quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Bactéria da Peste Negra não era tão má assim

Parece a sinopse de um filme estrelado por Vincent Price, mas é um artigo publicado na Nature: cientistas conseguiram reconstituir o genoma da cepa original da bactéria Yersinia pestis, responsável pela Peste Negra do século XIV, a partir de quatro esqueletos de vítimas da epidemia desenterrados em Londres.

Se algum vilão maluco resolver usar esse genoma para criar bactérias letais e se vingar que um mundo que não o compreende e o despreza, no entanto, seu sucesso será, na melhor das hipóteses, limitado: a comparação do genoma da bactéria medieval com o da versão atual indica que "o aumento de virulência percebido durante a peste negra" não parece relacionado à conformação genética do micróbio: outros fatores, como o ambiente e a suscetibilidade das vítimas, foram mais importantes.

Agora, vamos dar uma olhada no que isso significa: uma praga que, ao longo de apenas cinco anos, eliminou de 30% a 50% da população da Europa não foi causada por um supermicróbio. A Yersinia pestis da hecatombe de 1347–1351 não é pior que a Y. pestis de hoje, ao menos até onde os autores do estudo na Nature foram capazes de deduzir. Dado o fato de que não temos carroças de cadáveres purulentos sendo arrastadas pelas ruas hoje em dia, fica a pergunta: como assim?

Os pesquisadores não vão fundo na questão em seu paper, limitando-se a enumerar outros fatores que, além da virulência do agente patogênico, podem influenciar a severidade de uma epidemia: genética da população afetada, interação com outras doenças, condições sanitárias e sociais, dinâmica da população de vetores (ratos, no caso da peste) e condições climáticas.

Resumindo, a ideia é que epidemias não só acontecem (de repente aparece um micróbio violento, ou uma população desenvolve uma vulnerabilidade genética específica) como também são feitas (pela falta de esgotos, aglomeração urbana, hábitos, cultura, mudança climática). 

Trata-se de uma constatação meio óbvia, quando paramos para pensar no assunto, mas este é um óbvio que deveríamos ter o cuidado de não perder de vista.




terça-feira, 11 de outubro de 2011

Crime e castigo no campo de futebol

Jogadores de futebol cavam mais faltas quanto mais perto estão do gol do time adversário; faltas cavadas são mais comuns quando o jogo está empatado; e árbitros são péssimos em detectar faltas cavadas, o que estimula o uso da tática.

Não, não se trata de uma estatística da ESPN, mas dos resultados de um estudo de biologia sobre a evolução da enganação, realizado por pesquisadores baseados na Austrália e publicado online no periódico PLoS ONE. Os cientistas usaram o futebol como um modelo para testar algumas previsões tiradas da teoria da evolução a respeito da prevalência do comportamento desonesto.

Entre essas previsões, há a de que a desonestidade deve ser mais rara quando é mais "cara" (confirmada pela constatação de que os jogadores cavam menos faltas quando perto do próprio gol); mais comum quando os benefícios potenciais são altos (confirmada pelo fato de que mais faltas são cavadas perto da área do time adversário); quando o benefício potencial é mais valioso (confirmada pela constatação de que faltas cavadas são mais comuns quando o jogo está empatado -- o benefício sendo, portanto, a vitória).

Outras duas previsões, no entanto -- a de que punição deveria inibir o uso da manobra desonesta, e a de que, quanto mais usada, menos recompensada a desonestidade seria -- acabaram gerando resultados que os autores consideraram surpreendentes.

Quanto à punição, dos 169 casos de jogadores se jogando para cavar falta analisados pelos pesquisadores, nenhum foi punido pelo árbitro. Já a esperada perda de eficácia pelo excesso de uso acabou sendo desmentida pelos fatos: quanto maior o número de faltas cavadas, maior o número de cobranças concedidas ao time do cavador.

O fator limitante aí, sugerem os autores, é a capacidade de discriminação do árbitro, e a estimativa dessa capacidade pelos jogadores. Em outras palavras, se o juiz parece (ou efetivamente é) fácil de enganar. Os fatos de uma falta cavada ser só muito raramente punida e de o árbitro ser facilmente engabelado reduzem os custos e aumentam as recompensas potenciais desse comportamento.

Esse laço entre qualidade do árbitro e prevalência da "cavação" é sustentado pela correlação entre número de faltas cavadas, número de faltas cavadas que rendem benefícios ao time do jogador desonesto e liga. A estrutura de ligas do futebol australiano não reflete exatamente um sistema de divisões como do futebol brasileiro, mas a Liga A é considerada a elite, e é nela que há menos benefícios para cavadores de faltas ("dive", ou "mergulho", é o jargão para falta cavada em inglês):



Partindo da suposição de que os melhores árbitros devem gravitar para as melhores ligas, a conexão se fecha. Os autores também propõem a hipótese de que os jogadores das ligas inferiores são melhores em fingir faltas (um talento dramático extra para compensar a falta de talento com a bola?).

No fim, o estudo conclui que "o uso de sinais desonestos por jogadores de futebol é livre de custos, e a manutenção da honestidade sob conflito de interesses depende de como os receptores respondem, e aos resultados potenciais para os enganadores". 

Em outras palavras, o princípio de que o comportamento desonesto tende a ser sempre raro depende da capacidade de detectar a enganação, fundamentalmente por parte de de quem tem o poder de punir. Como no futebol esse "poder" fica concentrado nas mãos do árbitro, a situação pode desequilibrar-se facilmente. Já na sociedade em geral, esse "poder" é mais difuso -- só a polícia prende, é verdade, mas as pessoas podem impor diversas sanções informais (e às vezes custosas) umas às outras.

Os autores terminam o artigo expressando a esperança de terem demonstrado a utilidade de se aplicar modelos não-humanos ao comportamento humano. Eu acho que eles também demonstraram a necessidade de se usar videoteipe para punir jogadores que cavam falta, mas essa é outra história...



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O "deus dos teólogos" e o "deus dos ateus"


 O “Deus dos teólogos”, ri-se Eagleton, não tem nada a ver com a caricatura grosseira que os “novos ateus” tanto atacam.
Essa é uma crítica tão recorrente que, à moda de Goebbels, já começa a ser levada a sério até mesmo entre pessoas que deveriam estar mais bem informadas. Por isso, peço licença para me deter um pouco nela.
Vejamos como Eagleton define esse “Deus dos teólogos”. Esse Deus é “absoluta e gloriosamente inútil”; é a “condição e possibilidade de toda e qualquer entidade, não sendo ele próprio uma entidade”; se o mundo é o melhor que Deus pode fazer, sentencia nosso pio autor, “seu talento, cá entre nós, deixa muito a desejar”. Por fim, Eagleton considera simplória e risível a presunção de que “ter fé neste Deus significa acima de tudo aderir à proposta de que ele existe” (...)

Para ler a íntegra de meu artigo sobre as críticas de Terry Eagleton a Richard Dawkins e Chrisptopher Hitchens, visite o site Amálgama!