sábado, 2 de abril de 2011

Meu problema com a blasfêmia

Antes que o título desta postagem cause algum mal-entendido: sou totalmente a favor da blasfêmia. Um dos itens que mais valorizo em minha biblioteca é a clássica edição da revista Free Inquiry que publicou todas -- todas -- as caricaturas dinamarquesas de Maomé que tanto furor causaram alguns anos atrás.

Amaldiçoar, sacanear e ridicularizar divindades é um passatempo antigo e honrado, que deveria ser declarado patrimônio da humanidade pela Unesco. Em linhas mais gerais, eu diria que uma ideia que não é capaz de sobreviver a uma sátira não era uma boa ideia, para começo de conversa.

Meu problema com a blasfêmia, que volta a incomodar por causa da recente onda de violência em reação a uma queima do Alcorão, é outro: por que uma divindade tão maravilhosa, fantástica, onipotente e fodesdástica como supostamente são os deuses que o povo gosta de adorar por aí haveria de se incomodar com sacanagens feitas por merdinhas como nós?


Digo, eu tenho poder de vida e morte sobre as formigas que frequentam a cozinha de meu apartamento. O que elas pensam de mim, no entanto, é totalmente irrelevante: eu as mato quanto elas se tornam um incômodo, mas se elas, por exemplo, leem este blog e detonam tudo o que eu escrevo, isso simplesmente não me interessa. O que me interessa é o fato de elas aparecem dentro do açucareiro!

Então, por que um ser todo-poderoso haveria de se incomodar com o que dizem ou pensam criaturas tão insignificantes como nós? Este é o meu problema com a blasfêmia: a própria noção milita contra a causa das pessoas que acham que blasfêmia é uma coisa grave.

O problema, curiosamente, desaparece se adotamos uma hipótese memética para explicar a religião: de acordo com essa hipótese, ideias como divindade, oração, culto, etc., não têm uma origem sobrenatural, mas são padrões de pensamento e comportamento que se propagam de cérebro em cérebro, de geração em geração, de forma análoga à transmissão biológica dos genes.

Se -- trata-se apenas de um se -- a divindade não é uma Coisa Real, mas apenas um meme, a reação violenta à blasfêmia, de certa forma, se justifica: o ridículo produzido por seres humanos certamente não significa nada para uma entidade todo-poderosa, mas é uma ameaça bem concreta para uma ideia de origem humana.

Seriam, então, as reações violentas à blasfêmia um sinal do reconhecimento da fragilidade da ideia atacada? Eis uma reflexão para o fim de semana.

(Na imagem, o Deus do Trovão, que nunca deu marteladas em blasfemadores)

quinta-feira, 31 de março de 2011

FNAC Paulista, hoje, a partir das 19h

Acontece o lançamento de Assembleia Estelar, livro de contos sobre ficção científica e política que inclui, entre outras joias, Vemos As Coisas de Modo Diferente, uma pequena obra-prima de Bruce Sterling sobre o "choque de culturas" entre a democracia ocidental e o islã.

Publicado antes dos ataques de 11/9, o conto foi, previsivelmente, tratado como "profético" depois que as torres caíram -- mas hoje, diante dos eventos na Tunísia, Egito e Líbia, convida a uma leitura um tanto quanto diversa.

Como os leitores assíduos deste blog sabem, o livro inclui ainda um conto meu, Questão de Sobrevivência. Por conta disso, estarei lá! Os amigos que quiserem aparecer para dar um "oi" em pessoa serão mais do que bem-vindos.

Continuando na nota pessoal: ontem enviei meu segundo artigo em inglês para o blog de James Randi -- assim que souber quando (e se) será publicado, aviso.

Ao contrário do primeiro texto meu para lá, que era uma tradução/condensação de uma postagem deste blog, o novo é um original, que analisa o argumento de que a controvérsia sobre se celular causa câncer de cérebro é igual à que existiu envolvendo cigarro e câncer de pulmão. Um dia desses, quando tiver mais tempo, eu traduzo o arrazoado para o português e publico aqui.

Que mais? Ah, sim: amanhã, começo num emprego temporário -- uma cobertura de férias -- o que significa que este blog tende a ficar meio às moscas por algum tempo.

Meus planos ainda incluem tentar me estabelecer como autor independente e, assim, reduzir a atividade assalariada a um mínimo, mas enquanto os projetos em andamento não dão frutos, o negócio é me virar. Embora seja tentador continuar a desfrutar da doce e lenta dilapidação de minha indenização trabalhista, me parece sábio frear o processo quando possível, ainda que somente de tempos em tempos.

Enfim: vejo vocês hoje à noite!

quarta-feira, 30 de março de 2011

E, apresentando: Debussy


A cratera raiada acima, Debussy, é a principal atração da primeira imagem jamais feita a partir da órbita do planeta Mercúrio. Ela foi obtida pela sonda Messenger, da Nasa, e registra o terreno a 53,3º latitude sul, 13,0º longitude leste.

A Messenger entrou em órbita de Mercúrio no último dia 17, e a foto acima foi tirada ontem, dia 29. Mercúrio se encontra atualmente a 107 milhões de quilômetros de nós. Isso significa que a luz -- bem como as ondas de rádio usadas pela Messenger para se comunicar com a Terra -- leva 6 minutos para viajar de lá para cá.

