quinta-feira, 5 de julho de 2012

Os Mundos de Philip José Farmer e eu

Philip José Farmer (1918-2009) é meu escritor favorito de ficção científica. Quem conhece o gênero geralmente se lembra de Farmer como o cara que introduziu (sem trocadilho) o sexo na fc -- primeiro com sua novela The Lovers, e depois com uma série de contos explorando as mais estrambóticas formas de cópula, envolvendo humanos e alienígenas, alienígenas e alienígenas e, às vezes, até humanos e humanos. Esse material todo aparece reunido no volume Strange Relations. Mas essa nunca foi, de fato, a vertente de sua obra que mais me atrai, embora eu certamente reconheça seu valor e a enorme energia imaginativa investida aí. Acontece que sempre preferi o Farmer autor de aventura.

Em séries como Riverworld e World of Tiers, ele cria planetas -- às vezes, universos inteiros -- com o que parece ser o objetivo único e precípuo de pôr o protagonista em apuros. São mundos e mais mundos que não passam de sequências de armadilhas engenhosas e vilões disfarçados. Ao mesmo tempo em que faz isso, no entanto, Farmer leva às últimas consequências lógicas uma série de especulações sobre, entre outras coisas, a natureza da realidade, o significado de uma obrigação ética e conceitos metafísicos como a alma imortal e a promessa de ressurreição dos mortos.

Fiz esse preâmbulo todo para encaixar aqui um comercial: após a morte de Farmer, passou a ser publicada uma série de livros, chamada Worlds of Philip José Farmer, coligindo contos meio difíceis de encontrar, artigos, fragmentos de obras inacabadas e textos sobre Farmer, além de uma seção de "mundos expandidos"  -- basicamente, peças de ficção, escritas por autores convidados, explorando os meandros do universo farmeriano. Os dois volumes publicados até agora já incluíram trabalhos de "mundo expandido" por gente como Spider Robinson e Chris Roberson.

E eis que o terceiro volume trará um conto meu -- escrito em parceria com Octavio Aragão -- chamado The Las of the Guaranys. O conto conecta Peri, o super-índio de José de Alencar, a um dos universos ficcionais de Farmer (para detalhes suplementares, favor comprar o livro, oras).

Esta é minha segunda publicação em inglês neste ano (a primeira foi um conto policial na revista Needle), mas o fato de envolver o universo farmeriano e de ser uma colaboração interestadual com o Octavio -- ele escrevendo no Rio, eu em São Paulo, os dois trocado parágrafos via Google Docs -- faz com que The Last of the Guaranys seja algo realmente especial.

Tenho a esperança, aliás, de que este não seja o último lançamento a envolver meu nome de 2012. Já publiquei uma postagem sobre as coisas que cometi e que estão no prelo, das quais, diga-se de passagem, a novela de fantasia As Dez Torres de Sangue já se encontra disponível, tanto em papel quanto em e-book, assim como a antologia Fantasias Urbanas, que contém minha visão pessoal de como será a parousia, a segunda vinda de Cristo.

Que mais dizer? Compre os livros, oras. E, assim, ajude o Orsi a continuar a beber cerveja Colorado em vez dessas barbaridades perpetradas pela AmBev. É, antes de mais nada, uma questão humanitária.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ladies and Gentlemen: o provável bóson de Higgs

Numa nota à imprensa divulgada nesta madrugada, o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN) anunciou que dois experimentos do Grande Colisor de Hádrons (LHC) encontraram "uma nova partícula com massa entre 125 e 126 GeV". Essa "nova partícula" é provavelmente a peça que faltava para completar o Modelo Padrão das partículas elementares, o bóson de Higgs.

(A unidade usada, giga-elétron-volt, é na verdade uma medida de energia, mas massa e energia podem ser convertidas uma na outra via E=mc2. Os 126 GeV correspondem, se não errei na contagem dos zeros, a 0,0000000000000000000002 gramas.)

