sexta-feira, 8 de março de 2013

Conan Doyle para o Dia da Mulher

Minha humilde sugestão para este Dia Internacional da Mulher é a leitura de um conto de Sir Arthur Conan Doyle. Algo um tanto quanto raro em sua época, Conan Doyle tinha um grande respeito -- simpatia, até -- por mulheres trabalhadoras, como fica claro no grande número de clientes femininas de Sherlock Holmes que eram, não duquesas ou imperatrizes, mas secretárias, babás, governantas. Essa característica tinha, provavelmente, raiz autobiográfica: o pai, Charles Altamont Doyle, era um alcoólatra que passou a maior parte da vida internado, o que forçou a mãe de Conan Doyle a tomar as rédeas da família. Além disso, as irmãs do escritor acabaram, por força das circunstâncias, tornando-se jovens profissionais.

Também, é claro, não podemos deixar de notar que Holmes foi sido derrotado apenas uma única vez, nas crônicas do Dr. Watson -- e por uma mulher.

Conan Doyle escreveu muito mais do que as aventuras do Grande Detetive, no entanto. Uma de suas obras menos lembradas, hoje em dia, é a coletânea de contos Round the Red Lamp, com histórias envolvendo médicos e medicina ("red lamp", lâmpada vermelha, é uma alusão à luz que os doutores deixavam acesas no lado de fora de suas casas, como aviso que que ali atendia um médico). E uma das histórias dessa coletânea, The Doctors of Hoyland, fala de uma mulher que decide praticar a medicina numa cidadezinha do interior da Inglaterra, enfrentando, principalmente, o preconceito do médico-macho tradicional do lugar.

O conto chama atenção por ser extremamente simpático à personagem feminina, e também por levantar questões que estão mal resolvidas até hoje, como o dilema (real ou aparente) entre carreira e família. Longe de ser um manifesto feminista -- a história segue firmemente enraizada nas tradições vitorianas --, é uma leitura leve que ajuda a pensar em como ideias importantes da atualidade desenvolveram-se, a partir de um estado embrionário e com inúmeras idas e vindas, ao longo dos últimos cento e poucos anos.

O link para uma edição online de The Doctors of Hoyland pode ser encontrado aqui. Quem preferir baixar uma cópia PDF da edição original de 1894 pode achar o arquivo aqui. Boa leitura!

quarta-feira, 6 de março de 2013

A maldição de Noé, a África e os negros

Há muita coisa a lamentar sobre a eleição de Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, e muitas críticas pertinentes estão sendo feitas por gente muito mais preparada do que eu para debater a fundo a miséria da política brasileira. Da parte que me toca, o que realmente chama a atenção é o uso que o deputado-pastor (ou pastor-deputado) fez do desfecho da narrativa bíblica do Dilúvio para "explicar" os problemas atuais do continente africano e o racismo que sofrem os povos de etnia africana.

O Dilúvio bíblico é, como imagino que todo mundo que se interessa pelo assunto sabe, um "fanfic" baseado na história, inserida no Épico de Gilgamesh, de Utnaphistim, o homem que sobreviveu ao dilúvio universal provocado pelos deuses e que acabou premiado com a imortalidade.

O que menos gente talvez saiba é que a narrativa bíblica, tal como aparece no capítulo 7 do Gênese, é na verdade uma fusão de duas versões conflitantes: numa delas, Noé leva um par de cada espécie de animal para a Arca; em outra, ele leva um par de cada espécie "impura", e sete pares de espécies "puras", aparentemente para ter uma sobra para realizar sacrifícios.

Também há o problema da duração do dilúvio: o verso 17 diz que foram 40 dias, mas o verso 24 diz que foram 150 dias. De acordo com Robert Alter, autor da tradução comentada The Five Books of Moses, o editor original do texto tentou harmonizar as duas versões, "mas tensões permanecem". Uma interpretação caridosa da questão 40/150 é a de que teria chovido por 40 dias, mas as águas teriam levado outros 150 (ou 110?) para baixar.