O nome da cratera raiada é uma homenagem a Claude Debussy (1862-1918), importante compositor francês. Como já expliquei em outra postagem, todas as crateras de Mercúrio recebem nome de artistas.

'Eles riram de Einstein, de Galileu...'

Preenchendo uma lacuna imperdoável em minha formação, finalmente estou lendo The Making of the Atomic Bomb, monumental livro de 800 páginas de autoria de Richard Rhodes e que é, possivelmente, a melhor peça de jornalismo científico/história da ciência de todos os tempos.

Rhodes costura, de forma extremamente hábil e com sensibilidade de romancista, os avanços científicos que tornaram a bomba possível; a biografia dos homens (e mulheres) responsáveis por esses avanços; e as condições históricas e sociais que tornaram a bomba real e que levaram a seu uso, começando nos primórdios da física atômica, de um lado, e no papel da ciência na criação de armas (como gases letais e munições) para a I Guerra Mundial, de outro.

Uma das muitas coisas que chama atenção nesse quadro -- e que de que gostaria de tratar nesta postagem -- é o número de ideias tidas como "absurdas" ou "inviáveis" que se mostraram corretas em todo o processo.

Em dado momento, era consenso entre pesos-pesados como Rutherford, Einstein e Bohr que a liberação da energia nuclear não passava de fantasia; Fermi, por sua vez, simplesmente se recusou, durante um bom tempo, a acreditar que havia descoberto a fissão atômica; e mesmo Leo Szilard, o homem que havia patenteado o conceito do reator nuclear antes da eclosão da II Guerra, num dado momento chegou a se convencer de que sua patente era inútil.

(Dado geek aleatório: Szilard, que era húngaro, viajou à Inglaterra pela primeira vez não como cientista, mas como editor, numa tentativa de adquirir os direitos da obra de H.G. Wells para o mercado centro-europeu.)

Estavam todos, é claro, errados. Exemplos assim geram bons momentos dramáticos, e costumam ser lembrados por gente que se vê (ou se imagina) lutando corajosamente contra a ortodoxia científica.

O outro lado da história, porém, é o de que foi a própria "ortodoxia científica" que acabou expondo os erros de seus luminares. E que, uma vez corrigidos, os luminares passaram a trabalhar alegremente com os novos fatos comprovados.

Enfim, o fato de uma ideia ser considerada idiota pelos principais cientistas de uma época não dá a seu autor o direito a reivindicar nenhum privilégio especial, além do de ter gerado uma ideia idiota.

Se o autor estiver certo e os principais cientistas, errados, é o próprio método científico -- o esforço conjunto da comunidade científica -- que vai se encarregar de demonstrar isso. Não existem, a despeito da ampla mitologia sobre gênios incompreendidos e mestres tapados, atalhos intuitivos para a verdade.

E não adianta bater no peito bradando que "Eles riram de Newton. Eles riram de Galileu. Eles riram de Einstein. Eles, agora, riem de mim". Parafraseando Carl Sagan, "eles" também riram de Carequinha e Piolim.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Nômade na escola!

Hoje passei a manhã inteira no Colégio Leonardo da Vinci, conversando com alunos do 1º ano do Ensino Médio (é assim que se chama ao o Primeiro Colegial atualmente?) sobre meu romance juvenil Nômade (link para venda na coluna à direita).

Eu já havia conversado com jovens leitores antes -- há alguns anos, o mesmo colégio adotara meu volume de contos Tempos de Fúria -- mas, claro, cada classe e cada geração tem características próprias. Foi muito engraçado ver a conversa derivar, numa classe, para a Teoria da Relatividade (afinal, por que Nômade demora tanto para chegar a seu destino?) e, em outra, recomendar a leitura de Philip José Farmer, Philip K. Dick, Rex Stout e Homero, atendendo à solicitação de um jovem leitor voraz por indicações.

Também me perguntaram como a gravidade artificial da nave funciona, ao que tive de responder que não faço a mais mínima ideia. Outras questões, como até que ponto o que está no livro pode acontecer ou é factível e por que eu decidi respeitar as leis de Newton à risca, teriam levado a uma exploração bastante curiosa de noções como fc hard, soft, fantasia, etc. -- se tivéssemos umas doze horas para jogar conversa fora, claro.

O professor responsável pela adoção do livro, Fernando Bandini, fez um bom trabalho para manter a atividade sob controle, e ouso imaginar que a garotada tinha mesmo gostado do livro e até estava interessada no que eu tinha a dizer.

(Se bem que, mais tarde, descobri, no Twitter, postagem de uma menina que me pediu um autógrafo gabando-se de ter obtido a assinatura "de um escritor desconhecido". Ah, a crueldade da juventude... Por outro lado, uma garota me confidenciou que havia "adorado" o livro, o que o ego, penhorado, agradece.)

Mudando um pouco de assunto, ais para o fim da semana, na quinta-feira, 31, participo do lançamento de Assembleia Estelar, na FNAC da Avenida Paulista, a partir das 19h.