sexta-feira, 15 de abril de 2016

Este blog não vai curar seu câncer

Uma objeção que encontro com frequência cada vez maior, toda vez que me posiciono sobre a histeria da fosfoetanolamina/"pílula do câncer" que vem se propagando com a cumplicidade irresponsável de parte da mídia e, agora, do próprio governo, é a de que "não se deve negar nenhuma esperança de saúde a pacientes de câncer".

A frase, e variações que dizem em essência  a mesma coisa, é postada em redes sociais e aparece em caixas de comentário, muitas vezes acompanhada da insinuação -- ou a acusação direta -- de que só um monstro insensível ou um tecnocrata arrogante com uma planilha Excel no lugar do coração poderia pensar em negar a um doente "uma chance de cura".

O que há de errado nesses apelos ao sentimento? Duas coisas.

Primeiro, ele deixa em aberto o ponto crucial de quem decide o que é "esperança de saúde" ou "chance de cura". Basta dar na EPTV? Se eu sair por aí falando que as romãs do meu jardim curam câncer, isso vira uma "esperança de saúde" para os pobres coitados que acreditarem em mim? Como separamos "esperanças" e "chances" verdadeiras de fraudes, mentiras, enganos?

Segundo: o apelo ao sentimento faz vistas grossas ao mal que certas falsas esperanças e chances impossíveis trazem, não só ao paciente, mas à sociedade em geral.

O título desta postagem é inspirado no da obra This Book Won't Cure Your Cancer, autobiografia do jornalista britânico Gideon Burrows. Diagnosticado com um câncer inoperável no cérebro que vai crescer inexoravelmente atá matá-lo, Burrows relata, no livro, como foi pressionado por amigos e parentes a tentar "qualquer coisa" contra a doença porque, afinal, "uma esperança é melhor que nada".

Primeiro, Burrows menciona como algumas pessoas insistiram para que ele procurasse um cirurgião que aceitasse operar seu cérebro, mesmo depois de três outros -- o médico do sistema público de saúde, depois um especialista particular e, por fim, um professor universitário -- terem declarado que o câncer era inoperável. Não seria melhor continuar em busca de alguém que lhe desse esperança?

A resposta do autor: dada a unanimidade dos diagnósticos e prognósticos anteriores, qualquer médico que olhasse para os exames e chegasse a uma conclusão diferente seria, muito provavelmente, um charlatão ou um incompetente. Melhor ficar longe desse tipo de gente.

Em seguida, ele fala dos amigos e colegas que vinham sugerir "qualquer coisa" -- mudanças de dieta, ervas, o curandeiro que ajudou a tia Petúnia -- e filosofa sobre como essa ideia de que, no desespero, "qualquer coisa" é válida não faz o menor sentido: e se me dissessem que estourar cem balões vermelhos vai curar meu câncer, eu deveria estourá-los?, pergunta-se. Claro que não, responde, porque é absurdo. Aqui vale a pena citar suas palavras literais:

"Não posso culpar as famílias que sofrem, os pacientes que estão morrendo, aqueles que quando perdem tudo, buscarão qualquer coisa que lhes seja oferecida (...) Mas quem nos oferece aquela qualquer coisa sem um fundamento preciso, correto e responsável tira vantagem de nosso desespero e de nossas esperanças. A vulnerabilidade dos pacientes de câncer e de seus entes queridos dá um poder enorme a quem se propõe a oferecer uma cura ou um tratamento. Quem tem esse poder deve ser obrigado a prestar contas de como o obteve e de como o utiliza". 
 Mais adiante, no que soa quase como uma prefiguração do "caso fosfo" brasileiro, com o incrível investimento de R$ 10 milhões liberados para a pesquisa da substância num momento de intensa restrição orçamentária para a ciência nacional, escreve:

"Quanto da pesquisa legítima sobre câncer é desacelerada por causa da presunção imerecida de poder daqueles que tomam para si os pacientes e o dinheiro de que a pesquisa legítima tão desesperadamente necessita?"
E este outro trecho, que parece sob medida para descrever os efeitos dos "20 anos de distribuição gratuita" da "fosfo" e o impacto dos depoimentos de pacientes satisfeitos, colhidos nesse tempo:

"Em vez de provar que terapias alternativas funcionam, depoimentos pessoais são os inimigos da prova. Primeiro, oferecem aos pacientes de câncer uma visão enviesada da eficácia do tratamento alternativo, escondendo possíveis falhas e fraquezas da terapia. Depois, a publicação exclusiva de depoimentos pessoais rouba da ciência estatísticas e informações que permitiriam aos médicos avaliar como todos os pacientes (e não apenas os que deixam testemunhos) reagem e tratam o câncer. Isso impede que pesquisadores tenham uma visão mais correta do que funciona e do que não funciona".

