar e mobilizar, eu me pergunto até que ponto ela realmente faz sentido -- e até que ponto ela não passa de apenas mais um fator de manipulação dos afetos, uma bandeira vazia de conteúdo e que pode servir tanto para mobilizar belas revoluções quanto verdadeiros pesadelos (todo o discurso de Hitler, afinal, nascia do mito das "raízes arianas" do povo alemão).

Resumindo: é honesto invocar o conceito de raízes, ou ele não passa de mais uma falácia, como o ad hominem (o que Fulano diz não deve ser levado a sério porque ele é homossexual/negro/branco/hererossexual, etc.)?

O apelo à tradição é uma falácia conhecida: aceitar que X, Y ou Z é verdadeiro ou correto porque era nisso que nossos antepassados acreditavam equivale a validar o geocentrismo, o sacrifício humano e a escravidão. Esse é o ponto em que o caráter falacioso das "raízes" fica evidente: ele exige o corte -- arbitrário -- de um ponto da história a partir do qual nossos ancestrais estavam errados.

Mas se eles estavam errados quando diziam que era certo ter escravos, porque não estariam errados também quando diziam que era preciso ir à missa? Imagino que as mesmas pessoas que hoje gritam em defesa das "tradições cristãs da Europa", contra os avanços do islã e do secularismo, teriam gritado pelas "tradições pagãs do Império" diante do avanço do cristianismo, uns 1.500 anos atrás.

Tanto o apelo à tradição quanto o apelo às raízes se valem da noção de identidade de grupo para obter boa parte de sua força. É o apego a certas tradições e a posse de raízes (reais ou míticas) que permitem que uma pessoa se sinta e se declare um brasileiro, argentino, cristão, muçulmano, judeu.

Também são tradições e raízes que permitem que alguns códigos de comportamento bastante úteis à vida em sociedade (respeito aos mais velhos, às senhoras, modos à mesa, etc.) continuem existindo sem que seja preciso criar leis para impô-los.

Não estou, no entanto, convencido de que "identidade de grupo" seja algo tão valioso assim. Olhar para o outro como "um argentino", "um negro", "um burguês", "um americano" é algo que desumaniza. Considerar-se membro de um grupo à parte do restante da espécie, por sua vez, desumaniza os que estão fora desse círculo.

Uma crítica, que me parece muito pertinente, ao programa de "preservação de culturas locais" é a de que ele reduz populações humanas a exibições de zoológico: vamos deixar aqueles primitivos ali isolados, com dentes podres, morrendo de tétano aos 15 anos de idade e sem a menor noção de tudo o que a humanidade criou e tem a oferecer, enquanto estudamos de longe seus maravilhosos costumes.

Me parece  óbvio que culturas e modos de vida não devem ser impostos à força a ninguém -- mas um corolário disso é o de que as pessoas devem ter o direito de escolher livremente um modo de vida alternativo ao que lhes foi legado por acidente de nascimento.

Se as escolhas dos nativos de uma determinada cultura levarem à extinção dessa cultura, e daí? Pessoas são seres concretos, dotados de direitos.  Culturas são abstrações, sem direito a nada.

A questão dos códigos de comportamento me parece ter mais mérito. Sou um apreciador das boas maneiras, mas certamente não gostaria de ver a polícia impondo-as a golpes de cassetete. Mas é falsa a dicotomia entre Estado ou tradição -- a ideia de que, sem um ou outro, a convivência social torna-se insuportável.

Códigos de conduta e contratos informais de reciprocidade -- as bases do comportamento social -- surgem e evoluem a partir da interação entre seres racionais, e não há motivo para imaginar que um dia venham a desaparecer um dia, mesmo se o arcabouço mitológico que sustenta algumas formas já testadas e aprovadas vier a ruir.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Bactérias em meteoritos? Esperemos para ver

O pesquisador Richard Hoover, da Nasa, acredita ter encontrado sinais de que  bactérias viveram no interior de pelo menos três meteoritos -- quando esses meteoritos ainda eram parte de asteroides girando pelo espaço. A hipótese e as evidências oferecidas em apoio não foram publicadas numa revista científica de grande prestígio, no entanto, e sim no Journal of Cosmology, uma publicação online conhecida por dar apoio a propostas altamente especulativas, quando não francamente visionárias, e talvez não num bom sentido (como esta tentativa de desprovar o Big Bang).

Em comparação, a possibilidade de o meteorito marciano ALH 84001 conter traços de vida extraterrestre foi apresentada, em 1996, na revista Science, um dos mais ortodoxos meios de divulgação de ideias e estudos científicos -- e a autenticidade da descoberta ainda é debatida até hoje, com novos argumentos em torno da questão tendo sido apresentados em 2009.

Assim como no caso de ALH 84001, a tese de Hoover depende de uma série de estruturas, semelhantes a tubos, encontradas nos meteoritos, e que se parecem bastante com vestígios de bactérias. As imagens abaixo mostram um dos tubos internos do meteorito e, depois, uma bactéria real. Compare:






Tendo em vista o precedente, o destino do trabalho de Hoover parece ser também uma longa controvérsia, e por dois motivos: primeiro, demonstrar que uma origem biótica para os tubos é mais provável que uma origem química ou mineral; e, depois, demonstrar que os seres vivos responsáveis pelos tubos realmente trabalharam no espaço e não foram micróbios terrestres que entraram nos meteoritos depois da queda.