Essa questão de "editor original" e "diferentes versões" talvez requeira esclarecimento. Os cinco primeiros livros da Bíblia -- Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio -- são conhecidos coletivamente como Pentateuco, e sua autoria é, tradicionalmente, atribuída a Moisés. Agora, há sérias dúvidas sobre se Moisés sequer teria existido (mais detalhes no meu Livro dos Milagres), quanto mais se teria tido condições de escrever cinco livros onde, entre outras coisas, são narrados sua morte e sepultamento.

A ideia mais aceita hoje, entre estudiosos que não têm uma agenda sectária para defender, é a de que os livros foram escritos por pelo menos quatro diferentes autores -- ou grupos de autores, cada grupo partilhando de uma ideologia e de uma teologia particular -- e os textos posteriormente fundidos por um redator ou editor. Contradições e conflitos são fruto do choque entre as fontes.

Bom, mas o que o Dilúvio tem a ver com a África e o racismo? O caso tem a ver com um dos mais persistentes enigmas da Bíblia, a maldição lançada por Noé sobre o neto, Canaã.

O motivo do autor para fazer Noé amaldiçoar Canaã parece bem óbvio: israelitas e caananitas eram povos inimigos, e ter o patriarca mítico dos caananitas amaldiçoado pelo (re)fundador da raça humana era uma mão na roda, em termos de propaganda política. A associação entre Cão (pai de Canaã) e a raça negra, no entanto, serviu a uma motivação política que vem de fora do contexto bíblico: justificar a escravidão dos negros pelos europeus. Ela foi um argumento forte, principalmente, entre os povos protestantes de língua inglesa e, mais ainda, no sul escravocrata dos EUA pré-guerra civil.

Como escreve David Goldenberg em The Curse of Ham: Race and Slavery in Early Judaism, Christianity, and Islam, "obviamente o texto bíblico não descreve ninguém como negro", mas "todos presumiam que Ham [uma transliteração alternativa do nome Cão] era negro e tinha sido afetado, de algum modo, pela maldição da escravidão. Não importava se a pessoa era a favor ou contra a instituição da escravidão do negro, ou se a pessoa era negra ou não; todo mundo, nos EUA do século 19, parecia acreditar na verdade da negritude de Ham".

A associação entre Cão (ou Ham) e a negritude, na mente europeia e, depois, americana, vem de uma peça de etimologia: pelo menos desde o século 18 que autores como o monge beneditino Augustin Calmet, famoso por ter escrito um tratado sobre vampiros na Europa Oriental que acabou devidamente esculhambado por Voltaire, diziam que o hebraico "ham" significava "queimado" ou "escuro". E a África é um continente  quente, e os povos de lá têm pele escura... Outra possibilidade, aventada ao longo dos séculos, seria a de "ham" representar uma corruptela do nome antigo do Egito ("Khem") ou uma raiz que significa "servo". Mas, depois de uma longa análise filológica, Goldenberg conclui que a etimologia precisa do nome ainda está em aberto, e afirma:

"Uma coisa, no entanto, fica absolutamente clara. O nome Ham [Cão] não tem relação nenhuma com qualquer palavra hebraica ou semítica significando "escuro", "preto" ou "calor", ou com a palavra egípcia para "Egito". Para os antigos hebreus, portanto, Ham não representava o pai da África quente e negra, e não há nenhuma indicação, no relato bíblico, de que Deus quisesse condenar os povos de pele  escura à escravidão".

O que nos deixa com a sugestão de que a bancada evangélica deveria atualizar suas fontes de exegese.

Mas o maior enigma da história da maldição de Canaã é: por quê? O que o pai de Canaã, Cão/Ham, fez de errado, e por que a maldição recaiu sobre seu filho, Canaã, e não sobre ele? Aqui, como dizia o Dr. Watson, a trama se complica.