Enfim, o problema fundamental com a afirmação de que "qualquer esperança de saúde" é válida é que é quase impossível separá-la de uma espécie de salvo-conduto para que gente mal intencionada, vaidosa ou que simplesmente não sabe do que está falando saia por aí vendendo ou empurrando esperanças falsas e, no limite, destruindo a saúde e o patrimônio de vidas fragilizadas.

Repetindo as palavras de Burrows: "quem nos oferece aquela qualquer coisa sem um fundamento preciso, correto e responsável tira vantagem de nosso desespero e de nossas esperanças". E a "fosfo" carece, exatamente, de "um fundamento preciso, correto e responsável". Só o que se tem são meia dúzia de estudos em linhagens celulares e em camundongos, com dados insuficientes, até mesmo, para que se iniciem testes eticamente responsáveis em seres humanos.

Para o senso-comum que defende a "crença na crença" -- a ideia de que acreditar em alguma coisa, mesmo que seja bobagem, é melhor do que encarar fatos dolorosos -- isso talvez não seja, em princípio, um problema. Fazendo um rápido mea-culpa, eu mesmo nunca escrevi uma palavra contra a garrafada de babosa do frei Romano Zago, por exemplo, embora seu livro Câncer Tem Cura! seja um compêndio bastante didático de falácias lógicas e embaraços pseudocientíficos.

Sobre a "crença na crença", Edzard Ernst, um pesquisador especializado em terapias alternativas,
resume a situação numa equação: A+B > A. Com isso, ele quer dizer que uma terapia convencional ("A") somada a uma terapia alternativa ("B") quase sempre tem um impacto na saúde do paciente um pouco superior ao da terapia convencional sozinha, mesmo se a terapia "B" for objetivamente inútil, só por causa do efeito placebo -- o conforto psicológico de estar recebendo algo "especial".

Esse sistema, no entanto, depende de um equilíbrio hierárquico bastante preciso entre "A" e "B". O caso da "fosfo" -- insuflado por uma mídia irresponsável, abraçado por políticos ignorantes e desesperados -- quebrou esse equilíbrio de modo perigoso. De repente, muita gente começa a acreditar que "B" é melhor, vale mais, é superior a "A". Sugere-se que as pessoas abandonem "A", para que "B" possa funcionar. Indícios de que a "B" é inútil ou prejudicial são ignorados. E, no lance vexaminoso dessa semana, o próprio sistema legal de controle sanitário se vê sabotado, bem como os protocolos científicos, que existem por um bom motivo.

Voltando ao texto de Burrows:

"Se existe uma linha entre qualquer coisa que devemos tentar e as quaisquer coisas que não devemos, se existe uma linha entre quaisquer coisas que são ridículas e quaisquer coisas que não são ridículas, quem traça a linha? Quem decide? (...) Existe algo que traça uma linha mais clara: chama-se pesquisa científica".

Antes, no início do livro, ele escreve: "Descobri rapidamente que o mundo do câncer é um lugar vulnerável. É preciso força de vontade para resistir a pérolas de informação que presumem a própria validade, quando na verdade não têm nenhuma". Em minha humilde opinião, o governo, a mídia e a sociedade em geral deveriam estar somando suas forças a esse esforço de resistência, e não trabalhando de modo tão ativo contra ele.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Fosfo" sancionada: golpe nos outros é refresco

O Estado brasileiro -- e este é um ato de Estado, já que contou com a cumplicidade das duas Casas Legislativas, da Presidência da República e, anteriormente, de setores expressivos do Judiciário -- acaba de abraçar a aclamação popular como critério para a liberação de medicamentos. Com a canetada final da (ainda) presidente da República Dilma Rousseff, publicada no Diário Oficial da União, o Brasil volta aos tempos das sangrias, dos purgativos à base de metais tóxicos e dos calmantes para cólica infantil feitos de álcool e morfina: à época, enfim, em que a presença de um medicamento no mercado não era ditada por critérios de segurança e eficácia, mas pelo poder de marketing do fabricante e pela convicção popular.

A partir desta quinta-feira, 14 de abril de 2016, é legal " uso da substância fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna", bem como "a produção, manufatura, importação, distribuição, prescrição, dispensação, posse ou uso da fosfoetanolamina sintética, direcionados aos usos de que trata esta Lei, independentemente de registro sanitário".

A lei passa por cima de 110 anos de regulamentação sanitária e controle de medicamentos, normas criadas inicialmente nos Estados Unidos para evitar que cidadãos desavisados fossem enganados, roubados e até mesmo envenenados por charlatões.