Sei que para a maioria das pessoas o grande evento histórico desta quarta-feira é o jogo do Curíntia, mas tentemos pôr a questão do bóson de Higgs em perspectiva, pois não? vamos lá: o Modelo Padrão é uma grande teoria, elaborada ao longo do século passado, que explica as relações entre luz, eletricidade e as forças que atuam no núcleo do átomo. O Modelo Padrão é, ao fim e ao cabo, o arcabouço sobre o qual se sustentam a química, a biologia, a eletrônica e tudo o que sabemos sobre radiação e a respeito da estrutura fundamental da matéria.

Sendo uma teoria científica, o Modelo Padrão busca ser consistente e fazer previsões. "Consistente" quer dizer que ele não admite contradições: se uma parte do modelo diz, digamos, que todas as bananas maduras são amarelas, não pode haver outra parte dizendo que algumas bananas maduras são azuis. Quanto a fazer previsões, isso significa que o modelo afirma que certas coisas devem produzir certas consequências.

Isso não só é a base de muita tecnologia -- já que máquinas são criadas com base em previsões teóricas -- como também significa que o modelo é testável: se ele prevê uma determinada consequência e ela não ocorre, isso significa que há algo errado com ele (porque, afinal, o modelo deve ser consistente, e portanto não pode cair em contradição). A existência do bóson de Higgs é uma previsão deduzida do Modelo Padrão há 50 anos.

Cinco décadas. Difícil descrever a dimensão do triunfo: que mentes humanas tenham deduzido a existência de um componente fundamental do cosmo meio século antes de existir a tecnologia necessária para observá-lo.

Um triunfo, sem dúvida. No entanto, a nota do CERN diz que mais estudos ainda serão necessários para determinar se a nova partícula é mesmo o bóson previsto por Peter Higgs e colegas há 50 anos, já que suas propriedades ainda precisam ser melhor estudadas. A nota afirma que o sinal encontrado é "dramático", e que a presença da nova partícula é certa. Mas, será ela o bóson previsto?

Para além da questão da cautela protocolar, há outra razão para o suspense: o fato de que o Modelo Padrão, a despeito de todos os seus sucessos, é incompleto. Ele não dá conta da matéria escura que envolve as galáxias; não explica e energia escura que acelera a expansão do Universo; não integra a descrição da gravidade dada pela Teoria da Relatividade Geral. Seja ou não o Higgs, a nova partícula do CERN deverá representar uma ponte entre o Modelo Padrão limitado que temos hoje e alguma outra teoria, a fantástica física do amanhã.

Cada mistério resolvido, afinal, abre a porta para novas questões: todo novo conhecimento traz, consigo, a consciência de dimensões de ignorância que não havíamos notado até então. Mal comparando, é preciso primeiro saber que a China existe para, então, perceber que não se sabe falar chinês.

Seja ou não o Higgs previsto na teoria, a nova partícula de 125 GeV é um pedaço do Universo que ignorávamos até agora, um ingrediente da realidade que vivia escondido de nossos olhos. Assim como a Ilha de Hispaniola prefigurou o continente americano para Colombo, a partícula do CERN, seja ela o Higgs ou alguma coisa ainda mais exótica, aponta o caminho para territórios ainda inexplorados pela ciência: é o buraco da fechadura na porta que separa o que sabemos hoje daquilo que saberemos amanhã.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ciência, religião, cura gay

A Sociedade Brasileira de Genética (SBG) emitiu nota condenando o crescimento do ensino do criacionismo -- a ideia de que os seres vivos foram criados por Deus em sua forma atual -- em detrimento da teoria da evolução, originada por Charles Darwin e Alfred Russell Wallace no século19, e de lá para cá reforçada e reformulada à luz das descobertas de áreas tão díspares quanto geologia e genética.

