sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Gentileza gera... ?

Imagino que a maioria das pessoas gostaria de acreditar no ditado "gentileza gera gentileza". Mas também imagino que a maioria das pessoas já teve pelo menos uma oportunidade de sofrer na pele a confirmação da máxima oposta -- "gentileza gera gente folgada". Mais do que uma disputa entre otimismo e sarcasmo, no entanto, a tensão entre as duas frases, e os respectivos limites à aplicabilidade de cada uma delas, representa algo de profundo não só sobre a natureza humana, mas no campo da matemática conhecido como Teoria dos Jogos.

 Um dos problemas fundamentais da Teoria dos Jogos é o chamado Dilema do Prisioneiro. O problema costuma ser formulado em termos de "cooperação" e "deserção". Se um dos parceiros coopera e o outro deserta, o desertor recebe um grande prêmio e o cooperador fica sem nada. Se ambos cooperam, os dois recebem uma recompensa modesta. Se ambos desertam, ninguém leva nada.

Se o dilema é jogado apenas uma vez, a deserção -- que abre ao jogador as opções de ganhar muito ou nada -- parece uma solução melhor do que a cooperação -- onde os resultados possíveis são pouco ou nada. Mesmo o fato de que seu oponente também é um animal racional e, portanto, sabe disso não afeta o raciocínio: qualquer jogador que tenha motivos para acreditar que o outro vai cooperar tem, no fim, um incentivo a mais para desertar. Aqui, gentileza sem dúvida nenhuma gera gente folgada.

Agora, se o dilema é iterado -- isto é, jogado repetidas vezes pela mesma dupla de oponentes -- um novo padrão começa a emergir. Basicamente, os jogadores começam a usar suas decisões, cooperar ou desertar, como um meio de mandar recados um para o outro: se você deserta nesta jogada, eu deserto na seguinte; se você coopera nesta... talvez eu coopere na seguinte. Uma espiral infinita de deserções mútuas, produzindo lucro zero para ambos os lados, não interessa a ninguém, é claro.

Décadas atrás, o cientista político Robert M. Axelrod descobriu, depois de realizar um torneio e uma série de simulações de computador, que a melhor estratégia possível para o Dilema do Prisioneiro Iterado (DPI) é a chamada "tit-for-tat" ou "isso-por-aquilo": você coopera quando o adversário coopera, e deserta quando ele deserta. O que corresponde ao que, às vezes, é chamado de Regra de Bronze da ética: faça aos outros o que eles fazem com você. Simples assim.

Em resumo, no Dilema Iterado, gentileza gera mesmo gentileza.

Ou, ao menos, era o que se imaginava até o início deste ano, quando um artigo publicado na PNAS e coassinado por Freeman Dyson (sim, aquele Freeman Dyson) provou, matematicamente, que existe toda uma família de soluções satisfatórias para o DPI, da qual "tit-for-tat" é apenas um caso limite; e que muitas das soluções dessa família permitem extorquir pontos do oponente -- em outras palavras, forçá-lo a cooperar e a ser complacente com eventuais deserções. Gentileza pode, sim, gerar gente folgada, desde que essa gente seja folgada e muito esperta, também.

Mas há um detalhe: para funcionar, as estratégias extorsivas dependem, crucialmente, da ganância e da ignorância da vítima. Ignorância porque não é certo que a vítima perceba que está sendo explorada: as estratégias exploratórias não zeram o ganho da parte prejudicada, apenas fazem com que sejam menores do que poderiam. Ganância porque a única forma de a vítima escapar da exploração -- uma vez tendo reconhecido que ela existe -- é aceitando, ao menos por algumas rodadas, prejuízos ainda maiores do que os que já vinha sofrendo. É por isso, enfim, que as estratégias são extorsivas: não se submeter a elas implica grandes perdas.

De acordo com o codescobridor das estratégias extorsivas, William H. Press, a prova de que elas existem reduz o Dilema do Prisioneiro a uma modalidade de Ultimato. Este é outro jogo muito apreciado por cientistas sociais e, também, por estudiosos do comportamento animal. Nele, os participantes têm de dividir um recurso -- comida, dinheiro -- mas cada jogador tem um papel bem específico: a um deles cabe propor a divisão; enquanto que o outro tem poder de veto. O charme da coisa está no fato de que, se a proposta for vetada, ambos os participantes ficam sem nada.