Foi um processo lento, combatido duramente pela indústria (e, em alguns casos, até mesmo por médicos e pacientes) a cada passo: primeiro, começou-se a exigir prova de segurança (que o medicamento não faria mal); depois, de eficácia (que realmente produz os benefícios que promete); bem mais recentemente, instituíram-se mecanismos de vigilância para controlar efeitos colaterais.

Claro, o sistema nunca foi perfeito. Testes de segurança e eficácia podem dar resultados falsos; cientistas vinculados a empresas interessadas podem ser tentados a esconder dados negativos. E uma intensa pressão política contrária às regulamentações foi, ao longo do tempo, fazendo surgir exceções, categorias de produtos mantidas à margem de uma ou mais dessas regras: terapias "alternativas", "vitaminas", suplementos alimentares, cosméticos, tratamentos estéticos. Toda uma linguagem melíflua, toda uma semântica enganosa foi criada para permitir que a publicidade de certos produtos prometa benefícios à saúde sem, de fato, prometê-los ao pé da letra, esquivando-se, assim, das regras.

Com a sanção da lei 13.269, o Brasil dá um passo além -- ou, melhor dizendo, aquém -- nessa histórica corrida armamentista entre defesa do consumidor, defesa da saúde pública, ética científica, ética da comunicação, ganância, ignorância e charlatanismo: nossos representantes eleitos não se limitaram a relaxar os critérios racionais para a aprovação de medicamentos: eles decidiram claramente contra esses critérios.

Em sua preocupação com a saúde e o bem-estar do povo brasileiro, por exemplo, o legislador e a cúpula planaltina se esqueceram de definir o que querem dizer com "fosfoetanolamina sintética": seria o pó branco preparado segundo a receita patenteada pelo grupo de São Carlos? Mas laudos do Instituto de Química da Unicamp provam que esse "pó" contém apenas 32% de fosfoetanolamina real.

Seria fosfoetanolamina produzida por meio de síntese química -- "sintética", portanto --, independentemente do processo? Mas laudos da Universidade Federal do Ceará e do Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos de Santa Catarina mostram que essa molécula, por si só, é inútil contra o câncer. E quem vai garantir a pureza e a qualidade da substância encapsulada, já que o sistema nacional de vigilância sanitária foi contornado?

A ciência é bem clara. Mesmo supondo a hipótese improvável que novos testes venham a dar resultados positivos, a verdade é que, diante da informação disponível até agora, só o que se tem a favor do uso da "fosfo" contra o câncer são depoimentos de sobreviventes (uma amostra enviesada, já que os mortos não falam) e os protestos de uma minoria de cientistas convictos, todos altamente investidos -- no sentido emocional ou, mesmo, comercial -- no sucesso da substância.

Por esses mesmos critérios, purgantes e sangrias deveriam curar febre amarela e morfina com conhaque é um sedativo leve e inofensivo. E são esses os critérios que o Congresso Nacional e a Presidência da República elegeram como fundamentais. Há, claro, o clamor popular, neste caso insuflado por desespero e desinformação: à autoridade responsável caberia oferecer informação correta e apontar as esperanças reais, não ceder covardemente.

E, até aí, também há clamor pelo impeachment. É, no mínimo, constrangedor ver um governo que, para sobreviver, se bate por uma interpretação estrita das leis estabelecidas e se levanta contra eventuais interpretações casuísticas de determinadas cláusulas decidir, de repente, relativizar leis estabelecidas e sancionar um projeto casuístico. Fica claro que o que importa não é a lei, mas a sobrevivência. E a sobrevivência do mandato, não a dos pacientes de câncer, as maiores vítimas desse desacerto federal.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Simulação produz ribose em gelo de cometa

Ribose, um açúcar essencial para a estrutura do RNA, pode ser produzido no espaço por meio da irradiação de pedaços de gelo cósmico com a luz das estrelas, afirma artigo publicado na revista Science

“A ribose é a subunidade molecular central do RNA, mas sua origem abiótica é desconhecida”, lembram os autores, vinculados a instituições da França, México e Dinamarca. O RNA é essencial para a vida como existe na Terra, e cientistas acreditam que essa molécula pode ter desempenhado um papel fundamental na própria origem de nossa biosfera. 

O artigo prossegue: “Observamos a formação de quantidades substanciais de ribose e de uma diversidade de açúcares estruturalmente relacionados” entre os resíduos orgânicos obtidos em um gelo, produzido em laboratório, análogo ao existente no espaço interestelar, depois de o material ter sido tratado com radiação ultravioleta e aquecido. Esses resultados, lembram os autores, são consistentes com análises da superfície glacial do cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko (imagem), feitas pela sonda espacial Philae. (Leia o restante desta nota, e outras, no Telescópio da semana)