A nota é muito importante, na medida em que marca posição num tema que deve se tornar cada vez mais candente com o crescimento do protestantismo evangélico no Brasil. Filosoficamente, ela adota uma postura que já foi majoritária nos países onde essa batalha é travada há mais tempo, com os EUA, mas que vem sendo cada vez mais criticada como, dependendo de quem se consulta, covarde, míope ou intelectualmente desonesta: trata-se da postura acomodacionista, segundo a qual não há nenhum conflito de fundo entre ciência e religião, porque, no fim, a ciência não tem nada a dizer sobre as "verdades" religiosas, e vice-versa.

No mesmo momento em que a nota acomodacionista surge, curiosamente, o Brasil debate sobre se psicólogos cristãos devem ter a liberdade de propalar a capacidade de "curar" o homossexualismo. Não deixa de ser interessante notar que esse debate ocorre no centenário de Alan Turing, possivelmente o maior gênio científico do século 20 (ao lado de Alberte Einstein) e que cometeu suicídio exatamente para escapar da crueldade da "cura" proposta para sua condição de homem gay.

Mas, voltando ao acomodacionismo: a nota da SBG afirma que "as perguntas e as causas sobrenaturais não fazem parte do questionamento hipotético e nem das explicações em todas as Ciências experimentais modernas. Por exemplo, a pergunta “Deus existe?” pode ser discutida por filósofos e cientistas (como pessoas com diferentes crenças, opiniões e ideologias), mas não pode ser abordada e respondida pela Ciência." E, mais adiante: "embora o criacionismo possa ser abordado como explicações não científicas em disciplinas de religião e de teologia".

Essa peça de retórica acomodacionista remete a um princípio conhecido como naturalismo metodológico, segundo o qual a missão da ciência é buscar causas naturais para fenômenos naturais.


Assim, por exemplo, a questão de se a Aids é uma praga enviada por Deus para castigar a promiscuidade sexual não cabe no escopo da ciência. Se Deus realmente criou a Aids, Ele o fez por meio de um agente presente na natureza, o vírus HIV, e é aí, no agente natural, que o questionamento científico deve parar. Qualquer coisa além é a província dos teólogos.


O acomodacionismo calcado na metodologia naturalista é, antes de mais nada, um movimento diplomático: desde o julgamento de Galileu que a maioria dos cientistas parece convencida de que, forçadas a optar entre ciência ou religião, as pessoas sacrificarão a primeira em nome da segunda, e o melhor, portanto, é manter o tigre obscurantista devidamente sedado.

Que o tigre provavelmente é de papel -- como mostram, por exemplo, a capitulação final do catolicismo ao sistema heliocêntrico, no século 19, e o avanço da cultura secular nos cantos mais civilizados do mundo -- é um dado que o trauma histórico parece obscurecer. Mas, além de ser diplomaticamente útil, seria o naturalismo metodológico filosoficamente respeitável? Existem, de fato, sérias dúvidas a respeito, como mostra um recente artigo publicado no periódico Science and Education Online.

Nele, os autores argumentam que o naturalismo não é um dado metodológico a priori do método científico, mas o oposto disso: uma conclusão a posteriori da prática científica. Em outras palavras, não é que a ciência abre mão de buscar o sobrenatural: é que, depois de séculos de investigação científica, o sobrenatural nunca deu as caras e, portanto, os cientistas simplesmente concluíram que não vale a pena perder tempo com ele.


Historicamente, a visão do naturalismo como uma conclusão, e não um pressuposto, da ciência parece bem sólida: a evolução de práticas estéreis, como alquimia e astrologia, para ciências frutíferas, como química e astronomia, envolveu o descarte dos elementos sobrenaturais. Não é preciso muita imaginação para ver que esse não é um resultado necessário do processo: se horóscopos, orações e transmutações alquímicas funcionassem, não haveria motivo para descartá-los do processo científico. Se foram descartados, foi por um motivo prático, não por uma picuinha metodológica.