Se ambos os jogadores de Ultimato forem perfeitamente racionais, o poder de veto nunca é exercido: mesmo que o propositor fique com, digamos, 99,9% do prêmio e ofereça apenas 0,1% para o parceiro, a única saída racional é aceitar: afinal, 0,1% ainda é melhor que nada. Mas a experiência mostra que a maioria das pessoas -- e alguns bichos -- preferem ficar sem nada, só para ensinar uma lição ao canalha egoísta.

A descoberta de Dyson e de William H. Press é, ao lado do bóson de Higgs, minha candidata a maior feito científico do ano. Mas o que ela diz sobre os frutos da gentileza, afinal? Eu diria que demonstra que gentileza até que gera gentileza, mas é bom ficar de olho e ter um porrete sempre à mão.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Já parou de bater na sua mãe?

Ninguém está livre de encontrar uma pergunta capciosa de vez em quando. E quando a pergunta aparece num formulário impresso, onde respostas mais elaboradas -- como, por exemplo, "nunca bati em minha mãe, pelo menos não deste lado do útero" -- são meio difíceis de encaixar, o resultado pode ser bem embaraçoso.

Ou enganoso. É por isso que a criação de questionários para pesquisas de opinião pública, ou para censos populacionais, é uma arte tão delicada. Um caso interessante é o do recente censo da Inglaterra e País de Gales, que revelou um aumento de mais de 60% na proporção de pessoas que se declaram sem religião.

Parte deste salto se deve, provavelmente, à campanha lançada pela Associação Humanista Britânica, exortando as pessoas que não praticam a religiosidade a responder "nenhuma" à pergunta "qual sua religião".

Com o provocativo título de "Se você não é religioso, pelo amor de Deus, diga isso", a campanha pedia que os britânicos que mantém uma identidade religiosa meramente inercial -- no Brasil, o caso típico seria o da pessoa que não vai à missa há anos, usa anticoncepcional e namora um divorciado, mas que se considera "católica" porque é o que a vovó gostaria de ouvir -- que reconhecessem o fato e fossem sinceras ao responder ao censo.

A campanha chamava atenção para o caráter capcioso da questão sobre religiosidade do censo, já que a pergunta é formulada do seguinte modo: "Qual a sua religião?", o que deixa subentendido que a pessoa deve ter uma. Pesquisa realizada pela Associação Humanista havia mostrado que, respondendo a essa pergunta, 53% das pessoas se declaravam cristãs. Já à fórmula "Você é religioso?", 65% responderam "não".

Mais ainda: 48% dos 53% de autodeclarados cristãos disseram não acreditar que Jesus é o filho de Deus que voltou dos mortos. É razoável supor que essas pessoas só se declararam cristãs porque a pergunta, "Qual sua religião", não deixava clara a distinção entre filiação cultural (ter sido criado num meio dominado pelo cristianismo) e adesão religiosa.

Trata-se, no entanto, de uma distinção importante. Números sobre religião e religiosidade são levados em conta na formulação de discursos eleitorais -- os candidatos têm de saber qual a maioria que deve ser bajulada --, com reflexo sobre políticas públicas e, claro, no balanço de poder entre os diversos grupos de pressão que tentam influenciar o governo. Se não fosse a percepção de que há milhões de devotos católicos no Brasil, a CNBB não se sentiria com cacife para fazer lobby na nomeação de ministros para o STF.

Ah, sim, o Brasil. A pergunta sobre religião no formulário amostral do Censo 2010 aparecia assim:








Repare que a questão anterior, sobre a língua usada no domicílio, toma um certo cuidado em evitar uma leitura capciosa (uma vez que os mudos, estritamente, não "falam", o parêntese avisa que o uso de linguagem de sinais também conta). Já os não religiosos não recebem a mesma cortesia.

A pergunta não só subentende, de forma peremptória, que o cidadão deve ter uma religião -- as outras questões que começam com  "qual a sua..." tratam de características universais: data de nascimento, idade e etnia -- como ainda oferece, como única alternativa, "culto" (se esse formulário completo tivesse aparecido lá em casa, acho que eu respondia "satânico").

Mesmo assim, 8% dos respondentes se declararam "sem religião". É de se imaginar qual teria sido o número  se a questão, na fórmula mais honesta sugerida pela associação britânica -- "Você é religioso?" ou, talvez, "Você tem religião?" estivesse incluída.

Uma tentativa de medir o total de ateus do mundo, lançada pela Aliança Ateia Internacional, funcionou por 17 horas antes de ser derrubada por hackers. Seria bom que voltasse ao ar.