Os versículos sobre a maldição são os seguintes:

E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos seus irmãos no lado de fora. / Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos estavam virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. / E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera. / E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos. / E disse: Bendito seja o SENHOR Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. / Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. 
(Gênesis 9:22-27)

Agora, o que cazzo está acontecendo aí? Cão vê o pai nu, avisa os irmãos, os irmãos vestem o pai, o pai fica puto sabe-se lá o motivo e amaldiçoa o neto, que nem estava por perto? hein? 

"Ninguém jamais descobriu o que Cão fez a Noé", escreve Alter em seu comentário ao Pentateuco. Versões populares (mas tão extrabíblicas quanto a associação entre Cão e os povos de etnia negra) dão a entender que o filho teria tirado sarro da cara do pai (Noé tinha caído de bêbado), daí o castigo. Mas essa explicação aparece num livro apócrifo, A Caverna de Tesouros, datado do século 6 EC.  

Lendo os versículos com atenção, fica claro que Cão fez alguma coisa com o pai, e alguma coisa que deixou vestígios: "E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera". O que nos traz ao maravilhoso mundo dos eufemismos sexuais da Bíblia!

O Pentateuco fala muito em sexo e órgãos genitais, só que não o faz de modo explícito. Pênis e vaginas são normalmente chamados de "pés" e "coxas" -- quando Abraão diz ao servo "põe tua mão debaixo de minha coxa", antes de extrair dele um juramento solene, o que ele está dizendo é "jure segurando meu pinto", o que devia ser um tipo de voto especialmente grave. Ainda que, suponho, desconfortável. Ou, de repente, o servo era um cara boa-pinta. Sei lá.

Entre os vários eufemismos usados para descrever o ato sexual -- além do infame "conhecer" -- estava, precisamente, "ver a nudez de". Com esse dado em mente, o trecho "E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai" ganha uma conotação atroz. 

Trata-se, sem dúvida, de um crime digno das piores maldições, mas ainda não explica por que a praga recairia sobre o neto, Canaã, e não sobre o autor da violação. Uma midrash -- interpretação do texto bíblico feito por eruditos judeus -- sugere que o texto pode encobrir uma castração, como no arquétipo clássico de Zeus e Crono. Assim, se Cão tivesse privado o pai da possibilidade de ter mais filhos, faria sentido (ou, ao menos, o tipo de "sentido" que aparece nesse mitos) Noé amaldiçoar a descendência do autor do crime.

Alter sugere que todo o episódio da maldição pode muito bem encobrir tradições politeístas conhecidas pela audiência original da história, mas que o autor monoteísta não quis descrever por completo. 

terça-feira, 5 de março de 2013

Natural, tradicional... e daí?

Informa-nos a Folha de S. Paulo de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estuda relaxar as regras para o licenciamento de produtos fitoterápicos: em vez de terem de comprovar cientificamente que são seguros e eficazes, os remédios baseados em plantas de "uso tradicional" teriam, apenas, de comprovar "segurança". Em outras palavras, para pôr um medicamento fitoterápico no mercado não seria mais necessário provar que ele funciona mas, apenas, que não é veneno -- ao menos, não na dose recomendada na bula.

Esse negócio de provar "segurança", mas não "eficácia", é a mesma brecha já explorada pelos vendedores de fórmulas herbais de emagrecimento que tanto colaboram com a receita publicitária das revistas femininas. Se você se der ao trabalho de ler as letrinhas miúdas no rodapé do anúncio, abaixo das pernas razoavelmente bem tornadas da obscura modelo-e-atriz em trajes de ginástica, elas dizem algo mais ou menos assim: "Este produto não é um medicamento. Sua eficácia não foi comprovada em estudos científicos". Que é exatamente o oposto do que o anúncio dá a entender. É de se imaginar por que as pessoas que fazem isso não vão procurar um trabalho mais honesto, tipo vender plutônio para a Al-Qaeda.

Agora, remédios em geral têm de provar que são seguros E eficazes por duas razões bem simples: para que as pessoas não morram ao tomá-los e para que as pessoas não sejam fraudadas pelos fabricantes. Ainda assim, mesmo com todas as salvaguardas científicas, volta e meia alguma coisa escapa, seja por erro, azar ou má-fé: o anti-inflamatório Vioxx é um exemplo recente.