Nessa visão, que se opõe ao acomodacionismo, a ciência põe o sobrenatural de lado não por uma questão de delimitação filosófica, mas porque ele é irrelevante. O salto do irrelevante para o inexistente é filosoficamente questionável, mas pragmaticamente sólido. Então, neste ponto de vista, a ciência mostra que, para todos os fins práticos, o sobrenatural -- inclusive Deus -- não existe.

O que nos traz de volta ao debate sobre a "cura" do homossexualismo. Os críticos do "pacto acomodacionista" sempre se queixaram de que os religiosos nunca tiveram pruridos em violá-lo, e este é mais um caso em tela.

 O conceito de doença mental é bastante suscetível às condições sociais: os esquizofrênicos de hoje são os profetas e messias de ontem, e nossa sociedade atual premia regiamente diversos comportamentos psicopatas e sociopatas. A única medida razoável de se um determinado estado-de-ser representa ou não doença mental é o sofrimento e o perigo que traz a quem se encontra nele, e às pessoas ao redor.

No consenso da comunidade internacional de saúde mental, o homossexualismo não é uma doença. Some-se a isso o fato, também largamente atestado, de que tentativas de "curá-lo" levam a resultados inócuos ou (como no caso de Turing) trágicos. Então, por que o debate?

Alguém poderia sugerir que, por conta de certos tipos de crença religiosa e condicionamento social, o homossexualismo representa uma fonte de sofrimento para algumas pessoas e, portanto, se encaixa numa das condições definidoras de doença mental. É possível, porém, afirmar que a patologia encontra-se, de fato, nas crenças e condicionamentos, não no homossexual: são a religião e a sociedade que precisam de tratamento, não o indivíduo. Por exemplo, um estudo publicado em 2003 aponta que "o desenvolvimento de uma identidade homossexual é um processo conectado a graves perigos (...) muitos adolescentes não recebem o apoio necessário porque a heterossexualidade é considerada a norma na maioria das culturas." O perigo, portanto, não é intrínseco: nasce na norma cultural arbitrária.


Um paralelo com o canhotismo -- o uso preferencial da mão esquerda -- não é difícil de traçar. Assim como ser gay, ser canhoto parece derivar de uma combinação mais ou menos complexa de predisposição genética e influência ambiental. Assim como ser gay, ser canhoto já foi visto como socialmente inaceitável. E, no entanto, hoje preferir usar a mão esquerda é, no máximo, uma fonte inócua de curiosidade.

A falsa polêmica mostra os limites da tese acomodacionista. No paraíso do acomodacionismo, a ciência trata das questões de fato e a religião, das de moral. Mas, e quando chega a hora de ceder uma "questão moral" para a lista das questões de fato, o que acontece? Uma tentativa, não raro violenta, de reapropriação, que deixa vidas destruídas pelo caminho. Foi o que vimos no caso do heliocentrismo, da evolução, do status do embrião humano e, agora, da "cura gay".

Acredito que esses dolorosos cabos-de-guerra continuarão a existir enquanto a comunidade científica insistir na versão, apenas aparentemente conveniente, do naturalismo como condição metodológica, de certa forma equivalente, no debate público, a preferências outras -- por exemplo, a da revelação divina ou da exegese da Escritura.

Da mesma forma que o criacionismo, nessa visão, pode ser abordado como "explicação alternativa" à evolução em aulas de teologia e religião, nada impede que o homossexualismo, eventualmente tratado de modo sóbrio e natural nas aulas de biologia ou de educação sexual, seja abordado como pecado vergonhoso nas de religião, reforçando, assim, a patologia social.

O que precisamos, mesmo, é de mais gente disposta a proclamar, no debate público, o naturalismo como conclusão lógica da ciência: reafirmando, sempre que necessário, que o sobrenatural não pode ser fonte de autoridade a respeito de nenhuma questão, moral ou de qualquer outro tipo, porque, pura e simplesmente, ou não existe, ou existe, mas é irrelevante. Por conseguinte, seus arautos, usem eles ternos ou batinas, não sabem do que estão falando -- e não deveriam ser levados a sério.