Sobre esse último ponto, Hoover escreve:

"Muitos dos filamentos mostrados nas figuras estão claramente integrados à matriz rochosa do meteorito. Consequentemente, conclui-se que os filamentos (...) não podem, logicamente, ser interpretados como cianobactérias filamentosas que invadiram o meteorito após sua chegada. Eles são, portanto, interpretados como vestígios nativos de microfósseis que estavam presentes na matriz rochosa do meteorito antes de sua entrada na atmosfera da Terra."


Ele está certo? É cedo para dizer, e ao menos por enquanto a hipótese merece ser tratada com ceticismo. Muita gente está ansiosa pela descoberta de vida fora da Terra (eu, por exemplo) e a ansiedade é, no geral, uma criadora de ilusões e péssima conselheira.

domingo, 6 de março de 2011

Não, Virgínia, a ciência não encontrou provas de precognição

Confesso que desde novembro do ano passado eu vinha esperando algum veículo da imprensa brasileira resolver divulgar, de forma sensacionalista, o artigo "Feeling the Future: Experimental Evidence for Anomalous Retroactive Influences on Cognition and Affect", de autoria do pesquisador Daryl Bem e que relata nove experimentos que testaram a capacidade humana de prever o futuro -- alguns dos quais, segundo o autor, obtiveram resultados positivos.

Com os meses passando e o relativo silêncio sepulcral na mídia tupiniquim -- entre as exceções, houve um artigo bem ponderado e nada sensacionalista de Hélio Schawrtsman -- eu já estava quase começando a me sentir culpado por esperar o pior.

(Adendo: o iG publicou uma extensa entrevista com Daryl Bem em janeiro; e agora em março a revista Mente e Cérebro trouxe artigo a respeito. Isso é pra eu aprender a não fazer mais afirmações categóricas sobre o que saiu ou deixou de sair por aqui...)

 Mas, confirmando o dito de H.L. Mencken, segundo o qual pensar mal dos outros pode ser um pecado, mas raramente será um erro, eis que neste domingo de carnaval encontro a IstoÉ nas bancas com a seguinte chamada de capa: Premonição Existe.

O tempora! O mores!


Não nego que o trabalho de Bem pudesse servir de pauta para uma boa reportagem -- uma que mencionasse, por exemplo, as críticas duras feitas por James Alcock aos métodos estatísticos utilizados, as ressalvas de Richard Wiseman à metodologia ou o fato de a mesma revista que publicou o trabalho de Bem ter trazido uma crítica à forma como o cientista analisou seus dados.

Nada disso, no entanto, aparece na IstoÉ: ali, os resultados do psicólogo americano simplesmente são usados como "gancho" -- isso é jargão jornalístico para "pretexto para estarmos tratando deste assunto exatamente agora" -- para apresentar números sem significado algum e partir para "relatos humanos" de "casos reais" de precognição.

A matéria diz que "segundo o trabalho realizado em 2008 na Universidade de São Paulo, 71,5% relataram premonição através de sonhos". Mesmo descontando a óbvia possibilidade de "retrofiting" -- a pessoa ter um sonho qualquer e, depois de um evento ocorrer, vir a interpretá-lo arbitrariamente como premonitório -- o dado só teria valor se fosse comparado ao número de sonhos que essas mesmas pessoas tiveram sobre o futuro e que não se concretizaram. Eu mesmo, uns dias antes de me casar, sonhei que entrava pelado na igreja. Essa premonição, felizmente, não se cumpriu.

Descrever em detalhe os nove estudos realizados por Daryl Bem seria uma tarefa enorme (quem quiser conhecer as minúcias pode se divertir com a análise caso-a-caso feita por James Alcock, linkada acima), mas  apenas para dar uma noção do sabor geral, vou resumir um dos trabalhos.

Nele, voluntários viram uma série de palavras aparecerem numa tela de computador, e depois tiveram de digitar as de que se lembravam.

O computador em seguida selecionou parte das palavras apresentadas originalmente. Se os voluntários tivessem se lembrado de mais palavras que viriam a constar da lista selecionada, considerou-se que tivessem sido capazes de prever a ação da máquina. Como Wiseman notou, esse estudo tem uma vulnerabilidade fundamental: a correção dos erros de digitação. Por exemplo, se o computador apresentou a palavra "CAR" e o voluntário digitou "CAT", isso é um erro de digitação, ou o voluntário confundiu as palavras?

(Bem respondeu a essa crítica dizendo que o fator de correção pode ser ignorado em tentativas de replicar o experimento.)

Outro experimento, que concluiu que as pessoas têm capacidade de prever quando e onde uma imagem erótica será exibida, tem um protocolo tão confuso que, a despeito do interesse intrínseco, não vou me dar ao trabalho de apresentar aqui.

Por fim, como é bem notado no Skeptic's Dictionary, mesmo se os experimentos de Bem tivessem sido metodologicamente inatacáveis, estatisticamente perfeitos e executados sem falhas -- a parapsicologia tem uma longa história de experiências que parecem perfeitas no papel, mas de execução relaxada -- a única coisa que eles teriam demonstrado seria uma série de anomalias estatísticas: coisas que aconteceram com mais (ou menos) frequência do que se esperava.

Restaria ainda, portanto, a tarefa de determinar o que teria causado anomalia. Para afirmar com confiança que ela foi provocada por precognição ou premonição, seria preciso replicar os resultados dos estudos diversas vezes, de forma independente e com controles estritos.

Tentativas de replicação estão em andamento, mas os resultados não estão parecendo nada promissores. Portanto, não vá contando com o jogo do bicho para pagar as contas. A ciência, a despeito do que andam dizendo por aí, não recomenda.