Bem, enfim. Temos todo um sistema de salvaguardas montado para evitar que fabricantes inescrupulosos nos entupam de pílulas coloridas que não servem para nada (a menos, claro, que elas atendam pelo nome de "homeopatia", mas essa é outra história). Por que desmontá-lo, então, especificamente no caso dos fitoterápicos?

Um motivo, aliás citado no texto da Folha, é o de que muitos fitoterápicos têm "uso tradicional". Se a vovó recomenda chá de seiláoquê para prisão de ventre, e a vovó da vovó recomendava também, alguma coisa deve ter aí, não?

Bem, sim, talvez tenha. Mas, até aí, incontáveis gerações de vovós também diziam que lavar o cabelo durante a menstruação cegava, que masturbação fazia crescer pelo na palma da mão que misturar manga com leite traria resultados horríveis demais para se contemplar.

O chamado "conhecimento tradicional" pode ser um bom indicador de pontos de partida para pesquisa, mas se ele fosse suficiente -- se fosse realmente "conhecimento" -- a humanidade não teria se dado ao trabalho de inventar o método científico. Não se trata de desprezar a informação transmitida pela tradição, mas de buscar confirmá-la por métodos mais válidos e seguros dos que os que insistem que misturar manga com leite faz mal, ou que mulher menstruada jamais deve lavar os cabelos. E é exatamente desse passo, de confirmação, que agora se fala em abrir mão. Por quê?

Um outro motivo é a chamada "falácia naturalista": se vem da natureza, é bom. Isso ignora, claro, o fato de que vírus, bactérias e incontáveis venenos são, todos, produtos naturais. No caso de medicamentos fitoterápicos de uso tradicional, a questão torna-se ainda mais espinhosa, porque quem cai na falácia naturalista tende a ver esse tipo de produto como intrinsecamente "mais seguro" do que a versão sintética, o que é uma bobagem.

Uma molécula ativa é uma molécula ativa é uma molécula ativa, não importa se está na folha de uma planta ou num tubo de ensaio. Com o agravante de que, numa formulação fitoterápica, é mais difícil controlar a dose com precisão: é por isso que, ao menos segundo a Wikipedia, a digitalina deixou de ser usada como fitoterápico.

O terceiro motivo, possivelmente o mais forte, é econômico. Comprovar a segurança e a eficácia de um medicamento é um processo lento e custoso. A indústria farmacêutica -- e estou falando da grande indústria farmacêutica -- não cansa de se queixar disso. Levar uma molécula terapêutica ao mercado pode consumir décadas e custar milhões de dólares. Fazer testes em seres humanos representa um verdadeiro pesadelo ético e burocrático.

Nesse aspecto, os fitoterápicos teriam, sobre as novas moléculas sintéticas, a vantagem da tradição: uma planta usada há gerações para combater determinado sintoma pode ter mesmo alguma eficácia; e, mesmo se for só uma crendice, algo que não funciona, ora bolas, e daí? Pelo menos a pessoa tem o alívio psicológico de estar sendo tratada. Aqui, o que fica em relevo é a questão ética de alimentar esperanças de alívio que podem ser falsas e, no limite, de fazer o paciente pagar para ser enganado.

Existe um problema, muito real, envolvendo os custos e os prazos para a liberação de medicamentos. Esse problema não é só brasileiro, mas global. Entre as soluções propostas, há a de o Estado subsidiar parte dos testes clínicos, e também a de relaxar os critérios -- liberando, por exemplo, os medicamentos assim que forem considerados seguros, permitindo que entrem no mercado ao mesmo tempo em que ocorrem os testes finais de eficácia.

Mas este não é um problema exclusivo dos fitoterápicos, e não há motivo razoável para privilegiá-los no debate: no caso do relaxamento da prova de eficácia, se as plantas têm a tradição a seu favor, os medicamentos sintéticos têm os testes de laboratório e em animais. A decisão final é eticamente complexa nos dois casos.